Foto extraída de uma postagem do blog português “Pátio dos Gentios”. Atualmente o blog está sendo desativado.

Por que o anel de tucum? — Parte I

Leandro VK Sousa
Jul 31, 2014 · 5 min read

Da opção pelos pobres à Igreja Popular

(Artigo publicado no Jornal “Testemunho da Fé” — órgão oficial da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro/ Igreja no Brasil — Arquidiocese 1997 ?)

Por Dom Amaury Castanho

Conhecedor da história da Igreja, não sei de tempos seus, nestes 20 séculos, em que ela não tenha tido graves problemas e tensões perigosas em seu interior. Problemas, tensões e crises! Já os enfrentara a Igreja nascente, no primeiro século, com judaizantes. Depois, vieram as perseguições do Império Romano. Seguiram-se as invasões, com os hunos às portas de Roma e os bárbaros devastando toda a cristandade. Seguiram-se o arianismo e o pelagianismo, o nestorianismo e o iconoclastismo. Mais adiante, o maometanismo varrerá o cristianismo de todo o norte da África.

O século X foi tão agitado que os historiadores da Igreja o tem como o “século de ferro”. Na Idade Média, tempo marcados pela fé e pelo prestígio dos Papas, é preciso lembrar os problemas causados pelos albigenses e cátaros e os desencontros em trono da questão das investiduras. Depois, houve o Cisma do Oriente e os tumultos da Reforma Protestante no Ocidente, seguindo-se guerras de fundo religiosos, com violências de parte a parte. Não foram tranquilos para a Igreja os tempos da renascença e da Idade Moderna, com o advento do racionalismo e do capitalismo “selvagem”, os conflitos aparentes entre fé e ciência. Já se sabe quantos sofrimentos e mortes de bispos e leigos militantes, trouxeram o comunismo e o nazismo, em nosso século (XX). Hoje , estamos todos, Igreja e Governo, diante da ameaça do fundamentalismo muçulmano…

A prometida perene presença de Cristo em sua Igreja — “Estarei todos os dias convosco até o fim dos tempos” (Mt. 28,20) nunca significou que a barca de Pedro não enfrentaria ventos e tempestades. Sempre houve e sempre haverá tensões mais ou menos graves, no interior da Igreja. E como não bastasse, as “forças do inferno”, expressão usada pelo Senhor (Mt. 16,18), haveriam de investir contra a sua Igreja, procurando, se possível, destruí-la. Os fatos continuam confirmando a verdade da profecia de Cristo.

Após o Concílio Vaticano II, que o Papa João XXIII sonhava como um “novo pentecostes” e uma “nova primavera” na Igreja, a partir de 1965, quando Paulo VI o encerrou, uma terrível tempestade abateu-se sobre a barca de Pedro. Milhares de sacerdotes, religiosos e freiras abandonaram o próprio ministério, renegando seus votos. A Teologia da Libertação, de corte marxista, extremou-se em posições radicalizadas e contestadoras, ideologizadas e partidárias. Doutra parte, o integrismo do ex — arcebispo Marcel Lefebvre e dos seus seguidores, acabou levando a nova cisão no interior da Igreja (1988). A autoridade pontifícia vem sendo contestada por muitos. Só Deus sabe dos sofrimentos do Papa Paulo VI, quando da publicação de sua encíclica “Humanae Vitae”, sobre o dom da vida e do planejamento familiar.

O curioso anel de tucum, feito do caroço de uma palmeira nordestina, é hoje o sinal da contestação no seio da Igreja. Um deles, e talvez, o mais sério. Está nos dedos da mão de bom número de padres , e seminaristas, religiosos, religiosas e leigos. Se é verdade que alguns o usam inconsciente — sempre haverá “inocentes úteis” mesmo na Igreja —, não é menos verdade que a maioria o traz, numa acintosa afirmação de sua clara opção por uma eclesiologia que não é , certamente, a eclesiologia da “Lumem Gentium”, do Concílio Vaticano II.

O anel de tucum envolve, implícita e explicitamente, opções heterodoxas, por uma Igreja tida como Igreja popular, em oposição é Igreja hierárquica, a única instituída por Cristo. Expressa uma discutível e já condenada opção “excludente e exclusiva” pelos pobres, marginalizando quem não o seja, como opressor. A partir de uma análise marxista e parcial da realidade, os que portam o anel de tucum não titubeiam em propor soluções revolucionárias, lutas de classes, guerrilhas, violências e terrorismo, que nada tem de evangélico e cristão.

Os que o ostentam é a expressão exata do anel de tucum, não poupam críticas à Cúria Romana e ao Papa, pautando-se no livro de Leonardo Boff (ex-religioso e sacerdote franciscano) “Igreja. Carisma e Poder”. Valorizando muito mais a Igreja diocesana, particular , melhor dizendo a “Igreja Popular”, a verdade é que apenas sintonizam com bispos complacentes e liberais, que a grande imprensa insiste rotular de ‘progressistas”…

É a divisão no interior da Igreja de Cristo, enfraquecendo-a, distanciando as ovelhas dos pastores, opondo bispos ao Papa, bispos entre si, padres e leigos a bispos; CEB’s (Comunidades Eclesiais de Base), PJ (Pastoral da Juventude), CPT (Comissão Pastoral da Terra) e CIMI (Conselho Indiginista Missionário) a Associações Religiosas ( Irmandades, Confrarias, Ligas, Ordens Terceiras ou Fraternidades Seculares etc), a Movimentos Apostólicos (Cruzada Eucarística, Ação Católica, Filhas de Maria, Encontro de Casais com Cristo, Cursilhos da Cristandade, Congregação Mariana, Opus Dei, Movimento Sacerdotal Mariano, Legionários de Cristo, Apostolado da Oração, Legião de Maria etc.). Enquanto isso os inimigos da Igreja se divertem, aplaudem e felicitam-se. É o que desejam: uma Igreja que não seja uma comunidade de amor, unindo os fiéis a Cristo e entre si, os fiéis com seus pastores. Não dando testemunho de amor e da unidade, a evangelização fica travada e o Reino de Deus não se dilata!


Formou-se em Filosofia e Teologia na Universidade Gregoriana em Roma, cidade onde foi ordenado sacerdote em 1951 e tornou-se em Campinas/SP jornalista profissional em 1952. Como um presbítero atuante e culto exerceu por vários anos diversos cargos no mundo acadêmico, como professor e pesquisador, destacando-se o cargo de vice-reitor da PUC- Campinas e também atuou junto a Arquidiocese de São Paulo onde foi coordenador da Pastoral da Comunicação e outras instituições do arcebispado paulipotano. Passado alguns anos retornou a sua Arquidiocese de Campinas, continuando seu apostolado.

Em 1976 foi eleito pelo Papa Paulo VI, para o episcopado, exerceu seu múnus pastoral inicialmente como bispo auxiliar de Sorocaba/SP, depois em 1980 foi transferido para a Bispado de Valença/RJ como bispo diocesano. Em 1989 torna-se bispo coadjutor (com direito a sucessão) na Diocese de Jundiaí/SP, onde em 1996 finalmente passou a ser o bispo diocesano . Em 2004 torna-se bispo emérito e retira-se para a “Roma brasileira”, a imperial e histórica cidade de Itú/SP, vindo a falecer em 2006. Foi um dos destaques do episcopado brasileiro Pós-Concílio Vaticano II seguindo por palavras e atitudes os ensinamentos do Senhor através da fidelidade à Igreja de Cristo.


In Memoriam Prof. Waldemar Tavares Junior

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