Tudo o que você precisa saber sobre as eleições americanas e os seus impactos no mercado

As eleições americanas de 2016 apresentam os candidatos mais rejeitados de todos os tempos. Praticamente 50% dos eleitores não confiam em nenhum dos candidatos. Mais do que isso , aproximadamente a metade dos eleitores votarão em Hillary para que Trump não seja eleito e vice-versa.

Além dessa característica impressionante dessas eleições, podemos observar uma série de mega tendências sociais justificando a postura dos candidatos e o seu “sucesso”.

Trump foi muito hábil em capturar a insatisfação da classe média com Washington, especialmente a classe média baixa formada por brancos de menor graduação. Essa insatisfação é fruto de uma renda praticamente estagnada desde 1977, com o seu pico histórico em 1999. Ou seja, o americano médio sente que está trabalhando cada vez mais para manter o mesmo nível de vida, remando sem sair do lugar.

Há uma série de fatores está por trás dessa realidade que não abordaremos aqui. Para os propósitos dessa avaliação, podemos apenas concluir que Trump tem um grande apelo a esse eleitorado, de forma populista jogando a culpa na globalização que levaram empresas para fora dos EUA e nos imigrantes ilegais que teriam roubado empregos. A chamada “Make America Great Again” também apela ao nacionalismo americano, ferido por anos de uma política externa frouxa de Obama.

Por outro lado Hillary consegue o feito de atrair o eleitorado que está no topo da pirâmide social e também a base dessa pirâmide, defendendo uma plataforma cada vez mais socialista e também populista, prometendo mais bolsas e cotas que seriam bancados por impostos mais altos ao andar de cima. Por que o andar de cima apoia esse arranjo? Simples, é muito mais barato pagar mais impostos e continuar fazendo bilhões num mercado hiper regulamentado que produz a reserva de mercado aos gigantes, enquanto os mais pobres são “acomodados” pelas políticas sociais.

Por mais estranho que possa parecer, temos a polarização entre pobres, classe média alta “White Collar” e bilionários contra a classe média baixa, conhecida aqui pela expressão “Blue Collar”.

Hillary é a candidata preferida de Wall Street porque representa a continuidade do governo Obama, e o mercado odeia incertezas. Além disso, uma política de mercado aberto ao mundo associada a uma maior regulamentação que proteja os grandes oligopólios é um bom arranjo para o mercado financeiro.

Afinal de contas, Hillary é a típica política de carreira que povoa Washington ou a capital administrativa de qualquer grande país. Depois de sair da Casa Branca quebrados, conforme Hillary conta em sua própria biografia, eles montaram uma Fundação para trabalhar em “causas humanitárias”, se é que o enriquecimento do casal pode gerar algo positivo para a humanidade… Na verdade a Fundação foi uma forma de dar legitimidade ao bom e velho tráfico de influência, ou aqui conhecido como “pay for play”. Alguém com interesses no governo fazia uma doação aos Clinton e tinha as suas “necessidades” em Washington prontamente atendidas. Qualquer semelhança com o Instituto Lula não é mera coincidência. Ou seja, Wall Street enxerga Hillary como uma presidente que pode ser controlada.

Os Clinton criaram raízes tão profundas na política americana que mesmo Hillary sendo pega mentindo num feio escândalo de ocultação de provas e descuido com informações que colocaram em risco o país, ela não foi indiciada pelo FBI, num caso que criou mal-estar até mesmo entre democratas.

Nos últimos meses, Hillary deu uma boa guinada a esquerda, até por influência do fenômeno Bernie Sanders, o senador de Vermount que poderia muito bem ter nascido na América Latina, pois a sua retórica lembra muito bem os líderes bolivarianos venezuelanos. Ele só não ganhou as primárias do Partido Democrata porque seus dirigentes boicotaram a sua candidatura, como ficou provado em e-mails vazados alguns meses atrás. De qualquer forma, a sua proposta de “governo grátis” fez muito sucesso entre os mais jovens, demonstrando que o risco socialista nunca foi tão grande nos EUA.

Até que ponto Hillary implementaria uma agenda socialista é uma das incógnitas de um eventual governo dela. Creio que é um risco que Wall Street está subestimando, da mesma forma que a banca brasileira subestimou num governo petista, o que produziu a maior crise da história do país.

