Episódio I: decisão forçada

Parei de tomar a pílula em agosto.

Eu tomava o anticoncepcional desde os 15 anos, quando comecei a namorar “sério”, antes mesmo de iniciar minha vida sexual. Antes disso, já tinha tomado alguns hormônios daqueles que só “regulam” a menstruação. A adolescência foi foda. Tinha cólicas destruidoras, dores de cabeça e uma TPM daquelas. Aí, a pílula entrou como solução.

Depois que comecei a transar, era muuuito neurótica com a possibilidade de engravidar. Mesmo tomando a pílula, mesmo usando camisinha. Por isso, o anticoncepcional sempre pareceu necessário para manter a minha sanidade nesse sentido, para eu continuar me sentido o mais segura possível, no controle do que acontecia com o meu corpo. Ledo engano.

Por tudo isso, nunca tinha cogitado parar de tomar a bendita. Pelo menos até o ano passado, quando, graças às manas feministas, me inteirei sobre as discussões mais abertas sobre esse assunto. Mas nunca foi uma questão tão urgente pra mim. A neura do medo da gravidez misturada com a irresponsabilidade do sexo eventual sem camisinha (sejamos honestas, quem nunca?) me faziam adiar essa decisão.

Eis que, por causa de um médico louco pra descobrir que os meus problemas de estômago eram causados por pedras na vesícula, fui fazer um ultrassom. Nada na vesícula, mas três nódulos no fígado.

Pronto, vou morrer. — pensei.

E pensei mesmo. Chorei pra caralho no dia do exame, mesmo com a menina do laboratório dizendo que não parecia uma coisa grave e que só um médico mais criterioso iria querer investigar o que era.

Investiguei e o diagnóstico foi de adenoma hepatocelular — segundo o Dr. Google e a Sociedade Brasileira de Hepatologia, diretamente relacionados ao uso contínuo de contraceptivos orais.

“Tradicionalmente estão relacionados com o uso de anticoncepcionais orais (ACO) contendo estrogênios. Neste cenário, a incidência é estimada ser 30 vezes maior do que entre as que não fazem uso destes medicamentos e apresenta relação direta com a dose e o tempo de uso.” 
(Sociedade Brasileira de Hepatologia)

A recomendação da médica foi expressa: parar com a pílula imediatamente e repetir o exame em alguns meses, para controle. Nada urgente, porque não era nada maligno, se o anticoncepcional saísse de cena. E ele saiu.


Episódio II: mudanças infinitas

Quase seis meses depois de ter parado, muita coisa mudou no meu corpo e na minha cabeça.

É engraçado, mas eu me sinto mais conectada com o que eu sou, com o meu corpo e como ele funciona naturalmente, como um reloginho. Meu ciclo continuou super regulado. Estou no sétimo sem a pílula e só um demorou 37 dias e quase me matou de susto, durante as férias. Todos os outros têm sido de 28 ou 27 dias.

Tenho acompanhado os ciclos pelo Clue, um app desses para controlar o calendário menstrual. Tem mil questões sobre a privacidade das informações compartilhada nesses apps, mas a verdade é que, na prática, ele tem sido muito útil.

Inclusive para notar que minhas enxaquecas diminuíram e agora só aparecem na TPM, assim como outras coisas que eu sentia mais vezes ao mês, como indigestão e enjoos. Tudo fica concentrado na semana do inferno.

Outro pró: libido. Isso aí mudou por completo. Tenho até dó da Leda que achava que estava tudo bem antes. Tomei pílula praticamente toda a minha vida sexual e foi só nos últimos seis meses que descobri uma infinidade de coisas que me dão tesão. E meu deus, quanta coisa dá que eu não fazia ideia. Até a lubrificação melhora. Tá rolando um processo de libertação real mesmo. E essa é umas das minhas partes favoritas de ter parado a pílula.

O contato com outras mulheres que estão passando pela mesma transição também tem sido um baita presente. Tem um grupo ótimo no Facebook onde as manas trocam muita ideia, desde as mudanças sentidas por cada uma, os dramas com os namorados babacas que não querem usar camisinha, à dicas pra cuidar da pele e usar produtos naturais pra aliviar a TPM.

Até que estou lidando bem com a neura de engravidar, algo que eu achei que seria incontrolável. Acho que até era mais neurótica quando tomava a pílula. Lógico que agora não rola sexo sem camisinha de jeito nenhum, o que é um pouco irritante às vezes, confesso, mas nada que tenha atrapalhado a diversão.

Nos contras, estou com uma acne ainda mais filha da puta. Eu, que achei que chegando nos 26 anos não sofreria mais com isso, fico com a cara cheia de espinhas uma semana sim e outra também. Não é so na TPM. É um saco e eu ainda não criei uma rotina de cuidado com a pele que realmente funcione.

Além disso, como tudo está concentrado na TPM, essa semana tem sido mais intensa e difícil. A indisposição e a irritação nesses dias são insuportáveis. Tem um dia, ou dois, que tenho vontade de matar pessoas, mas não tenho forças nem pra brigar. Acho que uma atividade física pode ajudar muito nisso, mas quem disse que eu mexi a bunda para começar algo? Mas vamos lá, uma batalha de cada vez.

Mas, no geral, estou bem feliz com a decisão, ainda que ela tenha sido forçada. Tenho que acompanhar os nódulos, mas parar com a pílula foi a única medida necessária pra cuidar deles. A tendência, segundo os médicos, é que eles diminuam e até desapareçam com o tempo agora que parei com o anticoncepcional.

Até quero procurar outros métodos contraceptivos, além da camisinha. Mas a única coisa aceitável pra mim agora seria o DIU de cobre, que não tem hormônios. Ainda estou pesquisando e começando a fazer exames para saber como andam as coisas no meu corpo depois de ter parado com a pílula.

O que me revolta é que, depois de anos e anos tomando a pílula, ninguém NUNCA me alertou para esse risco. E olha que sou dessas que vai em médico um milhão de vezes ao ano, mesmo sem precisar.

Embora não seja uma tão coisa grave, como o risco de trombose, gostaria de ter sido informada de que o uso contínuo do hormônio poderia levar a formação desses nódulos.

Nenhum médico falou sobre esse risco. Isso também não aparece na bula da pílula que eu tomava.

Aos poucos, esses efeitos colaterais invisíveis vão aparecendo e a pílula, que um dia foi símbolo de independência feminina, se transforma quase num fardo. Mas graças à Deusa, e às manas, tem muito apoio para a gente se libertar aos poucos dessas coisas que nos fazem mais mal do que bem. Espero que, cada vez mais, a gente possa ter o máximo de informação possível para fazer as melhores escolhas para cuidar da nossa saúde. E é por isso que resolvi dividir esse relato.