Antonio Callado, 100 anos

Um carioca da gema. De Niterói

Luiz Egypto (*)

Meu primeiro encontro com Antonio Callado deu-se em setembro de 1978, quando lhe pedi uma entrevista. Ele prontamente aquiesceu. O resultado foi publicado em três páginas, com direito a chamada de capa, na edição de número 89 do “Folhetim”, extinto suplemento dominical em formato tabloide da “Folha de S.Paulo”, com data de 1º de outubro.

A primeira página daquele “Folhetim” foi tomada, de alto a baixo, por uma foto do entrevistado. No pé, a manchete em duas linhas, em maiúsculas: “Antonio Callado. Este país é um colégio interno!”, com exclamação e tudo. Na página 3, sob o título “falando francamente” (também em duas linhas e assim mesmo, em caixa baixa), um retrato de nosso personagem pelo traço inconfundível, a bico de pena, do caricaturista Petchó [Pedro Afonso Terra (1952–1995)]. Nas duas páginas seguintes, fotos de Callado captadas por Lucia Arruda durante a nossa conversa. A abertura da entrevista pingue-pongue anunciava:

“Antonio Callado é, fundamentalmente, um jornalista. Começou no ‘Correio da Manhã’, onde chegou a chefe de redação; na BBC de Londres, durante a II Guerra; e foi editorialista do ‘Jornal do Brasil’ até 1975. Hoje é free-lancer. São quarenta anos de jornalismo que transformaram este homem em um escritor fartamente elogiado. São seus o livros de reportagens ‘Os industriais da seca e os galileus de Pernambuco’ e ‘Vietnã do Norte: uma advertência aos agressores’. E mais: ‘Quarup’, considerado o romance brasileiro mais importante dos anos 60; ‘Bar Don Juan’ e ‘Reflexos do baile’.
“A conversa com este fluminense de Niterói, 61 anos, foi em setembro deste ano, num pequeno edifício de uma ruazinha do bairro do Leblon, Rio de Janeiro. Nas paredes, desenhos e óleos de Portinari dedicados a ele. Sobre uma pequena estante de livros, uma foto de Ho Chi Mim [sic], com a dedicatória de próprio punho, ‘seja bem-vindo, 1/10/68’.
“Tudo isso ao som do bate-estacas de mais um espigão parido pela especulação imobiliária.”

A reprodução fac-similar dessa edição do “Folhetim” pode ser lida aqui: http://acervo.folha.uol.com.br/fsp/1978/10/01/348/

Callado discorreu sobre os efeitos da censura imposta pela ditadura militar à produção cultural, comentou a disputa instalada nos quartéis pela sucessão do então general-presidente Ernesto Geisel, e avaliou com muito otimismo o renascimento do movimento operário no Brasil, em especial no ABC paulista, onde àquela altura promoviam-se os primeiros enfrentamentos com os patrões e os militares desde a decretação do Ato Institucional nº 5, dez anos antes.

“Em São Paulo, por exemplo, me parece altamente promissor esse movimento operário que surgiu. É um fenômeno tão importante de tomada de consciência de uma classe que eles próprios evitam, de certa forma, intelectuais, políticos, estudantes. Eles estão convencidos que têm uma luta muito deles e que sofrem muito mais do que nós quando o pau baixa. (…) Eu tenho a maior esperança de que eles continuem realmente se organizando, aproveitando essa área de liberdade que nos foi concedida agora. Que se organizem, que não queiram falar comigo, nem com você, que se organizem realmente entre eles e que façam um partido operário forte. Eu tenho a impressão que eles podem modificar muito a carreira já tão capenga deste país.”

Dias depois da circulação do jornal, recebi por correio, na redação da “Folha”, um envelope azul, postado no Rio, com um bilhete manuscrito de Callado agradecendo a matéria e elogiando a edição. Esta correspondência está perdida em meus papéis, mas tenho certeza de que está devidamente guardada. Só não sei onde.

Fiquei lisonjeado com a deferência de um escritor que eu tanto admirava, e tomei os termos daquele recado como um salvo-conduto para procurá-lo outras vezes. Ele se tornaria uma de minhas fontes. Não tenho como precisar quantas, mas liguei umas poucas vezes para o número 274 * * * 0, no Rio, para ouvi-lo sobre um ou outro assunto, ou pedir uma ou outra sugestão. Até que, nove anos depois, solicitei uma nova entrevista. Ele topou.

Numa manhã quente de dezembro de 1987, ele me recebeu no mesmo apartamento em que mantivemos a primeira conversa. Tratou-me com fidalguia tal que foi inevitável lembrar de Nelson Rodrigues, que dizia ser Callado, seu amigo, o único inglês da vida real.

