Legado 01

Por que eu comecei a ler?

Ao contrário do que possa parecer, nem sempre fui um leitor assíduo. Na verdade, nos tempos escolares, não costumava ler quase nada além dos livros de estudos — e até mesmo esses, às vezes, eram deixados de lado. Mas lembro-me vagamente de sentar-me com a minha irmã para ouvirmos nossa mãe ler histórias infantis em tardes ensolaradas.

E quem é você?

É uma boa pergunta. Sou alguém em constante mudança, em melhoria, ainda em construção. Também sou escritor. Vamos continuar.

Eu me recordo de uma única professora que pregava a leitura com paixão, talvez lembre apenas dela porque não tenho a melhor das memórias. Se você foi meu professor e está lendo isso, e incentivou a leitura para mim, me desculpe.

Contudo, mesmo distante, ainda lembro-me, também vagamente, de ser apaixonado por um livro quando era criança. A história do garotinho que sonhava com um herói das estrelas, encantava-me. Era uma coisa simples, bem infantil. Provavelmente foi um dos primeiros livros que li por vontade própria e gostei. Não lembro o título tampouco o autor, e eu gostaria muito de encontrar o herói estelar e o garoto sonhador outra vez.

Os anos passaram, continuei a ler pouco. Felizmente, as coisas começaram a mudar durante os dois últimos anos do ensino fundamental. Nessa época, tive meus primeiros contatos com o RPG de mesa, uma aproximação maior das histórias em quadrinhos e da lenda do Rei Arthur.

O RPG primeiro, certo? Bem, acontece que ganhei alguns suplementos do jogo 3D&T e o módulo básico do Anime RPG. Eles foram as chaves que abriram minha mente para o que existia além da realidade, nos vastos campos da imaginação. Não que eu não usasse a minha, eu sempre fui imaginativo. Passava horas contando histórias com meus bonecos de super-heróis e até mesmo criei um card game com o meu primo. Se estiver lendo isso, primo, lembra-se do Marrone?

Mas foi o RPG quem abriu portas que até então eu pouco explorava. Um novo aprendizado na arte de contar histórias, a próxima fase. Apresentei o jogo para meus amigos e todos gostaram, depois fiz novas amizades por conta do jogo. Comecei a passar horas, dias, semanas, pensando em histórias cheias de aventuras para conduzir os personagens criados pelos demais jogadores. Eu os entretinha por horas a fio, sentados na calçada em frente à casa de um deles, rolando dados, conversando sobre banalidades, e, claro, jogando. Nós nos divertíamos. Em alguns dias, ia embora para almoçar e retornava, jogávamos até escurecer, e, às vezes, até mesmo durante a noite.

Surgiu a necessidade de ler mais para criar mais. Inventar mais histórias e situações cheias de aventuras, com dragões cuspindo chamas e donzelas a serem resgatadas. Não tardou até a leitura tornar-se um prazer. E um escape, também, como veremos logo mais.

Eu já não lia apenas para buscar inspiração nas aventuras que narrava, mas sim por prazer. Ainda que relutasse em ler os livros pedidos na escola. Durante o ensino médio, mergulhei de cabeça na lenda do Rei Arthur. Busquei alguns livros na biblioteca municipal e me deliciei. Pouco tempo depois, conheceria a fantasia escrita por Leonel Caldela, iniciada em O Inimigo do Mundo. Outro marco. O RPG tornou-se um paixão, assim como ler, e desde aqueles tempo, contar histórias já era algo que eu adorava fazer.

Contudo, antes de Leonel Caldela e do RPG, houve um amigo da escola que apresentou-me às histórias em quadrinhos. Na verdade, os quadrinhos eram todos do Homem-Aranha, no universo Ultimate. Eu adorava o desenho do cabeça-de-teia dos anos 90, Cavaleiros do Zodíaco e essa animação do aracnídeo tomava a atenção minha e do meu irmão. Claro que eu me apaixonei pelos quadrinhos. Eram as mesmas histórias recontadas para um publico mais novo, com uma atualização visual muito bacana.

