Rascunhos sobre a fé

Foto por Jotta Neto disponibilizada no Nappy.
sf. — 1.Crença; convicção intensa e persistente em algo abstrato que, para a pessoa que acredita, se torna verdade.

Tenho pensado muito sobre minha espiritualidade, pesquisado um tanto sobre o assunto e quanto mais eu estudo mais eu percebo que todas essas correntes estão conectadas.

Sei que falar de Darwin não é a melhor forma de começar um texto que fala de fé, mas a fé na ciência também existe, não é mesmo? Enfim, considerando a teoria evolucionista, nosso maior objetivo como ser vivo é evoluir, nossos corpos caminham para isso, cada molécula do nosso corpo faz esse trajeto de se aprimorar. Vocês já repararam como os bebês estão cada vez mais ágeis, abrindo os olhos cada vez mais cedo. E se estamos todos evoluindo estamos fazendo isso para um sentido único. A evolução é uma busca biológica por algo melhor, não?

Sabendo que cada átomo do meu corpo se projeta para a minha existência e evolução é natural pensar que nossa mente, e por que não nossa alma, trazem o mesmo caminho, não? Foi questionando isso e buscando a minha espiritualidade que cheguei a um raciocínio que me parece coeso e gostaria de dividir com você.

E se a busca por essa energia maior tiver múltiplos caminhos? E se cada religião, ciência ou filosofia for uma metáfora para acessar a iluminação. Somos pessoas diferentes e como tal, temos formas distintas de enxergar o mundo e sendo assim não poderíamos ter formas outras de buscar a nossa divindade?

Nesse sentido, independente da religião, culto, filosofia ou doutrina que o indivíduo segue, este estaria em um dos caminhos possíveis para a tão buscada iluminação. Sendo assim um outro ser que busca em outra corrente, e por tanto está em um outro caminho, tem como objetivo a mesma iluminação. Ao pensar assim percebo que todos nós estamos conectados, assim como as árvores de uma floresta e que embora o trajeto seja outro a linha de chegada é a mesma, ou seja, estamos todos na mesma viagem por vias distintas.

Claro que podemos estar todos loucos, como pernilongos que projetam seus corpos para uma lâmpada acesa, mas a fé de estar em busca de algo maior, esse sentimento que é difícil de explicar, nos enche de certeza de que essa crença se torna verdade.

Voltaire usou a metáfora do salto para o precipício com o objetivo de exemplificar a fé como um ato de crença. Saltar para o desconhecido tendo a esperança de que algo de bom irá acontecer, mesmo que isso ultrapasse a barreira da razão. Nessa narrativa ele defende que algumas pessoas não estão dispostas a dar este salto de fé e acabam por retornar para as suas vidas.

Bauman usa uma analogia parecida para descrever o sofrimento provocado pela saída da zona de conforto, alegando que o sofrimento é inerente ao homem pois este está em constante evolução e por isso busca sempre sair de sua zona de conforto pois tem a esperança de que algo melhor existe além dali. Ele também alega que algumas pessoas, mediante ao sofrimento se paralisam e acabam por evitar sair de suas zonas de conforto.

Ainda sobre Voltaire, este defende uma religião mais próxima da moral natural, tolerante e que busca unir as pessoas independente de suas culturas. Para ele temos na filosofia a capacidade de gerar um espírito crítico e que só assim poderemos distinguir o que é verdadeiro e o que é falso.

A fé, o sofrimento e a tolerância a partir do espírito crítico. Gosto de pensar que ao sair da nossa zona de conforto, o fazemos em busca de algo, uma necessidade de mudança proativa ou forçada, por exemplo. Essa experiência nos transforma, expande nosso universo e altera nossa percepção de mundo, nos dando um novo nível de consciência. Um jeito novo de olhar a vida, um ângulo que até então nos era inacessível. Se enxergarmos a fé como a crença de que existe algo além, esse além se encontra além das barreiras da nossa zona de conforto e por tanto ter fé é de certa forma aceitar que o sofrimento te auxilia no processo de adaptação para uma nova realidade. E se eu, indivíduo, vivo essa relação quando evoluo a pessoa ao meu lado vive essa mesma questão, seja em qual parte do caminho ela esteja. Esse pensamento crítico me permite ser empático e por tanto tolerante a vivência do outro.

“Aprender” pelo sofrimento não é a única forma possível de romper sua zona de conforto. Através da empatia podemos olhar o trajeto do próximo e reconhecer as dificuldades por eles sofridas e a partir desse entendimento “aprender”.

Para Roman Krznaric, a empatia carrega o poder não só de aprender com a vivência do outro, mas também de mudar o mundo. Para ele o caminho para a paz e as revoluções não são construídos através de acordos políticos, mas sim feitas nas raízes das relações humanas, desconstruindo ignorâncias e preconceitos.

Em textos budistas encontramos a empatia com um catalisador que auxilia na transformação do sofrimento do outro em compaixão. E por conta dessa característica a empatia permite que enxerguemos além do sofrimento pessoal, chegando a um pensamento de soluções, no que pode ser feito para, isso é o que podemos chamar de benevolência. Dessa forma é possível transcender o sofrimento e focar seus esforços para o que pode ser útil.

Ou seja, encontramos na empatia uma grande chave de transformação social, ao olhar pro outro de forma empática e/ou ouvir o outro através da escuta ativa podemos acessar um nível de conhecimento e auxiliar na quebra de padrões autodepreciativos e evoluir sobre inúmeras questões, facilitando o caminho para a busca pela iluminação.

Note que uso o termo iluminação para me referir a busca de algo além da razão. Afinal existimos além da lógica. Haward Gardner, aponta em seus estudos pelo menos oito tipos de inteligências inerentes ao homem, tal qual a inteligência lógica, emocional e a espacial, entre outras.

Somos por tantos seres plurais e ricos em nossas individualidades, sendo assim utilizamos diferentes estímulos não só para a compreensão do mundo como também para a busca pela iluminação. Sendo assim não importa qual doutrina, filosofia, culto ou religião que você indivíduo utilize como guia para a sua travessia, todos os seres têm em sua individualidade a liberdade de compor seu caminho conforme as suas próprias questões, estímulos ou compreensão do mundo.

Se você encontra na catarse através da arte o caminho para transcender as suas questões, muito que bem. Se é através da privação do prazer, que assim seja. Se é através da observação constante, tudo bem. No final, você está fazendo o melhor que pode com as ferramentas que vocês tem para chegar ao mesmo lugar que eu desejo chegar e por tanto é possível enxergar parte da minha vontade em ti. A chama que arde em mim pelo conhecimento arde em você também. Então cabe a mim saudar a divindade que existe em ti e também cabe a mim entender quando o olhar para o outro ou para o todo ainda não foi desenvolvido e por tanto usar o perdão como ferramenta para deixar o caminho mais leve, tanto pra mim, quanto pra você.