Era uma quarta-feira, fazia um calor de estourar mamonas e ele me recebeu de bermudas. Reparou em minha indumentária paulistana de calça jeans e camisa de brim, de mangas compridas: “Você não está com calor?” A fotografia autografada de Ho Chi Min ainda estava lá, sobre a mesma estante. E, antes de ligar o gravador, ouvi de Callado a informação de que naquele dia, 2 de dezembro, comemorava-se o Dia do Samba.

Este depoimento do depois imortal da Academia Brasileira de Letras Antonio Carlos Callado — nascido em Niterói (26/01/1917), morto e enterrado no Rio (28/01/1997) — permaneceu involuntariamente inédito até o momento em que se comemora o centenário de nascimento do atilado repórter, contundente editor, refinado romancista e engajado dramaturgo. Um cavalheiro, além do mais.

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Paixão duradoura

Estou no Rio praticamente a vida inteira. Nasci em Niterói, meu pai era carioca e médico em Niterói. Morávamos lá porque meu bisavô tinha casa e toda a família mantinha uma relação boa com a cidade. Meu pai clinicou em Niterói, comecei meus estudos lá. Eu tinha onze anos quando papai morreu e a família veio para o Rio. Em 1937 consegui meu primeiro emprego regular no “Correio da Manhã” e aí eu já estava inteiramente carioca. Nós morávamos em Copacabana e minha carioquice já era total.

Os niteroienses meus conterrâneos acham que eu trato a cidade com uma certa reserva, mas não é isso, não. A saudade que eu tenho dos meus tempos de Niterói é uma coisa insubstituível. É saudade do meu tempo de menino. Naquele tempo não era preciso ser rico para morar em casa com quintal. Niterói fica ao lado do Rio de Janeiro, a distância é uma barca, ou, como agora, um ônibus ou um automóvel. Então não é uma cidade, é uma província. Nascer em Niterói é nascer no contexto do Rio. São, no fundo, cidades irmanadas. Tenho Niterói como a cidade de minha infância e o Rio de Janeiro como a cidade de minha vida. O Rio é uma paixão inextinguível.

O Rio é lindo

Eu morei no estrangeiro durante anos, conheço muitos lugares e tenho viajado muito, mas o Rio de Janeiro tem uma qualidade muito especial: é muito bonito demais. E por mais que os homens se esforcem, não conseguem acabar com essa beleza, não. É uma coisa intrínseca, o Rio é realmente uma cidade linda. Mas a destruição causada na cidade por falta de um plano diretor é o maior crime que se faz contra o Rio. A cidade tem tentado. No princípio dos anos 1920, o governo importou um grande urbanista francês chamado [Alfred] Agache (1875–1959), que fez um plano diretor do qual sobraram apenas a Praça Paris e algumas coisas no centro do Rio. Agache poderia ter feito uma cidade tão harmoniosa quanto Paris.

Outros planos foram feitos. Eu me lembro dos [arquitetos] irmãos Roberto, quando ainda eram três [Marcelo, Milton e Mauricio], com trabalhos muito bonitos e planos para o centro do Rio; Sérgio Bernardes (1919–2002); Oscar Niemeyer (1907–2012). O [governador do então estado da Guanabara] Carlos Lacerda (1914–1977) importou o urbanista grego [Constantino] Doxiádis (1914–1975), um arquiteto muito famoso. Eu me lembro do Lacerda contar que tinha tomado conhecimento do Doxiádis num daqueles perfis que a revista “New Yorker” faz de gente importante, e ali descobriu o arquiteto e tudo o que ele já tinha feito em termos de urbanismo. Aquela fúria lacerdista trouxe o grego para o Rio, e aqui ele fez também um plano diretor (mais um!) que não conseguiu impor-se. O Lúcio Costa (1902–1998), que mora aqui defronte de mim, tem pensado e sonhado tanto com o Rio que eu tenho a impressão que o Lúcio anda meio desinteressado e desligado, porque as tentativas de planos diretores do Rio não funcionam. A força do dinheiro e das empresas imobiliárias tem sido absolutamente sufocante na cidade.

Turismo e ambiente

Quando se quer um incentivo ao turismo, guarda-se até pedra velha, como em Atenas e Roma. Aquelas pedrinhas equilibradas mostram bem o que foi a Roma antiga e a Atenas de Péricles. O Rio de Janeiro tem tesouros que não são tão ilustres quanto aqueles, mas é preciso deixar o tempo passar para as coisas acontecerem. Veja, por exemplo, o prédio do Ministério da Educação. Tem aquela base do [arquiteto francês Charles-Edouard Jeanneret-Gris, conhecido pelo pseudônimo de Le] Corbusier (1887–1965), mas aquilo, antes de ser uma esplanada, era o Morro do Castelo, onde nasceu o Rio de Janeiro e onde começa o romance “Esaú e Jacó”, do Machado de Assis, com a mulher subindo o morro para consultar a cartomante… Repare que acumulação de cultura num pedacinho do Rio. E está lá, nesse lugar onde foi o Morro do Castelo, o prédio que foi fundamental na obra de Le Corbusier e é a sementeira da arquitetura moderna brasileira. E isso a dois passos do Paço Imperial, que era na encosta do morro.

