O ódio, os odiados e o sangue de Tarantino

Esses oito malditos…

Jogue “oito” na mega-sena. Esse é o número do momento

Começo com uma confusão. Tinha visto num dia que o filme Os Oito Odiados, o oitavo de Quentin Tarantino, estava sendo exibido às 21h no Espaço Itaú-Unibanco. No dia seguinte, cheguei lá às 20h para comprar ingresso e o horário era outro na verdade: 20h30. Atrapalhada, perguntei para a moça da bilheteria, para checar se estava doida ou não, se não teria uma sessão às 21h (tinha combinado cinema com um amigo e essa mudança de horário poderia dar problema). Não haveria do outro lado da rua, em outra sala do cinema?

_ Do outro lado tem Oito e Meio.

_ Não entendi. Às oito e meia?! Não. Eu queria saber se tem às nove.

_ Não. Do outro lado da rua está sendo exibido o filme Oito e Meio, do Fellini. A sessão dos Oito Odiados foi às 21h ontem, só na pré-estreia. Agora é às 20h30.

Leio por aí que Tarantino está muito ligado ao número oito. E é super fã de Fellini. Imagino que seja por isso a exibição de Oito e Meio no mesmo cinema nesta temporada do novo Tarantino.

Passada a curiosa história da confusão — que estabelece um vínculo com Fellini e essa suposta adesão de Tarantino à numerologia — , vamos ao filme. Aqui vai o alerta de que, sim, haverá alguns SPOILERS no texto. Quando chegar essa parte, eu aviso de novo.

Breve desvio: Star Wars

Primeiro, observo que fui ao cinema com um afã moderado. Bem antes da estreia, estive ansiosa pelo filme. É esse o problema de ler reportagens a respeito de uma produção antes que ela esteja em cartaz (que é o que está acontecendo comigo em relação ao novo do Iñarritu com Leonardo Di Caprio). Digo “moderado” porque quebrei a cara com Star Wars. Sou fã de Guerra nas Estrelas, especialmente dos primeiros filmes produzidos. Vi o mais recente Star Wars e me senti decepcionada. O longa exagera na nostalgia e faz referências o tempo todo para alegrar saudosistas. Não que saudosismo seja ruim. Achei, por exemplo, que o novo Mad Max, marcado pela ótima personagem Furiosa, mereceria uma participação de Mel Gibson no roteiro (não como Mad Max). Mas o Despertar da Força carregou nas tintas para evocar emoções nos fãs e falhou ao entregar um roteiro bom. Uma das coisas que não me agrada é ver Leia, outrora a princesa furiosa (epa), numa versão mulherzinha apaixonada. Não condiz com a construção da personagem nos primeiros três filmes (segundo a ordem cronológica de lançamento).

A experiência com Star Wars me deixou com um pé atrás. Mas eu tinha acabado de ler um texto do Bernardo Carvalho (“Ele é de esquerda?”) que voltou a despertar a sanha em mim. Então, fui de mente aberta para o cinema, disposta a absorver o que viesse, ainda que fosse ruim (embora eu dissesse para mim: “vamos lá. É um Tarantino. Tenha fé”).

Western como referência

Tenho uma cultura de western que surgiu na meninice. Na idade em que consumia livrinhos de bangue-bangue, minhas colegas iam de Sabrina e Júlia. Eu lia esses livrinhos, que eram no formato bolso, porque meus pais curtiam o gênero. Acabei por me viciar neles (mas uma hora meu pai deixou de comprá-los e nunca mais peguei um bangue-bangue para ler). Também vi muitos filmes porque os dois adoravam. E isso valia desde os western spaghetti (vide Giuliano Gemma) até os clássicos americanos (John Ford e John Wayne). Sabia o nome de armas, de rifles, de cidades do oeste americano, de corporações (Pony Express, Rangers). Enfim, conhecia o estilo.

Então, no cinema, quando apareceu o nome de Ennio Morricone nos créditos de Os Oito Odiados, virei para a filhotinha, que estava comigo, e cantei baixinho essa bola (“ele sabe das coisas. Fez trilha para vários faroestes”). É uma boa trilha.

SPOILER, mas fraquinho (não mata ninguém). Faz parte da trilha a canção “Noite Feliz”, que entra em um momento forte da história.

A trama gira em torno de dois caçadores de recompensas, uma criminosa e um suposto xerife que têm de se abrigar num armazém no meio de nada, onde encontram outros personagens. No pano de fundo, os resquícios da Guerra Civil

O filme começa numa montanha coberta de neve. Uma diligência percorre um caminho intensamente branco e uma nevasca se aproxima. Logo surgem dois personagens que poderiam ser os “heróis” da trama: John Ruth, caçador de recompensas que não mata criminosos porque prefere vê-los enforcados (Kurt Russell, muito bom no papel), e o major Marquis Warren (Samuel L. Jackson, a estrela do cineasta), outro caçador de recompensas. Poderiam ser os heróis pelo protagonismo e por, em tese, estarem do lado da lei (este é um faroeste, afinal). Mas não são.

