Black Mirror: Perdedor

Derrocada de identidade no vislumbre social

Primeiramente, a possibilidade de julgar os conceitos críticos socio-tecnológicos da série sempre alavancam pertinentes discussões sobre o comportamento humano, envolto nas camadas de tecnologia cada vez mais abundantes. Toma-se como base, o primeiro episódio da terceira temporada, chamado originalmente de “nosedive”. Termo este, remetente ao mergulho (dive), de um avião vertiginosamente com a parte da frente, chamada de nariz (nose). O conceito de derrocada se aplicará à personagem principal, Lacie, que assim como toda a sociedade, está inerte ao sistema de avaliação estrelar. Sistema este, determinante para o bem-estar e a convivência dos grupos sociais.

Interessante notar que o conceito de popularidade e abastamento não se atrela a um sistema monetário, como dinheiro, bens materiais ou investimentos. Não em primeira estância e de forma visível, pois o que se percebe é que o sistema avaliativo é o que permite alcançar maiores aquisições. Seja uma profissão, seja um veículo ou uma residência, no caso de Lacie, que vive até então com seu irmão.

De imediato, o episódio denota o atual comportamento do homem com a tecnologia, principalmente em redes sociais, que limitam sua intra-relação. Diálogos específicos, linguagens específicas, conhecimento, em sua maior parte superficial, levando a uma pasteurização e padronização do meio comunicativo. Emissores predestinados a uma mensagem, que esta por sua vez, segue protocolos de ética dentro da perspectiva condutiva, chegando ao receptor com pura intenção de desencadear contato simplório, levando os dois a terem plena concordata e satisfação das conversas. A influência e a aceitação em meio social é a recompensa do espécime fútil.

A imagem acima identifica aspectos de influência. Este aspecto até que não precisa de indicador em tecnologia pra explanar. Afinal, creio que seu meio profissional sempre teve isto, não é mesmo? Mas veja, citei um âmbito. Esse método influenciador e seus indicadores, incidem sobre todos os âmbitos e secções possíveis. Ter uma avaliação alta lhe concede privilégios.

E nesse contexto, é onde a série deposita todo o meio crítico. Os marcadores, o score ele é o único fator que determina a sua vivência, a sua inclusão nos direitos regentes a qualquer cidadão. Entretanto, a substituição entre direitos e privilégios é sempre tênue, principalmente se você realiza um recorte dos indivíduos. Neste episódio, é um recorte étnico.

Os prestadores de serviços básicos, como aeromoças, policiais, taxistas e atendentes são designados a quem possui scores baixos, o que caracteriza pessoas sem maiores privilégios. Se fizermos uma contextualização, não é difícil identificar que negros, imigrantes, indianos e mulheres são deslocados dos meios sociais e de convivência dentro destes meios de comunicação. Cite lugar de fala, opressão, racismo, misoginia. Tudo isso, frutos de uma sociedade capitalista conservadora e preconceituosa, molda as características determinantes para a inclusão de alguns e exclusão de outros. Não é a tecnologia que gera essa segregação; ela se apropria do comportamento e do caráter humano, distinguindo os propósitos privilegiados.

De fato, a tecnologia é a ferramenta de manipulação mais intensa de um Estado, onde este por vez, concede toda a realidade que for conveniente aos detentores da lógica, do poder e da razão. Razão, essa, imutável e irrefutável. Quando se indaga o protocolo, o detentor do poder e do capital, descarta sua resolução e o excluí do meio social padrão. Chame de alienação, por exemplo. Para sistematizar a sociedade em prol individual, são concedidas pequenas recompensas e estímulos camuflados, retificando a realidade inóspita e opressiva.

Identifico o problema real como face de uma armadilha sempre recorrente neste parâmetro social. É um looping interativo e pragmático, é, sem perceber, realizar ações e se enquadrar em padrões. Na verdade, a própria estética do episódio remete ao pastel, à colônia colorida de padrões. Mediocridade soa forte dentro desse sistema nervoso da sociedade, na verdade. É o grande capacitador das ideias e ideais, desaforando o procedimento fora do status quo. O que de fato deve se fazer e agir, em prol de quê? Faz-se tempo que a persuasão se mescla no fascínio da vida ideal.

Há quem moralize, quem suaviza o problema em poucas soluções ou determina o alívio dentro de uma escola individual, sem que os diálogos coletivistas manejem resultados maiores. No entanto, o ponto inicial nem sempre conseguirá determinar e administrar a orientação e o percurso tomado, retomado e recapacitado afrente. O ciclo final do episódio não esclarece uma moral, mas só concede alívios efêmeros, pois o cerco de mazelas costuma perdurar mais do que o desejado.