Não interessa, mas, do ponto de vista da cidade, o [Antônio de Pádua] Chagas Freitas (1914–1991) foi um excelente governador, como o Lacerda e o [Leonel] Brizola (1922–2004). Isso, o que é? É o espírito da cidade do Rio de Janeiro. E foram governos completamente diferentes entre si. Chagas recuperou os Arcos da Lapa, a obra do [administrator colonial português] Gomes Freire de Andrade que parece um arco romano, uma construção colonial lindíssima. Estão lá perfeitos, os arcos. Aquilo é eterno, não sai mais dali. O [ex-governador Francisco] Negrão de Lima (1901–1981) acabou demolindo o Morro de Santo Antônio e deixando de pé o convento de Santo Antônio. Fora sucessivos governadores, diferentes em temperamento, com uma sensibilidade enorme para com a beleza do Rio.

Por que, então, a gente não tem um plano diretor? É um mistério que eu não consigo apurar. [Há um plano diretor em vigência, que pode ser consultado aqui: http://www.rio.rj.gov.br/web/smu/plano-diretor1] É a básica anarquia da coisa brasileira em geral, não é defeito do carioca. Eu acho São Paulo, por exemplo, uma cidade devastadíssima, muito destruída. Mas São Paulo, como não foi capital do Brasil, não poderia ter a arte colonial que temos no Rio — e o pouco que tem está deixando perder. Eu posso dizer que o Rio de Janeiro até tem tido cuidado com as coisas mais antigas, mas com o moderno não tem. E tão importante quanto os Arcos da Lapa são essas praias que a gente tem.

Isto aqui é o alto do Morro Dois Irmãos [refere à região da cidade em que estava o seu prédio, na Rua Aperana, no Alto Leblon]. É de propriedade de um homem muito rico, de um argentário chamado Antonio Sánchez Galdeano (?-2011), que era sócio do [empresário boliviano Antenor] Patiño (1896-1982), aquele das minas de estanho. Acho que ele não se incomoda em ser chamado de argentário, porque é realmente um homem riquíssimo que nunca se preocupou com a cidade. Não tem uma praça, um jardim que ele tenha dado à cidade. Ele é conhecidíssimo no Rio. Inclusive, dá muitas festas na casa dele, quase que invariavelmente a membros da Justiça do estado do Rio, pessoas de quem depende para conseguir um projeto que ele quer realizar e que vem defendendo desde 1970 — que é montar, aqui em cima desse morro que fecha a praia de Ipanema-Leblon, um hotel e quatro prédios de apartamentos. [Ver “EUA choram a morte de ídolo reciclado”, artigo de Antonio Callado, “Folha de S.Paulo”, 28/05/1994, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/5/28/ilustrada/18.html] Eu tenho nos meus recortes uma decisão unânime do Patrimônio Histórico, de 1972, recusando a permissão para construir no morro. De 1970 para cá, esse homem tem tentado, conversado, diz que aprimorou o projeto, não larga o osso! E o Brasil, sendo o que é, eu tenho a impressão de que ele acaba fazendo um hotel e mais quatro edifícios no Morro Dois Irmãos.

Este projeto não é só uma agressão visual, mas vai causar despencamento de encostas, águas pluviais desordenadas, tudo isso. E coisas assim acabam virando favelas eternas. Uma favela comum é até fácil de remover, pois são materiais leves. O Lacerda removeu várias. Mas você não acaba com selvas de pedra como as que existem no Rio.

Beleza escondida

É uma situação detestável. Não tenho a menor dúvida de que estamos perdendo nossa qualidade de vida. O que eu digo é que o Rio de Janeiro, com tantas léguas de praia e lugares tão bonitos, resiste no sentido da riqueza de suas belezas naturais. Isso não é eterno. A falta de um plano diretor, que para mim é fundamental, vai acabar com o Rio no sentido de que a cidade ficará, para princípio de conversa, muito feia.

Há morros no Rio que já desapareceram. A Avenida Rui Barbosa era o antigo Morro da Viúva, que hoje não se vê mais porque os prédios já o cobriram completamente. Na Rua Toneleros, em Copacabana, a mesma coisa. Perto das coisas bonitas da cidade não se tem a ideia de construir baixo. Com um plano diretor você poderia fazer uma cidade que provavelmente teria tantos habitantes quanto tem o Rio agora, mas muito mais preservada em sua beleza. Eu repito e reitero que muitos desses morros que estão ocupados por favelas despertam a ira das pessoas que querem grandes projetos imobiliários nas encostas. O argumento é que se se fizer um projeto imobiliário não se tem mais favelas e nem essa gente miserável e horrorosa. Há duas razões, aí. As favelas são as nossas senzalas, ali moram as pessoas que trabalham para nós, e essa gente tem que ter um lugar. Quando, em 1957, dom Helder Câmara (1909–1999), então arcebispo do Rio, fez a Cruzada São Sebastião, todos os favelados da região queriam ir para os prédios. Tratores removem uma favela e o morro está restituído para a cidade. Mas nunca acontece isso.

