O português, o espanhol e o compliance

Por Emerson Siécola

Quando pensamos nos idiomas português e espanhol, logo vem à nossa mente a semelhança entre essas duas línguas, derivadas do chamado latim vulgar.

Sem dúvida alguma, são idiomas muito próximos e os seus respectivos países e povos compartilham muitas semelhanças entre si, além de uma fronteira de mais de mil e duzentos quilômetros. Guardadas as devidas proporções, essa mesma fronteira foi transposta aqui para a América do Sul, mais precisamente entre nós e os nossos vizinhos.

Para uma pessoa leiga ou para aquela que compartilha somente da visão prática das coisas e abre mão, sem maiores dilemas, da teoria, pode-se imaginar que “sabendo o português, com certeza conseguirá se virar frente ao espanhol”.

Com esse raciocínio, certamente a pessoa “irá se virar” em um outro país de língua espanhola. Não passará fome nem tampouco deixará de ser atendida em qualquer estabelecimento comercial, mas poderá passar por situações inesperadas e até mesmo constrangedoras em determinados contextos do dia a dia. Basta pensarmos em algumas palavras com a mesma grafia em ambos os idiomas, mas com significados diferentes, tais como “carpa”, “maestro”, “oficina”, “presunto”, “propina”, “vaso” e por aí vai.

Pois bem, em analogia com as políticas e procedimentos de compliance em uma empresa, temos em conta que, ao ingressar na organização, o colaborador menos instruído sobre as diretrizes internas, seja por força e urgência das rotinas operacionais (pois na maioria das vezes, a manutenção da “aeronave” tem de ser feita em pleno voo), seja pela fragilidade do programa interno de treinamento, certamente “irá se virar” no seu dia a dia.

Mas a pergunta a ser feita é: Vale a pena “sair pedalando” sem ao menos conhecer a teoria, as orientações de conduta, as políticas e os procedimentos internos? No começo haverá aquela sensação de insegurança, do pouco conhecimento, mas com o passar dos dias, dos meses, de alguns happy hours com os colegas e de alguns amigos secretos ao final do ano, o que parecia incômodo agora não o é mais, já que o ser humano se adapta às mais variadas “condições climáticas”.

Mas daí a pessoa pergunta a si mesma: O que é esperado de mim? Conheço todos os caminhos? Conheço as orientações da empresa? Conheço meus direitos e deveres? Será que estou trilhando o caminho correto? Mas o dia a dia exige tanto, ler código de conduta, normas internas, procedimentos… pra que tudo isso? “Eu me viro bem”, se estiver errando, certamente alguém me dirá nesse sentido! Será mesmo?

O indivíduo pode até “se virar bem” no seu dia a dia profissional, mas certamente o resultado geral será muito melhor se conhecer as diretrizes de conduta ética, as políticas, as normas e os procedimentos internos que permeiam as suas atividades.

A comprovação prática da teoria traz segurança e evita situações incômodas que possam vir a comprometer a continuidade das relações de confiança e dos negócios.

Aprender e cumprir normas de compliance exige disciplina e dedicação, e um programa de treinamento coerente e conectado com a realidade de todos os colaboradores, indistintamente, reforça o que se espera de cada um.

Você pode até “se virar bem” com o seu “portunhol”, mas tenha ciência que essa prática de improviso não é garantia de sucesso na comunicação além-fronteiras, seja em Corrientes, seja em Missiones.

Tratando-se de compliance, o improviso não é, não foi e nunca será garantia de sucesso. No atual ambiente de negócios, não há espaço para aventuras. Pense nisso!

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