Foto por Helio Campos Mello

Morre Marisa, Morre Hipócrates

— ou o luto da empatia que não superamos

Primeiramente, não possuo conhecimentos sobre a medicina, sobre procedimentos clínicos em diversas situações necessárias. No entanto, o cenário envolvendo a ex-primeira-dama Marisa Letícia — de sua internação devido a um AVC (Acidente Vascular Cerebral), a interrupção do fluxo sanguíneo em seu cérebro e a confirmação de sua morte ontem, 03/02, às 17h59 — , desde que se teve fato noticioso, eu soube que haveria outros estigmas sociais chapados, especialmente, por envolver a figura política do ex-presidente Lula e ódio a sua figura e a seu partido. Mas não entrarei nesta seara, pois não concebo uma forma de falar sobre isto neste momento.

Fora diagnosticado primariamente o AVC, mas também fora constatado que ela teve um aneurisma há 10 anos. Mas o acidente que acometeu Dona Marisa parecia grave, apesar de ter seu quadro clínico estável nos primeiros dias de internação e acompanhamento médico. No entanto, houve pioras, houve previsões piores e houve irreversibilidade. Na quinta-feira, sua morte cerebral foi confirmada e no dia posterior, exames confirmam o falecimento. No momento que escrevo este texto, acontece o velório e depois, a cremação de seu corpo.

Marisa fora uma mulher imparável e militante. Conheceu Lula no Sindicato dos Metalúrgicos, juntaram suas paixões passionais e ideológicas e se juntaram na luta do proletariado. Isso faz tempo, como se percebe, pelo desandar ideológico do partido. Talvez a primeira bandeira do partido, feita por ela, de remendos e costuras, esteja guardada em algum lugar ou já fora esquecida.

Voltando aos dias de hoje, não somente o impacto do falecimento que rondou o noticiário. Outro fato recalculou um debate pavoroso e assustador, independente de quais lados foram tomados: a polarização política. O ato político, em sua semântica, se aplica a muitas manifestações e sentidos. Deixar de lado o posicionamento político em prol de respeito e empatia pela situação de dor e perda é um ato político. Louvável, à propósito. Mas que nem todos iriam realizar. E daqueles que não fizeram, houve quem se distanciou da concepção ética. Pessoal e profissional.

Hipócrates é considerado o pai da medicina. Ascendeu os conceitos médicos a valores culturais máximos desde o universo grego e até agora. Não obstante que seu juramento concebeu diretrizes além-operacionais; fundamentou bases éticas, morais. Fez a medicina ser observada como uma arte — antropológica, biológica — . Corpus Hippocraticum são 60 tratados vinculados a Hipócrates, embora tenha registros de outros autores na construção dos livros. O conteúdo destes volumes teoriza e direciona aos âmbitos vastos do meio — a profissão, a postura, a ética, o homem — . Trata, em um ponto geral, da relação entre o homem, o indivíduo, com sua profissão médica e o que deve ser considerado como parte da ética. Atualmente, pedir o CID (Código Internacional de Doença) conflita dentro da ética medicinal entre médico-paciente, não obrigando os especialistas a detalhar a doença tratada e acompanhada nas consultas.

Leve em questão que no caso de uma pessoa com fama, suas complicações médicas geram assunto à mídia. E a mídia, é claro, tem seus interesses além da veiculação factual da informação. Sobre as condições de saúde, sobre o quadro clínico. O médico e a assessoria de imprensa preparam um discurso ao jornalismo, mas somente passando informações concluentes e com respaldo ético dos devidos procedimentos tomados. Obviamente que a curiosidade, como instinto e abastecido pela passionalidade, sobrepõe-se ao senso comum; deseja mais, deseja os detalhes e, neste caso, a repercussão de uma figura política dentro do ambiente hospitalar-cirúrgico-clínico.

O júri e o linchamento popular — relacionando sobre o tópico — é como uma bactéria. Se transmite, se propaga, e possui seus efeitos que são irremediáveis, de imediato. Durante o acompanhamento médico à Dona Marisa e os procedimentos cirúrgicos, vazaram informações ditas sigilosas e correspondentes apenas aos responsáveis acompanhando a paciente. Textos, fotos — não me espanto se houver um vídeo também — foram repassados a outros núcleos, outros grupos de contato rápido.

A médica Gabriela Munhoz divulgou os dados em um grupo de antigos colegas de faculdade de medicina. Neste mesmo grupo, um neurocirurgião, Richam Faissal Ellakkis, disse o seguinte:

“Esses fdp vão embolizar [procedimento de provocar o fechamento de um vaso sanguíneo para diminuir o flux de sangue em determinado local] ainda por cima. Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”.

O médico fora demitido pelo órgão médico particular do qual era vinculado, por ter desrespeitado o Código de Ética Médica. Gabriela também fora demitida pelo hospital Sírio-Libanês, por vazar informações sigilosas. O hospital, em nota, diz que possui rígidas normas de privacidade dos pacientes. Gabriela fora vítima da curiosidade animalesca da sociedade espetacular, que anseia pelo cerco noticioso em volta de pessoas atreladas a certos níveis de fama. Atendeu à demanda. E dali, como ninguém é dono e controlador de informação, ela se propagou. Dali, para as redes sociais. Dali, pro fenômeno da exposição midiática cada vez maior. E aí, para seu velório.

Que descanse em paz, Marisa. E que aceite as desculpas do homem de Cós. Pela invasão a sua dor e pelo luto subsequente de quem a ama.