Espaço e terra

Você está me fazendo pensar no livro de um frade franciscano que visitou o Rio acho que no princípio dos anos 1930 ou fim dos 1920. Era um frade alemão muito interessado na natureza e que ficou deslumbrado com o Rio, então uma cidade muito pouco construída. E viu as montanhas, as matas, o mar, os ventos e a delicadeza das curvas. E ele, como um bom alemão, lembrou-se de [Georg Wilhelm Friedrich] Hegel (1770–1831) e disse: “Esta é uma cidade dialética”. O Rio é uma cidade em movimento; mas, para isso, é preciso deixar que ela continue visível, exatamente para ter aquela impressão que o frade teve. É aquela conversa que existe entre as montanhas e as praias, essa beleza toda que o pessoal das empresas imobiliárias vai acabar destruindo. [Essas empresas] estão, sim, com um cacife alto porque nunca foram contidas. Veja a Barra da Tijuca. O plano original do Lúcio Costa eram aquelas torres e muito espaço em torno de uns poucos prédios. Então, diziam: “Isso é coisa para privilegiados”. Não eram necessariamente privilegiados, pois se constrói prédios de luxo e prédios que não são de luxo, mas a visão arquitetônica de um lugar implica que para as pessoas viverem bem é preciso haver esse tipo de espaço. E o que aconteceu na Barra? Abandonaram as torres do Lúcio Costa e, em compensação, subiram centenas de prédios. Aí não há nada o que resista.

Se você chega à conclusão de que o Rio de Janeiro só pode viver das imobiliárias e não tem outra maneira de existir, então seria uma condenação. Mas isso não é verdade. Temos uma Baixada Fluminense gigantesca e desocupada, que poderia ser empregada na agricultura. Quando eu era menino, havia uma famosa injunção que durante todo tempo se repetia, que era o “saneamento da Baixada Fluminense”. Aquilo era um pantanal e realmente um lugar perigoso, porque habitat do mosquito da febre amarela, o pavor do Rio de Janeiro antes do saneamento [promovido] pelo Oswaldo Cruz (1872–1917). A Baixada, então, era aquela fábrica de mosquitos — e começou a aflição, aquele medo. Houve, finalmente, e aos poucos, o saneamento da Baixada. E não foi aquela [solução] idiota de aterrar tudo: foi um trabalho grande de cavar as valas, os drenos, e fazer os escoamentos. Agora você vai de carro daqui para Petrópolis e vê que a Baixada ficou vazia. O que aconteceu, então? Foi saneada para quê? Aquilo, hoje, é propriedade particular. Vê-se uma fazendola aqui, outra ali. São problemas fundamentais do estado do Rio que precisam ser resolvidos. O estado do Rio não precisa importar tomates de São Paulo. O estado é enorme, tem muitas terras. Essas terras que foram do café podem perfeitamente servir para outras lavouras. O café esgota muito a terra, mas os espaços e os novos meios de uso da terra podem ser aplicados nisso.

Copacabana

Quando vim para o Rio, eu morei muito tempo em Copacabana, que ainda era um lugar acessível, não era muito caro; ao contrário, era um bairro que estava começando a crescer. Era um lugar muito tranquilo e as praias tinham até um resto de vegetação. Eu me lembro com muita saudade desse tempo. Mas Copacabana ficou tão completamente diferente que eu passo lá e não sinto mais nada, nenhuma saudade, coisa que eu tenho mais por Niterói — apesar de toda a destruição que também houve por lá, você ainda tem lugares e praias que conservam mais o ar do que eram do que algumas partes do Rio.

