Sugamos a alma de Amy

Nesta segunda-feira, 1º de fevereiro, chegou ao Netflix o documentário “Amy”, cinebiografia da cantora Amy Winehouse. São 120 minutos mostrando, de perto e de forma íntima, quem foi e o que aconteceu com a britânica.

Amy era frágil. O vozeirão que saía daquele corpo podia não deixar transparecer, mas as letras refletiam uma menina perdida em meio a fama ascendente e de coração partido. Despreparo emocional somado a um coração entregue a um relacionamento intenso e abusivo resultou em mais uma vítima da “maldição dos 27 anos”.

Eu era fã dela. Não do tipo fanática, mas acompanhava e admirava seu trabalho, sua voz, seu talento. E, ao assistir o filme ontem a noite, fiquei braba com muita gente. Com o pai dela, Mitch, com o ex-marido, Blake, com o ex-empresário, Nicky, com os paparazzis, com noticiários, com apresentadores piadistas e, finalmente, comigo e com você.

Amy tinha um talento a nos oferecer. E, infelizmente, por um período muito curto (apenas dois álbuns lançados, Frank e Back to Black), nos emocionou com composições densas ao ritmo jazzísticos. Aí eu me pergunto: Por que insistimos em querer mais? Por que enlouquecemos e perdemos a razão quando surge alguém que cante bem, atue bem, escreva bem?

Não me venham dizer que é por “admiração”, porque não é. Admiração não tira a privacidade de ninguém. Admiração não nos faz querer saber o que a pessoa faz dentro da própria casa. Isso é uma obsessão doente em consumir mais do que aquela pessoa se propôs a nos oferecer culturalmente.

Eu fiquei aflita ao ver o tanto de flashes acionados no momento em que a porta da casa de Amy era aberta e ela saía. Mas, ao fazer o caminho desses fotógrafos, pensei: Eles estão ali a trabalho, ou seja, há quem compre essa perseguição. Há quem pare numa banca de jornal — ou acesse um site de fofocas — para ver que artista Tal repetiu roupa e comeu um pedaço de bolo de cenoura.

Temos prazer em saber que aquelas pessoas não são perfeitas — aliás, parecem estar até bem mais longe da perfeição do que nós. E regozijamos na fragilidade de quem, aos nossos olhos, era melhor.

Quão fúteis e superficiais podemos ser? Por que só ouvir aquela voz no rádio não era suficiente? Tivemos que sugar tudo. Nos lambuzar com o molho da fama, lamber o que escorre pelos dedos e saborear a desgraça alheia como sobremesa.