Do receio de ser caluniado

«A Calúnia de Apeles» por Botticelli (1495)

As Sagradas Escrituras apontam que Nosso Senhor irá julgar-nos. Sim, o Bom Pastor que ama suas ovelhas irá revestir-Se de Glória e julgará os vivos e os mortos, como assim professa-se o Credo. O que parece difícil concluir é que onde existe julgamento, há uma sentença, podendo ser favorável ou não, a salvação ou a condenação perpétua.

Necessita-se trazer isso a memória pelo temor que muitos possuem em aceitar calunias, afinal, até o Dia do Juízo, todos estão na mesma situação de réus, mas não é incomum ver um ou outro que se elevam aos altares por vontade própria, pondo suas vidas à exemplo. Claro, ser caluniado é injusto e algo que o senso de justiça clama por reparação, e se possível, é dever de quem praticou o mal reparar seu pecado, no entanto, o que de pior pode lhe ocorrer por culpa de uma mentira levantada a seu respeito? A perda de uma oportunidade de emprego, um gordo contrato empresarial rescindido, uma amizade até então duradoura diluída, prejuízos mui clangorosos, pena tudo não passar de vaidade, como aponta as Escrituras.

Veja, é considerável um tremendo infortúnio tudo o que há de vir a ser desfeito por conta de uma retaliação a vida pessoal e a conduta de quem quer que seja, ainda mais se o caluniado for um homem justo, o problema está nessa gigantesca soberba de em autoproclamar-se «de confiança», mesmo entre estranhos que sequer questionam seus valores. Cristo mostra como deve ser o desprendimento daquele que aspira a glória eterna e não os honoríficos mundanos com sua plena aceitação das injurias proferidas por seus caluniadores nos seis julgamentos que passou até sua condenação na Cruz. Falou somente quando pressionado a defender-Se, e assim o fez, sem alarde, sem apelos afetados a justiça terrena, deixando por conta de quem O julgou concluir se era ou não culpado. O agir de Jesus conclui o que já era sabido por seus discípulos — Ele já havia sido condenado antes de entrar em júri.

O Relato da Paixão expõe como funciona o coração do mentiroso, condena antes de julgar, desenrolando tudo para ir de encontro com o que já concluíra, simulando qualquer coisa de justiça para praticar a injustiça. Então, os que pensam ter direito de resposta fronte a alguma perseguição vexatória, seria ideal parar e aceitar o fardo, seguindo uma vida que desminta por si o que lhe atribuíram. A diferença do julgamento dos homens para o julgamento de Deus é sua dissolubilidade, mesmo quando ocasiona vítimas a morte. Ora, não fora São João Baptista condenado a morte pelo adúltero Antipas? O que dizer dos Santos Apóstolos mortos das mais desonrosas formas por darem testemunho da Verdade ignorada pelos judeus e pagãos? O próprio Cristo passou por similar difamação, e a história brindou-O com a inocência mesmo após a morte momentânea.

Perante o Autor da Vida, fronte ao Deus dos Exércitos, as infâmias são dissolvidas, restando unicamente a Verdade. Desconfie de quem apavora-se por ter ouvido uma ou outra calunia a respeito próprio. Se não culpado pela mentira infundida, tornar-se-á pela vanglória de sua própria retidão. De justo a ímpio pelo desejo de justo ser. Quem em tudo busca orgulhar-se, acaba por não agradar a Deus em nada. A Espiritualidade Jesuíta instrui o exercitante a humilhar-se sempre que receber alguma consolação. Atribuir suas bem-aventuranças a Vontade Divina, deixando toda honra e toda glória ao Merecedor Único. «Se em tua caminhada não bateres de frente com o diabo, é porque estás caminhando na mesma direção que ele» — assim disse o Santo Cura D’Ars, e assim procede a vida humana até o seu fim. A mentira em vida é uma ferramenta mefistofélica. O diabo há de atentar pelos paparicos dos tapinhas nas costas por bons méritos, como por injúrias escorchantes pelos mesmos. Há a certeza que uma difamação só eclipsia os méritos temporais, e bem agir e a livre iniciativa de tomar posse mesmo do que lhe foi imbuído injustamente, há de elevar-te a Deus.

Para clamar a Deus a infusão da coragem de tomar as calunias atribuídas a si, o Cardeal Rafael Merry del Val por inspiração do Altíssimo presenteia-nos com a belíssima «Ladainha da Humildade»:

Ó Jesus, manso e humilde de coração, ouvi-me.
Do desejo de ser estimado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser amado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser conhecido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser honrado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser louvado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser preferido, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser consultado, livrai-me, ó Jesus.
Do desejo de ser aprovado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser humilhado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser desprezado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de sofrer repulsas, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser caluniado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser esquecido, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser ridicularizado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser infamado, livrai-me, ó Jesus.
Do receio de ser objeto de suspeita, livrai-me, ó Jesus.
Que os outros sejam amados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros sejam estimados mais do que eu, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam elevar-se na opinião do mundo, e que eu possa ser diminuido, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser louvados e eu desprezado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.
Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

«Ladainha da humildade»

MONTFORT Associação Cultural

http://www.montfort.org.br/bra/oracoes/ladainhas/humildade/

Online, 29/08/2016 às 19:15:27h

Que os outros possam ser escolhidos e eu posto de lado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

Que os outros possam ser louvados e eu desprezado, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

Que os outros possam ser preferidos a mim em todas as coisas, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

Que os outros possam ser mais santos do que eu, embora me torne o mais santo quanto me for possível, Jesus, dai-me a graça de desejá-lo.

“Ladainha da humildade”

MONTFORT Associação Cultural

http://www.montfort.org.br/bra/oracoes/ladainhas/humildade/

Online, 29/08/2016 às 19:15:27h

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