Copacabana se perdeu. [Sou] contra a opinião de alguns urbanistas, inclusive a do meu querido Oscar Niemeyer — ele acha que o plano do Negrão de Lima de fazer o calçadão e recuperar as praias é uma coisa, digamos, atrabiliária, no sentido de que afastou todo mundo do mar. Eu discordo. Copacabana, antes do calçadão, estava completamente perdida. Por isso eu digo que os governadores do Rio têm um amor inexplicável pela cidade. Quando o Negrão anunciou que iria aumentar a praia de Copacabana, com aquele mar aberto e bravo, dizia ele que tinha contratado uma empresa de engenheiros portugueses, e que a ideia era trazer areia de Botafogo para aumentar a praia. Na época eu tive vontade de rir, achando que o Negrão de Lima tinha definitivamente enlouquecido. Não me parecia possível aquele projeto; eu não entendia nada do assunto, senão não teria tido uma opinião tão drástica. Foram instalados aqueles [equipamentos] gigantescos, aquelas bombas que traziam areia para Copacabana. Eu pensava: “Agora vai acabar esta cidade”. E ele conseguiu. O Negrão botou quilômetros de praia ali, na frente do mar. E eu fiquei bestificado. Não só deu certo como em certos pontos de Copacabana a praia ficou enorme. Eu me lembro até de uma charge muito bonita do Lan [Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi Rossini, caricaturista italiano radicado no Rio], que em parte dá a medida do assombro do carioca diante daquilo: era um casalzinho indo para a praia de manhã, atravessando o asfalto para chegar à areia… no dorso de um camelo. Esta charge nunca mais me saiu da cabeça. Foi uma obra que salvou Copacabana de um estrangulamento irremediável. Aumentando-se as pistas junto à praia, [a fluidez do] o tráfego de veículos da Avenida Nossa Senhora de Copacabana tornou-se possível, o que não quer dizer que seja agradável.

Voltando à questão do plano diretor: quando Copacabana começou a ser ocupada, com a construção do primeiro túnel, em 1912, não havia um plano para disciplinar a distância que as casas ficariam do mar, e todo mundo foi construindo onde bem lhe aprazia — tanto assim que o hotel Copacabana Palace era invadido pelas ressacas, de tão perto que estava do mar.

Maricá

Eu tenho uma casa em Maricá (RJ), que é uma praia selvagem, de mar aberto. A casa não deveria estar onde está. Ela está em cima da areia. Quando há maré muito alta, as ondas vêm lamber o meu muro, na beira do jardim. É muito engraçado, mas evidentemente é um disparate. Todas as casas que estão ali, como a minha, vão eventualmente causar um problema que eu não sei que futuro Negrão de Lima vai resolver… O João Saldanha (1917–1990) tem casa lá. Ele mora longe da praia, pelo menos não tem culpa no cartório porque está longe do mar. Mas ele conhece bem o mar. Eu tinha um compadre que era muito amigo dele, e que tinha um terreno como o meu, quase dentro do mar. Estavam ele e o João um dia lá em casa, com o João defendendo a casa na beira da lagoa, como é a dele. Então esse meu compadre, o [jornalista] Salim Simão, dizia: “Ô João, que coisa horrorosa morar na beira daquela lagoa, tem muito mosquito!” E o João replicou: “É, mas com você vai ser pior. Um dia desses, quando abrir a janela, vai entrar um surfista dentro de sua casa e eu quero ver o que você vai dizer”. É a vingança dos habitantes da lagoa em relação a nós que estamos na beira do mar. João está a uma distância razoabilíssima do mar; eu, já estou em cima da areia. A única coisa que dá ali é a casuarina, que vive de vento e areia, uma árvore inteiramente misteriosa, vinda da Austrália, enorme, que cresce a dez metros de altura de você deixá-la sem podar. Ao contrário do Nordeste, o coqueiro aqui não dá na areia. Lá, às vezes ele cresce dentro do mar. Quando cai é porque foi solapado, e cai inteiro. Em Maricá tem coqueiro, mas só muito para dentro. Perto do mar só dá casuarina. E surfista.

O jardim e os predadores

Para mim, o centro mágico do Rio de Janeiro é o Jardim Botânico. Meu romance “Concerto Carioca” se passa praticamente dentro do Jardim Botânico. O Rio tem esse privilégio fantástico, mesmo hoje, de ter esse negócio chamado Floresta Carioca. Subindo daqui, além do Jardim Botânico, pela Rua Dona Castorina, você vai sair por trás do Morro Dois Irmãos e cai numa floresta tão grande que você se perde se não conhecer. É uma floresta, ainda. Tem sagui, tem esquilo, passarinhos, tudo isso nativo e natural. E lá, no sopé desse morro, o frei Leandro [do Santíssimo Sacramento, primeiro diretor do Jardim Botânico, de 1824 a 1829] e D. João VI fizeram o Jardim Botânico com árvores importadas das Antilhas, com aquelas palmeiras imperiais. Aliás, eram palmeiras que se chamavam palmeiras reais, “royal palm” em inglês, no tempo de D. João VI, e passaram a “imperiais” quando o Brasil virou império — só não viraram [depois] palmeiras republicanas…

O Jardim Botânico nasceu naquele tempo e se comunica com a floresta. Você anda por ali saindo do Parque do Caxinguelê, onde mora muita gente e que a administração do Jardim está querendo desalojar. Mas não é essa gente que estraga a parte selvagem do Jardim. É o Dataprev e outras construções de órgãos do governo. É essa sacanagem brasileira habitual. São funcionários públicos que ficam lá pensando na vida, no meio daquele parque.

