“Ser trocada por um homem”

Namorar mesmo oficialmente, que durasse mais de um mês, eu namorei três pessoas nessa vida. Meu relacionamento mais comprido a gente não chamava de namoro, mas vá lá, quatro pessoas.
Dessas quatro, os dois primeiros foram quando eu ainda estava no armário. Os outros dois foram um cara cis e uma mina pan cis.
O primeiro namorado da minha vida eu nem gostava lá muito dele. Foi um combo de: eu era "hétero" e sentia "umas coisas muito estranhas pela minha melhor amiga" (que era praticamente minha namorada, mas a gente não beijava porque as duas "eram hétero") com a minha auto estima ser absurdamente baixa e eu achar que precisava ficar com quase todo homem que estivesse afim de mim.
Depois de sair do armário, eu passei muito tempo mais ou menos no armário ("discreta e fora do meio") na minha vida social. Tinha medo de chegar em meninas e elas serem héteros e não quererem nada comigo, não sabia onde tinha os rolês sapatão, vivia um loop infinito na minha cabeça de “eu não sou LGBT o bastante para me enfiar na comunidade”que me fazia não ficar com meninas que me fazia não ser LGBT o bastante porque eu não ficava com meninas. Homens eram simples, eu tinha sido programada pra entender homens a vida inteira (lol, não, eu não entendia nada de homens, mas vá lá, era o que eu achava).

Como eu já falei em outros textos, a maior parte das mulheres com quem eu transava em um primeiro momento era nos ménages com casais hétero que me acessavam das mais diversas formas. Sim, já fui o unicórnio várias vezes e chutada da cama na mesma noite. E as minas sapatãs assumidas me intimidavam. Eu tinha medo de não ser boa o bastante para estar entre elas.

Comecei a participar dos espaços LGBT ainda durante o meu relacionamento mais comprido-que-não-era-namoro, por incentivo de amigos gays que militavam comigo no partido e amigas sapatãs que conheci no feminismo. E aí, monamu, aí a minha vida mudou.

Primeiro eu descobri que, por princípio, acho todas as mulheres incríveis e depois vejo se realmente gosto delas ou não, mas na média fico feliz e encantada de estar perto da maioria delas. E me apaixono por meninas como um labrador se apaixona por bolinhas. Meus sentimentos por homens foram ficando cada vez mais complicados e, como me sentir atraída por alguém virou um monte de coisa junto além de um sorriso bonito e um papinho meia boca, atualmente é mais difícil me interessar por eles.

Nisso veio a nova crise: SERÁ QUE ESSAS PESSOAS ESTAVAM CERTAS O TEMPO TODO????

Será que não sou bi, será que era uma fase até eu descobrir o meu “verdadeiro eu” lésbico? De crise por não ser LGBT o bastante, entrei em crise por não ser B o bastante. E a cada vez que eu ficava com um homem batia aquela culpa. Por que eu não priorizei uma mina? Por que eu continuo dando corda pra macho?

AVISO IMPORTANTE DO MINISTÉRIO DE MADONNA: a maior parte das pessoas com quem me envolvi são cis e nas minhas crises meus pensamentos em geral vão pra pessoas cis (normatividade taí, baby), mas eu não sou rad, mulheres trans são mulheres, homens trans são homens, pessoas n-b são o que elas quiserem, eu não me sinto atraída só por pessoas cis, nem acho essas pessoas “ameaça” a ninguém.

Voltamos à programação normal.

Eu não tô falando dessas crises de fora da militância bi não. É eu militando, eu estudando essas coisas e eu surtando internamente. Aí alguma coisa acontece e eu lembro “cacete, B é ficar com a caralha da pessoa que eu quiser independente do gênero dela”. Show. Relaxo e volto a ficar tranquila.

Mas eu já amei mulheres? Além da minha ex, várias. Já amei mina no armário (eu já fora do armário), já amei mina que só queria se divertir, já amei mina que morava longe e não tinha dinheiro pra gente se ver e estava no armário, já amei mina que tinha namorado e que era dependente dele (sobre esse drama sapatão dá um texto enorme inteiro), já amei mina super enrolada que trabalha mais do que respira... Já tentei com um monte de mina, mas a verdade é que não apareceu ninguém que quisesse trazer o caminhão pra minha casa, adotar uns gatos e eu quisesse também. Por quê? Porque a vida é assim, gente, as pessoas têm seus próprios problemas e a vida é complicada. Além disso tem um monte de mina que poderia ser incrível, que eu poderia ser super feliz com elas que, bem, não quer me namorar pelo simples fato de que eu sou bi. E posso “trocar ela por um homem”. Aí fica difícil, né?

O ponto é que se produtivismo já é uma bosta no ambiente de trabalho, ter metas para ser a Bissexual do Mês é bem pior. Vamos combinar assim: não vamos por meta. E, quando a chegar na meta, a gente dobra a meta.