Ruth leva na diligência Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que tem a cabeça a prêmio e pela qual ele receberá US$ 10 mil. Warren, que estava com os corpos de três bandidos, que matou e pelos quais irá faturar US$ 8 mil ao todo, perde seu cavalo e pede carona a Ruth, que é dada depois de muita negociação. Ruth anda desconfiado por suspeitar que o bando de Daisy irá tentar libertá-la. O grupo para mais uma vez na estrada e acaba por abrigar também o suposto novo xerife da cidade (Chris Mannix, interpretado por Walton Goggins). Mannix não inspira confiança em ninguém, mas é aceito. Para fugir da nevasca, eles se dirigem a um armazém localizado no meio do nada, onde encontram outras pessoas.

No filme, um caçador de recompensas traz uma mulher acorrentada em seu braço, por quem se pagará US$ 10 mil assim que for levada a uma cidade, onde será enforcada. Ele sabe que tentarão libertá-la antes disso

E em meio a tanta gente haverá algum herói? De fato, o filme não tem nenhum, se definirmos herói como um modelo de nobreza. Não há nenhuma alma boa entre os personagens centrais.

SPOILER suave. Podemos dar esse crédito ao cocheiro O.B., talvez. Ele não demonstra ser abjeto. É subserviente, com exceção de uma hora em que se rebela por quase morrer congelado ao executar um serviço pedido por Ruth.

A ausência de heróis me fez pensar no filme O Clã. Nesse longa, que bateu recorde de bilheteria na Argentina superando Relatos Selvagens, não há gente bacana na família que constitui o tal clã (que sequestrava e matava pessoas por dinheiro). Talvez uma das meninas da família, mas ela tinha alguma noção das coisas que eram feitas em sua casa. Poderia ser cúmplice dos crimes. O que a salva (em minha opinião) é sua juventude, sua falta de maturidade para lidar com a situação retratada no filme. Isso, entretanto, não faz muita diferença. Não consegui ter simpatia por qualquer um dos personagens da família.

Recordista argentino de bilheteria, O Clã traz personagens pelos quais não se consegue ter simpatia

Embora seja classificado de faroeste, o filme Os Oito Odiados é muito mais psicológico do que um western tradicional. Ok, um bom bangue-bangue tem tensão psicológica: os confrontos nunca se decidem de cara. Por mais rápido que seja um gatilho, ele nunca resolverá logo o destino do inimigo principal. Além disso, um western tem vingança, prato que se come frio, como sabemos. Há um fato (uma prostituta esfaqueada, um rapto de criança, um bandido que retorna à cidade para matar o xerife que o mandou para a cadeia) e todos esperam o desenrolar dos acontecimentos para saber como aquele fato será vingado. Claro que rola uma tensão.

Os Oito Odiados têm elementos típicos do western (como vingança e destreza, que Warren tem de sobra). Só que o ponto central da história é o confinamento dos personagens num armazém no meio do nada. E, por isso, há uma intensa troca de diálogos. Não balas. Certamente há balas. Mas elas demoram um tanto para pipocarem. Antes disso já rolou muita conversa, muita desconfiança, muitos olhares atentos a detalhes. Drama. Puro drama.

Sobre o confinamento, já falaram que isso é uma repetição de Cães de Aluguel, do próprio Tarantino. Se foi cópia ou homenagem — ou recurso para saudosistas — , não creio que tenha havido exagero. Trancar personagens numa sala não é novidade mesmo. O que julgo mais importante é a quantidade de diálogos presentes neste Tarantino. O roteiro, escrito pelo diretor, deve ser imenso. É um belo roteiro.

O crítico Pablo Villaça comenta (leia mais no link; vale a pena) que o cineasta inverteu o padrão dos roteiristas. O que se ensina nos cursos é que você não deve fazer o personagem falar muito sobre algo. É melhor mostrar esse algo. É melhor fazer com que o público visualize a explicação (o roteirista que se vire para eliminar frases e botar mais ação). Em Os Oito Odiados há muitas explicações. Mas isso não me aborreceu. É um filme de diálogos.

O confinamento, por sinal, me remeteu a outro filme: 12 Homens e uma Sentença, no qual os personagens estão presos uma sala em que eles, jurados, têm de decidir se um rapaz é culpado por um homicídio ou não. Obviamente tem muitos diálogos (é o que costuma acontecer em filmes com confinamentos). Em 12 Homens e Uma Sentença é possível distinguir um dos personagens, o de Henry Fonda, como sendo o “bonzinho” da história. Não quero dar a entender que os filmes têm de dividir suas narrativas entre “bonzinhos” e “vilões”, mas de forma geral é isso que acabamos fazendo. A gente desenvolve empatia por alguém.

No caso de Os Oito Odiados, diria que quem mais se aproxima disso é o major Warren, um ex-combatente da Guerra Civil. Como já escrevi antes, ele não é um modelo de nobreza. Porém enfrenta o “poder branco” e evidencia o racismo.