Se você for por dentro, sai no Horto Florestal, onde eles criam as mudas das plantas que vão descer para o Jardim. E você esbarra lá, de cara, nos rios que são os mananciais do Rio de Janeiro. É deslumbrante. Numa cidade da civilização do Rio — onde, afinal, existem muitas coisas de uma cidade civilizada e sofisticada, no bom sentido — você tem o Theatro Municipal, a Sala Cecília Meireles, que são da maior qualidade, e, ao mesmo tempo, uma floresta. Veja que cidade preciosa! Não é à toa que ela é capital de tantos brasileiros que vêm aqui de todos os lados. O passeio que se pode fazer subindo do Jardim Botânico até se perder na Floresta da Tijuca é uma coisa inenarrável. No alto do Rio de Janeiro tem uma floresta, com bicho e com tudo.

Um dia tinha uma preguiça aqui, do outro lado da rua. Telefonei para o “Jornal do Brasil” e eles mandaram um carro, pegaram a preguiça e a levaram para o Jardim Zoológico. E o porteiro aqui do prédio me avisou: “O senhor acredita que o pessoal gosta muito de preguiça com batatas?” Preguiça com batatas?! Realmente não há limites para a fome das pessoas. Eu não sei que gosto tem a carne de preguiça, pode ser até que seja bom. Mas você fica com pena de um bicho raro como esse. E eles estão aqui, no comecinho da Floresta da Tijuca, que gente como o Galdeano está procurando acabar com eles aos poucos. Mas este patrimônio eu considero um patrimônio brasileiro, nacional. Ele está submetido ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional [na fala original, “Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico”], mas, fundamentalmente, há mais de um ministério envolvido, além do Ministério da Cultura, que, por sua vez, não tem meios para fiscalizar nada. Nada. Há boas leis de proteção do patrimônio não só artístico como natural — e o Rio de Janeiro é uma obra artística natural, [portanto] nada mais justo que esteja sob esta legislação. Mas quando há uma demanda qualquer e se descobre o número de agências envolvidas, aí você começa a perder confiança na força das leis. O patrimônio diz que não pode, que isso é patrimônio natural. Aí vêm a secretaria de Cultura do estado, a prefeitura da cidade, o departamento de Obras, o de Parques e Jardins, e mais uma série de outros órgãos, e aí você fica perdido. E é no meio desse matagal burocrático que se movimentam os predadores da cidade, esses marajás das empresas imobiliárias, os nossos Galdeanos, Sergios Dourados, Gomes de Almeidas etc. Eles dirão, com uma certa razão, que estão expandido o seu negócio e a cidade que se defenda. Mas eles têm o grande incentivo do dinheiro e do lucro. E a cidade não tem fiscalização suficiente para isso. A gente acredita muito em leis escritas, e as leis escritas, no Brasil, são passíveis de ser descumpridas. O que é preciso é criar — e aí é questão de investimento estatal sério — esse aparelho de fiscalização.

Asfalto e favela

Eu tenho horror do trânsito do Rio. Praticamente só uso automóvel para ir a Maricá. Tenho horror de sair por aí por causa do trânsito que há. Eu trabalho em casa. Mas reparei uma coisa na França, quando estive lá em março [de 1987], no Salão do Livro. Estávamos num grupo grande, eu, minha mulher [Ana Arruda Callado], Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro e, esperando para ir ao hotel, paramos num bistrôzinho daqueles para tomar alguma coisa e comemorar a chegada a Paris. Fazia tempo que eu não ia à França. E nós vimos uma coisa extraordinária, assim na nossa frente: parecia espetáculo moldado para os brasileiros. Um motorista avançou seu carro um pouco no sinal, e um gendarme saiu do seu posto e deu um esporro no sujeito no meio da rua, mandou os carros que estavam atrás que passassem e ficou de dedo na cara do sujeito. Você tinha a impressão que o guarda ia bater no cara. Entregou a multa na mão dele como se o estivesse xingando. Isso porque o sujeito ousou avançar um pouco o sinal. Veja a indignação de quem estava com a lei na mão dele. Aquele motorista podia ser o presidente do conselho de não sei das quantas que não iria adiantar nada. O gendarme estava com a lei na mão. Você já viu acontecer isso no Rio? Em São Paulo?

Sem esse tipo de fiscalização é impossível funcionar alguma coisa. Digamos que o governo, amanhã, faça um plano para defender as encostas. Tem muita lei de encostas por aí; no Rio, é o que mais tem. A única coisa que se vê de forma abusada nessa defesa das encostas é o objetivo de se acabar com as favelas, que são as coisas mais leves, as construções mais frágeis, que podem ser removidas facilmente. O que o carioca está começando a sentir mais do que em qualquer outra cidade brasileira é que a favela representa uma possibilidade de revolta física da população contra essa diferença disparatada entre ricos e pobres. Esta é uma outra conversa. Na favela não tem partidos comunistas, não. Tem gente que trafica drogas, bandidos organizados e a polícia, que se beneficia dessa coisa toda. Partido organizado, não tem. É uma gigantesca senzala em estado de semi-rebeldia. E isso assusta a todo mundo.

