Chove

Centro de Governador Valadares (MG). Pico do Ibituruna ao fundo. Foto: Leandro Silva

Depois de dias de calor, finalmente começa a chover. Você olha pela janela e não vê nada de interessante do outro lado. Não dá para ir no mercado, nem caminhar serelepe por aí. Quando o aguaceiro cai bem na hora de sair para o trabalho, dá até uma certa angústia. Mas se for em um dia de folga, acontece uma espécie de festa interior. O peito parece segurar foguetes pipocando em dia de réveillon, e a cada explosão suas luzes vão desenhado uma expressão de alegria no rosto de quem fica em casa.

O som da chuva no chão, no telhado e nas folhas das árvores formam uma melodia prazerosa aos ouvidos de quem ansiava por novos ares, por sentir a mágica do organismo fazendo a pele se adaptar à temperatura. O tempo chuvoso estimula a inteligência, pois faz o sujeito pensar duas vezes, escolher entre o aconchego e o lado de fora. O raciocínio é rápido e a decisão é certa e generosa.

No lar, os passos apressados pelos cômodos da casa apontam a confusão emocional, tamanho o êxtase de quem refaz a vida e os planos em função da chuva. É preciso esquematizar onde colocar as roupas para secarem mais rápido, lembrar onde estão as capas, as botas e o guarda-chuva. E o que comer? O cardápio oscila entre sopas de legumes, caldos personalizados e bebidas diversificadas.

Chove, e em torno da mesa da cozinha e a família sorri e gesticula freneticamente numa prosa gostosa, enquanto o aroma do café sai do coador e se espalha pelo ambiente aguçando os sentidos. Chove, e os amantes se aquecem. Dentro de algum quarto, alguém se enrola em um cobertor e se agarra a uma xícara de chocolate quente, sentido suas mãos pelarem absorvendo o calor do recipiente.

Quando vem chuva, tem gente que gosta de assistir séries ou filmes estirados pelo tapete da sala, embolados junto às almofadas. Outros se satisfazem com uma dose de chá, sossego, uma poltrona confortável e um bom livro de companhia. Há aqueles que preferem, simplesmente, dormir. Ela, que não cai há meses por aqui, faz falta. Enquanto não chove de fato, meus pensamentos vão se refrescando com gotas de lembranças.

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