Interpretado por Samuel L Jackson, o major Warren é dono de mira certeira e de palavras ainda mais certeiras

SPOILER. Warren, por ser negro, teve de desenvolver suas estratégias para sobreviver num país fortemente marcado à época pelo ódio segregacionista (entre suas “armas” está o uso de uma carta de Lincoln escrita para ele). E isso ele esclarece no filme. O major desenvolveu sua couraça e suas habilidades para fugir de emboscadas, para detectar mentiras e para matar quem o persegue. Tem características violentas, vingativas, cruéis, desleais. Diante da violência do racismo, sobretudo naqueles anos em que a Guerra Civil expôs uma virulenta chaga do país, você acaba tentando desculpar certas atitudes dele. Mas você engole seco em alguns momentos, como quando se sabe que, para fugir de um campo de prisioneiros, ele põe fogo no alojamento e mata muita gente, inclusive inocentes. Entre eles índios, fato aceito pela cavalaria (regimento ao qual Warren pertencia) porque a cavalaria nunca gostou de peles vermelhas. Quem se importa com índios, afinal?

Meu ódio será tua herança

O filme é desse jeito: um preconceito escancarado atrás de outro. A mulher na trama, Daisy, é espancada a cada momento. Não é tapa. É soco de arroxear olho, soco de arrancar dente. As cenas de agressão geram um sentimento de repulsa (é um horror ver alguém tomar porrada como ela. É demais para mim, que não suporto nem MMA). Por outro lado, não há dúvidas a respeito de quanto ela é escrota. Jennifer está magistral no papel. Evidentemente, na vida real, não existe justificativa para atitudes bestiais, como as encenadas por Ruth. Mas Tarantino escancara a brutalidade dessa maneira em sua obra. Bernardo Carvalho pondera que não há politicamente correto no estilo Tarantino. O homem quer sangue para que ele grite para nós o quanto o mundo pode ser absurdo, violento, odioso.

Nestes tempos de ódios disseminados desavergonhadamente pelas redes sociais, é interessante ver como ele se expressa no filme.

Warren, Daisy e Ruth: são eles os personagens que conduzem a trama e que estão entre os oito odiados

SPOILER, SPOILER. Warren se confronta várias vezes com o ódio dos brancos. Primeiro com Daisy, que cospe nele. Depois pelo xerife e mais tarde por um velho general sulista que estava no armazém e que tem em seu currículo a matança de grupo de soldados negros que teria de levar como prisioneiros (em vez disso preferiu dizimá-los). Só um personagem parece não se importar com sua cor, John Ruth, o outro caçador de recompensas. Warren não nutre menos ódio por aqueles que o desprezam por ser negro. Quando o filho do general sulista sai em sua busca (a cabeça do major estava a prêmio durante a guerra), Warren o tortura ao obrigá-lo a andar nu na montanha nevada no dia mais gelado de que se recorda. Mas o que ele faz na sequência é terrível e o personagem narra esse episódio ao velho pai às gargalhadas. A descrição do que se passou leva o general a reagir da maneira que Warren esperava. O major negro armou sua vingança e o general branco caiu em seu jogo. É morto com tiros. Há mais uma evidência dos tempos de ódio quando Warren desvenda um assassinato por conta de um preconceito contra mexicanos (no armazém onde estão, antes havia uma placa com a mensagem “Proibido cães e mexicanos”, que a dona do estabelecimento retirou depois porque decidiu permitir cães). Ódio aos negros, ódio aos mexicanos, ódio aos índios. A história dos Estados Unidos está cheia de casos dessa natureza.

Tarantino recorreu a um formato que dá uma dimensão panorâmica a cenas feitas no interior de um armazém

Antes de encerrar este enorme texto, quero ressaltar mais uma característica do filme que avalio como positiva: a direção. O filme começa com um plano generoso, mostrando a imensidão branca e apresentando o clima como um personagem à parte da trama. Tudo acontece porque surgiu uma nevasca que transforma a história. Depois, é a vez dos planos fechados, que foram feitos com um recurso que estava quase abandonado pelo cinema (Ultra Panavision 70 mm). A narrativa é montada por capítulos, que se abrem com títulos num fundo escuro. Aí, de repente, no meio do filme, surge um narrador. Isso me surpreendeu. Porém esse narrador só aparece mesmo nesse momento. Mais para frente, acontece um pulo no tempo, um recuo, para explicar acontecimentos fundamentais para a trama. E volta-se à narrativa linear. Todas essas técnicas num único filme.

Além do roteiro envolvente, rico em diálogos, tenso, que surpreende, e da direção criativa e até retrô num certo sentido, é preciso falar do sangue. Não tem como não falar disso em filme com a assinatura Quentin Tarantino. Eu e a filhotinha achamos que houve mais sangue do que em outras obras. O amigo que esteve conosco no cinema acha que não. Que houve mais em Reservoir Dogs, por exemplo. Pensei em Kill Bill, com as notórias cenas em preto e branco para atenuar o monte de sangue derramado na luta de Uma Thurman com aqueles mascarados no restaurante japonês (esqueci o nome do grupo). Tive a impressão que em Os Oito Odiados foram explodidas mais cabeças do que tinha visto em outros Tarantinos. Foi realmente muito sangue. Mas não fiz a comparação com os longas anteriores para saber o grau de “sanguinolência” deste. Fica a dúvida para quem quiser se dar ao trabalho de fazer essa macabra contagem.