das mudanças

ontem eu doei um monte daquelas camisetas,
de mil e uma causas pelas quais trabalhei.
primeiro elas eram parte do meu dia-a-dia,
um uniforme fora da escola.
depois viraram roupa de praia,
academia,
pijama.
mais ou menos na época em que eu comecei a não ir mais a reuniões.
em que percebi que eu não conseguia ficar nas reuniões
sem querer lanhar meus braços com minhas próprias unhas
ou ter palpitações.
foi mais ou menos na época em que eu cansei de ter “companheiros”
e me esforcei para ficar com os amigos.
os panfletos foram para uma pasta, dentro de uma caixa,
que hoje está no alto do meu armário.
com as camisetas eu dormia,
talvez sonhando que um dia fosse voltar a ver sentido em uma vida massacrante
com a aspiração de acabar com o massacre da vida cotidiana.
eu quase não sobrevivi a esses sonhos coletivos.
na mudança, arrumando a casa nova
e conhecendo essa mulher totalmente estranha a mim
(fora da depressão, com a ansiedade sob controle
e um amor próprio que eu nunca tive antes),
as camisetas puídas pareceram ocupar espaço demais nas gavetas
(eu alimentava a ilusão de, um dia,
fazer uma colcha de retalhos com os seus emblemas)
e estou experimentando essa coisa nova
de guardar só o que me faz bem.
