#Nota Rápida: Detroit e atual cenário sociopolítico

Terá o novo filme de Katheryn Bigelow flopado? Se sim, quais as razões?

“Detroit”, recente filme da diretora Katheryn Bigelow, não parece ter uma animadora previsão em relação às arrecadação, principalmente nas primeiras semanas. A estimativa é que o filme faça apenas 15% de seu orçamento, avaliado em cerca de 30 milhões de dólares.

"Detroit" irá retratar as revoltas que ocorreram na cidade no ano de 1967, da população negra contra o preconceito, o abuso da polícia e o caráter fascista que o governo americano lidava com esta questão.

Pelo tema, por incrível que pareça, já se cria uma certa inibição, por mais relevante que ele seja, principalmente para o cenário atual.

No entanto, o próprio cerne sociopolítico que os E.U.A atravessa prejudica a viabilização da obra de Bigelow, conhecida pelos temas difíceis e de compreensão mútua, como "Guerra ao Terror" e "A Hora Mais Escura".

Em época de ascensão de uma extrema-direita racista/fascista, em que supremacistas brancos ganham voz e interlocutam dizeres e ordens conservadoras e nojentas, "Detroit" parece estar em meio a um empasse dificílimo, em que seu consumo pode evocar possíveis discussões incabidas.

Outra questão são as problematizações infligidas à diretora. Muitas pessoas e alguns grupos de militância ficaram contrariados por uma mulher branca relatar um evento histórico americano protagonizado por negros, importante para canalizar e explicitar a opressão aos negros no país estadunidense, despertando as revoltas contra o endêmico e sistemático racismo.

Em uma entrevista para a revista americana "Variety", Bigelow diz: "Sou a pessoa certa para contar essa história? Não, definitivamente. No entanto, essa história existe há 50 anos e ninguém ainda contou!"

Cinema não é somente uma manifestação artística e cultural de seu tempo, mas também histórica. Ela é inerte à sua época, em variados segmentos, caráteres e subgêneros. Ao mesmo tempo que se via o fascínio pelos anos 70 na montagem da Nova Hollywood, Costa-Gravas ditava o audiovisual latino-americano em passos ao escarno político. Nenhum está mais certo ou errado que ou outro. São representações artísticas/culturais/políticas e históricas distintas, pautadas em seu espaço tempo macro ou micro regional.

Deslegitimar a necessidade de um filme como "Detroit" é corroborar com a manutenção de um silenciamento praticado há muito tempo e que parece reviver gradualmente neste ano. 50 aniversários das ruas de Detroit se levantarem contra quem as pisa.

No entanto, relatos contam que o filme é violento, incisivo em apresentar à época um momento de escárnio e raiva, indignação.

Qual será a repercussão deste filme em meio a este cenário insolúvel?

“Detroit” estreará no Brasil no dia 7 de setembro.