Por outro lado, o mercado teme Trump por vários motivos, em primeiro lugar porque ele é percebido como um bilionário narcisista e teimoso, podendo tomar decisões por impulso. Além disso, a sua postura protecionista pode machucar a economia americana. Definitivamente ele não seria um candidato “controlável”. Particularmente acredito que um governo Trump seria muito diferente do esperado, durante a própria campanha o candidato já baixou o tom em relação aos imigrantes ilegais.

O ponto forte de Trump, de opiniões contundentes e politicamente incorretas é também o seu ponto fraco, pois em várias oportunidades ele entra em polêmicas desnecessárias. A sua relação com as mulheres também tem sido um ponto explorado pelos seus adversários, que o traçam como o playboy que trata as mulheres como objeto, apesar das suas empresas terem mais mulheres em cargos de gerência que a média, com melhores salários.

Esse Calcanhar de Aquiles talvez custe a Trump a eleição. Ontem foi divulgada uma gravação de 2005, onde ele foi pego aparentemente sem querer numa conversa de bastidores se gabando de ser “pegador”, utilizando uma linguagem chula e ofensiva. O efeito até agora foi devastador, com várias lideranças retirando apoio a ele e até mesmo exigindo a sua renúncia, mesmo com o candidato pedindo desculpas pela postura.

Outro aspecto a ser mencionado é a postura da imprensa, amplamente favorável a Hillary, mesmo com o seu telhado de vidro e do seu marido, um reconhecido “predador sexual”, acusado até mesmo de estupro por várias mulheres.

A postura da imprensa só demonstra quanto o establishment americano e global não quer Trump como presidente, pois de fato ele seria um sujeito que não baixaria a cabeça para grupos de pressão, para o bem ou para o mal.

Nas casas de aposta sobre o resultado eleitoral, as chances de Trump caíram significativamente, para 18%, enquanto estavam em 40% algumas semanas atrás.

Mesmo assim, creio que o jogo está longe de estar definido. Apesar de toda a máquina midiática e governamental estar usando o seu poder para esmagar Trump, ele conta com uma mega tendência social a seu favor, de frustração com o governo. Se ele pudesse ser mais “aceitável” do ponto de vista de comportamento pessoal, ele estaria vários pontos a frente nas pesquisas.

Ainda há a possibilidade dele renunciar, onde o seu vice poderia assumir a campanha, ou mesmo o candidato anterior, Mitt Romney, o que mudaria o jogo, apesar de faltar pouquíssimo tempo para as eleições que ocorrem em 08 de novembro.

Hoje a noite, dia 09 de outubro, teremos um debate que promete ser muito agressivo, depois de Hillary ter se saído melhor no primeiro debate que ocorreu duas semanas atrás. Trump acuada deve partir para o tudo ou nada, Hillary deve explorar a “conversa de bar” de Trump.

De qualquer forma, o mercado deve abrir em alta na segunda-feira, precificando uma vitória mais provável de Hillary, com movimento positivo para ações e negativo para ouro e treasuries. Mas a volatilidade pode aumentar caso ocorra uma reviravolta na campanha com a mudança de candidato, por exemplo. Ou a divulgação de mais algum escândalo dos Clinton.

Independente de quem ganhar, devemos ter muita instabilidade, pois a legitimidade de um governo Trump ou Hillary fica colocada em questão desde o primeiro dia pelo nível de aversão a cada um desses candidatos. Especialmente numa situação de recuperação econômica frágil e de insatisfação generalizada do público, sem contar a complexidade geopolítica atual, com o Oriente Médio implodindo, Europa ameaçada pelo terrorismo islâmico e pela possível desintegração da UE, além de uma Rússia cada vez mais agressiva militarmente.

Finalizando, no caso de uma virada eleitoral, com Trump aumentando as chances de ser presidente, devemos observar alguma correção mais forte do mercado por conta das incertezas geradas, acompanhada de uma alta de ouro, treasuries e do próprio dólar, com posterior acomodação quando ficar claro que o candidato não fará nenhuma “loucura” na política monetária ou comercial.


Originally published at www.libertaglobal.com .

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