Porém, como não tínhamos dinheiro para comprar as edições mensais, decidimos dividir: cada um compraria uma edição. Fizemos isso por quatro ou cinco meses, antes do meu pai perceber o meu apreço pelos quadrinhos, e no início de todo mês trazer a nova edição. Não paramos nossa colaboração, ainda emprestávamos as edições um ao outro, nem sempre conseguíamos comprá-las. O tempo seguiu, enquanto eu ainda apreciava os quadrinhos, meu amigo parou de acompanhar. Sabendo o quanto gostava, acabei ganhando as edições dele de presente. Eu ainda tenho as edições guardadas aqui na prateleira, e elas são uma das coisas mais queridas que tenho aqui. As tardes de RPG, o meu pai chegando cansado do trabalho trazendo um quadrinho novo e o gosto compartilhado com esse amigo, são lembranças especiais. Inesquecíveis.

Mas elas doem. Dói pensar nos amigos de RPG que pouco vejo atualmente — alguns até perdi contato. Hoje em dia eu mesmo compro meus quadrinhos, o bolso do meu pai agradece. A pior dessas dores me acomete quando lembro do suicídio desse amigo, o cara que me apresentou ao mundo dos quadrinhos.

Eu penso com certa frequência no quanto falhei com ele, no quanto nos distanciamos, e em como a vida dá golpes dolorosos, cujas cicatrizes, você sabe, serão eternas. Caso eu não tivesse a literatura e a escrita comigo, teria sido ainda mais difícil de aplacar essa dor.

Assim como não era um leitor frequente, não gostava de estudar. Mas estudava, ao menos para conseguir ficar na média. A ideia de reprovar e ter que encarar anos extras me apavorava. Isso seguiu até o ensino médio e afetou minhas escolhas sobre faculdade. Também não me lembro de ter tido um grande apoio por parte dos professores para ingressar em alguma faculdade. Novamente, é possível que minha memória não se recorde de algo. Desculpem-me. Amigos me incentivavam, mas eu estava tão perdido que não fazia ideia do que escolher, e acabei empurrando com a barriga, deixando o tempo passar.

Comecei a trabalhar bem cedo. Meses após concluir o ensino médio, fui desligado do meu emprego ao completar dezoito anos. Não tinha ideia de qual profissão seguir. Não tinha feito curso algum. Tinha pouca experiência de vida. Aceitei o primeiro emprego que apareceu.

A ideia de não trabalhar me assustava. Comecei, então, a trabalhar na portaria de um condomínio residencial. Trabalhava doze horas por dia, em uma escala horrorosa, à noite. Havia dias bons e pessoas legais nesse trabalho, mas era uma merda ainda assim. Eu precisava matar o tempo durante a madrugada já que todos estavam dormindo, e eu não tinha um smartphone como os de hoje, cheio de aplicativos, internet e afins. Já jogava pouco RPG na época, havia deixado os quadrinhos um pouco de lado, mas, enfim, expandi meus horizontes literários. E isso me ajudou. Eu não tenho palavras para agradecer ou explicar o quanto a literatura tornou-se vital para minha vida. Eu me sentia sozinho, mas e daí? Eu tinha livros. Meu emprego não me permitia sair com meus amigos, ir em festas ou shows, mas eu ainda tinha os livros. E quanto mais eu lia, mais descobria os prazeres.

Comecei e rascunhar umas histórias, lembrando das aventuras das sessões de RPG e inspiradas pelos quadrinhos. O emprego era uma droga, mas eu tinha tempo para ler e dar meus primeiros passos na escrita. Apaixonei-me ainda mais pela arte de escrever e decidi que faria dela minha profissão. E eu tenho tentado. Mesmo nos dias ruins, nos dias de chuva, quando notícias funestas me abraçaram, em dias de risos, eu tenho tentado melhorar. Mas não estou aqui para contar sobre meu amor pela escrita, e sim, sobre meu amor pela leitura.

É claro, existem diversos benefícios da leitura, aprendi a aproveitá-los com o tempo, mas, entre outros, ler me ajudou (ainda ajuda) a superar momentos ruins e lembranças amargas. Ajuda-me a bater na saudade, a querer viver mais, a recordar, a esquecer. A chorar e rir. Ler é abastecer uma só vida com várias outras vidas. É importante. É vital.

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