Prezado Sr. André Sturm,

Escrevo a você como uma cidadã de São Paulo, de 23 anos, que apenas nos últimos anos aprendeu a realmente amar e apreciar essa cidade. Minha experiência na cidade é curta, eu sei: apenas 23 anos dos quais pelo menos 15 eu era pequena demais pra entender muita coisa. Ainda assim, passei muito tempo apenas reclamando de todos os problemas que você, também morador de São Paulo, deve conhecer bem. Mas, sendo você o Secretário Municipal de Cultura, lhe escrevo no dia em que a nossa cidade completa 463 anos pra falar um pouquinho sobre cultura.

Nossa cidade é MUITO carente de cultura, Secretário. São Paulo nunca foi uma cidade acolhedora. Nossas opções de lazer sempre se reduziram aos Shopping Centers (Praia de Paulista, né?) espalhados pela cidade. Podem até nos dizer “mas e nossos teatros? E nossos restaurantes? E nossos museus?” É, verdade. Só que a grande maioria dos espetáculos de teatro da cidade são pagos, e caros. Os restaurantes, igualmente. O MASP mesmo só tem um dia da semana com exposições gratuitas, e você já experimentou almoçar no restaurante que fica lá dentro? Deve ser uma delícia, mas custa os olhos da cara.

O que eu quero dizer com isso é que, realmente, nossa cidade é conhecida mundialmente pelas vastas opções de serviços e lazer. Mas essas opções só servem a uma pequeníssima parcela da população. Ao resto sobra o que? Passeio no Shopping Center, e um parque ou dois, provavelmente longe de casa e sem muita opção de transporte até lá.

De uns anos pra cá, esse cenário começou a mudar. Nós começamos a ter o direito — e nos sentir no direito — de ocupar essa cidade que é, e sempre foi, nossa. Ocupar o espaço que, sendo público, é nosso. Seja com a nossa arte nas paredes, seja com as nossas festas nas ruas, seja com o nosso espaço nas calçadas e nos transportes públicos que finalmente começaram a melhorar. E eu sei que você sabe o quanto isso é importante, Secretário. Logo você, que transformou o MIS no museu mais visitado do Estado levantando a bandeira da popularização dos museus, e lutou tanto pela reabertura do querido Cine Belas Artes. Bem você, que foi coordenador geral da Virada Cultural Paulista e já deu declarações dizendo ser “importante trabalhar com pessoas que têm vontade de ser consumidores culturais mas não podem pagar os preços que estão sendo cobrados hoje pelos espaços culturais”. Concordo plenamente com você. Mas eu bem sei que muita gente vai dizer que tem mil coisas mais importantes pra gestão de uma cidade como São Paulo se preocupar. Só que são essas coisas bobas que eu mencionei que fazem a gente sentir que faz parte disso aqui. E essa sensação de pertença não é bobagem.

Nos últimos anos, São Paulo deu uma respirada muito grande. Eu posso falar por mim, e por tantas pessoas com quem eu conversei que compartilham desse sentimento: São Paulo passou a ser uma cidade boa ou, pelo menos, melhor. Bem melhor. Falta muita coisa, sobram outras que não deveriam sobrar. É violenta ainda, sim. É desigual ainda, sim. É engarrafada, é sufocante. Mas começou a ser um pouquinho mais acolhedora. Mais verde (no Minhocão). Mais colorida (nas paredes). Mais alegre (no carnaval, no SP na Rua, na Virada Cultural). Nossa Praia de Paulista agora é a querida avenida que recebe o nosso nome, com música e artistas performando ao vivo o dia todo no domingo. Nosso Centro, ainda tão judiado, é verdade, passou a ser visto por muita gente como um lugar interessante, cheio de história, de diversidade, de… cultura.

Como eu comecei dizendo, eu não vou falar pra você das outras áreas que não são da sua alçada. Nem pretendo fazer uma crítica ampla e generalizada às políticas da atual gestão. Não vou, seria até precipitado fazer isso. Mas eu vou sim, Secretário, fazer um apelo a você, em quem eu deposito minha confiança. Não apaguem o que a gente conquistou de bom na cultura. Acho que a gente pode concordar que teve muita coisa errada, ou muita coisa faltando na antiga gestão. Teve sim, eu não vou discutir. Mas o que a gente ganha apagando arte dos muros (só pra depois falar em pintar de novo)? Tirando artistas das calçadas? Acabando com as festas das ruas? Mandando nossas festas lá pra Interlagos? Fechando, isolando, afastando? O que a cidade ganha com isso?

Eu sei que vai ter gente discordando. Sei que tem gente comemorando isso tudo. Mas Secretário, falando a verdade, a gente incomoda tanto assim? Você sabe, quem não quiser ir nas festas nas ruas do Centro, não precisa ir! Mas deixa a gente ir. Também não precisa — embora eu particularmente ache desejável — gastar dinheiro pintando todas as paredes da cidade. Mas pelo menos deixa as que já estão! Honestamente, incomodamos tanto assim a ponto de investir dinheiro público simplesmente pra apagar a gente? Nossa presença, nossa existência, é tão incômoda assim?

Por favor, não deixe que a gente volte a depender de Shopping Center no domingo à tarde. Não deixe que façam com que o trânsito que a gente tem que suportar na Av. 23 de Maio seja cercado por todo aquele cinza horroroso e deprimente que ficou agora. Ninguém merece isso. São Paulo não merece isso. Não tem nada de lindo nisso.

A gente tem reclamado bastante, sim, de “uns rabiscos nas paredes”. Pode parecer bobo, eu sei. Mas sabe o que é? É simbólico. Aquele colorido na parede, que algumas pessoas gostam de chamar de vandalismo, é a nossa marca dizendo “estamos aqui”. É a nossa bandeira ocupando um pouquinho dessa cidade que sempre fez questão de demonstrar que aqui não é o nosso lugar. E a verdade é que a gente não vai mais ser apagado, varrido, espurgado dessa cidade em silêncio. Isso aqui é só o começo. A ocupação está aqui, Secretário, e não vai a lugar algum, você sabe disso. Deixem, por favor, a gente ocupar o que é nosso.

Atenciosamente,

São Paulo, 25 de Janeiro de 2017.