Centro velho

Devo dizer que aí também tem havido por parte dos governadores do estado e dos prefeitos da cidade uma certa atenção. Por exemplo, no governo passado [estávamos no governo Moreira Franco, antes da promulgação da Constituição de 1988], o Brizola e o Darcy Ribeiro (1922–1997) salvaram uma rua inteira do centro, que é a Rua da Carioca. É uma rua fundamental porque ela sai lá de cima, vem até à velha Câmara e ao Paço Imperial, à catedral e ao chafariz do Mestre Valentim, que está na Praça Quinze. É uma rua muito importante. Ela e a Sete de Setembro ligam a cidade velha à cidade nova. Toda a Rua da Carioca foi preservada, com suas fachadas, por um decreto que está sendo respeitado e que é sério. Ninguém ainda infringiu a lei. E a população adora se se garante um lado alegre. O Rio é festeiro e festivo, sempre foi. E ali, quando se faz algum evento de carnaval, por exemplo, não há a impessoalidade daqueles edifícios como os da antiga Avenida Chile, a Petrobras, o BNDES, a Catedral Metropolitana, que são prédios horrorosos, feiíssimos, inteiramente impessoais. Aquilo são verdadeiras fortalezas, isoladas umas das outras. Você não pode passar um corso de carnaval num troço daqueles. É tudo feio, muito feio.

Santo Cristo, Gamboa; Baixada, Rocinha

É um trecho ainda muito bonito da cidade antiga. O nosso Machado de Assis é da Gamboa; Lima Barreto circulava por lá. É uma parte antiga do Rio ainda saturada de história, de memórias literárias. O Campo de Santana está conservado. É um parque em pleno centro da cidade. É um lugar antiquíssimo do Rio, ligado à proclamação da República, à casa onde morava o [marechal] Deodoro da Fonseca. É um lugar também saturado de história e que ainda tem coisas bonitas.

Mas é preciso também defender um pouco a, digamos, selvageria do desenvolvimento: em nenhuma cidade grande do mundo você consegue realmente preservar tudo, não é possível. O grave no Rio é a expansão do novo inteiramente desaçaimada, sem ninguém para controlar e sem fiscalização. Para além desse centro do Rio começa então o Grande Rio das cidades da Baixada. Esse Rio de Duque de Caxias e de Nova Iguaçu é uma coisa que a gente conhece pouco. Eu tenho a impressão que em 1988 [este depoimento foi colhido em dezembro de 1987], ano do centenário da Abolição, vai haver um certo barulho por lá. Os negros estão revoltados. Há muito racismo no Brasil. O mulato ainda escapa, mas o preto é muito perseguido e não tem chance na vida. E a Baixada é, sobretudo, dos pretos. Eles estão querendo, inclusive — e isso daria uma ópera inteira — mudar o nome [do município] de Duque de Caxias porque acham que o Caxias era um homem que serviu apenas para mandar pretos para a Guerra do Paraguai. E estão querendo comemorar o centenário da Abolição não apenas falando da princesa Isabel, mas, sobretudo, com críticas ao processo como foi feita a Abolição no Brasil. Este é o caldeirão gigantesco de Duque de Caxias e Nova Iguaçu. São cidades de muita revolta. É como na favela da Rocinha, um fermento sem dúvida de banditismo, de tráfico de drogas. Quer dizer, passa a droga pela mão deles, isto é, você não imagina que na Rocinha o sujeito vá tomar um porre de cocaína quando a cocaína custa o que custa. Eles são os intermediários. Mas não há dúvida nenhuma que eles e o jogo do bicho estão organizados. A pessoa vive do que dá, e é claro que eles têm que se organizar de alguma forma. É gente muito abandonada, muito largada por lá, que nunca preocupou o Estado e nem a ninguém.

“Pedro Mico”

Eu me insurjo contra os retratos [estereotipados] do Rio. Conto sempre que, em 1982, passei um tempo na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, convidado para dar um curso. E a universidade fica na Rua 119 [em Nova York], lá em cima da Broadway, praticamente no Harlem. Você desce uma escada e já está no bairro negro. E você não avalia o número de avisos que eu recebia quanto aos cuidados que deveria tomar quando saísse à noite, sobretudo para não andar de metrô. Mas, eu dizia: “Meu deus do céu, o metrô aqui é tão bom e o táxi é muito caro”. Você ia à ópera à noite e o metrô desemboca dentro do Metropolitan Opera House. Não pode ser mais confortável: você sai da estação e está no teatro. Aliás, eu estava lá quando houve um assassinato que me lembrou coisas do Rio. Um jovem médico de um hospital ali por perto foi brutalmente assassinado, como aqui no Rio. E eles têm lá, nos Estados Unidos, com relação ao Harlem, um problema de consciência. Os negros estão muito concentrados ali, e a posição dos negros é uma posição impaciente. Eles têm muito mais consciência social do que o favelado carioca. Você ir até lá com aquele ar de turista, de boboca, de ver como o preto vive e o que o preto come, realmente não é aconselhável. Assim como eu não aconselho ninguém a ir passear na Rocinha. Aí é que São Paulo se diferencia do Rio: em São Paulo você não tem [favelas com] a visibilidade da Rocinha.

Eu escrevi uma peça chamada “Pedro Mico”, em 1957, e o dom Helder sugeriu que o [então] Serviço Nacional de Teatro (SNT) proibisse a peça, porque ele achava que ela ia revoltar as favelas. Eu tenho até uns recortes da entrevista que ele deu ao [jornal] “O Globo” naquela ocasião. Ele não queria que o SNT, [órgão] do Ministério da Educação, produzisse o espetáculo. Ele não queria censurar a peça, apenas não queria que um órgão do governo a produzisse. Tinha lá as suas razões, portanto. Mas ele imaginava, naquele tempo, o perigo que uma peça poderia causar na favela. Quem me dera! Não houve nada com a peça e nem o filme [homônimo, de 1985, direção de Ipojuca Pontes], que está agora nos cinemas, vai ter esse efeito. Quem me dera, porque a mim me revolta muito a situação das favelas.

O “Pedro Mico” original se passava no morro da Catacumba, que era bem aqui na Lagoa [Rodrigo de Freitas], e cuja favela foi completamente removida. Para quê? Para fazer colossais edifícios, postos de gasolina etc. Isso ilustra bem a minha tese de que as favelas no Rio são facilmente removíveis. O Harlem, não. Lá são ruas antigas, parece até um pedaço antigo do East End de Londres. É uma cidade dentro de Nova York. Mas quem vai acabar com a Rocinha agora? É muita gente, eles também não querem ir para o “caixa-pregos”, eles querem morar perto do trabalho deles. Já é gente com uma consciência não tão grande quanto a dos pretos do Harlem, mas que cresce o tempo todo. E aí, ao contrário do que acontece no Harlem, a diferença de vida do ponto de vista do dinheiro é muito chocante.

A origem da palavra “favela” vem da Guerra dos Canudos, a primeira manifestação violenta de luta de classes no Brasil. Era gente sem terra que resolveu brigar com o exército e derrotou três expedições até serem chacinados.

Além da situação da miséria se ampliando muito e começando a haver uma organização do jogo do bicho e do tráfico, você tem um dos elementos que infundem grande medo à população, que é a polícia. A polícia toma partido dentro das favelas. É um negócio tão perigoso que a própria polícia acaba [tornando-se] bandido lá dentro. Dá até para lembrar a frase imortal do Lúcio Flávio [Vilar Lyrio (1944–1975)]: “Eu sou bandido. E quero que bandido seja bandido e a polícia seja polícia”. Ele estava vendo que era impossível ser bandido, de um lado, e a polícia também ser bandida. É a concorrência mais desleal que pode haver. E no Rio a mistura da polícia com o banditismo é uma coisa pavorosa. Eles tomam partido, eles são parte daquela história.

O que a classe média do Rio tem medo é que de repente a Rocinha vire um fenômeno de tal ordem que você não tenha mais nenhuma garantia. Uma polícia como esta que está aí, sem formação, sem um treinamento adequado, não vai brigar pela gente de maneira nenhuma. Se as massas descerem o morro, nenhum favelado vai me perguntar se eu os achava simpáticos ou não: vão entrar aqui como entrariam em qualquer lugar. Esta aqui é uma casa, para eles, de tanto luxo como qualquer outra. Eles não têm nada. Então, há uma espécie de medo coletivo. Você tem razão quando diz que se exagera um pouco, mas se exagera porque quando acontece alguma coisa desse tipo no Rio, as pessoas não confiam na polícia. Assim, o exagero é razoável e justificável. Se a multidão, por hipótese, resolve partir para os paus e pedras, e se você sabe que a polícia apenas vai tomar partido e não tomar o partido da lei, como seria o caso desejável, aí você está diante de uma situação de dissolução que é muito a situação do Brasil em geral: medo não mais do pobre do Partido Comunista, coitado, que não mete mais medo a ninguém. É o confronto com o Partido da Miséria, que, convenhamos, é um partido respeitável.

Brasil, 1978–1987

Naquele tempo [setembro, 1978] eu dizia que [o Brasil] era um colégio interno que de vez em quando tinha uma hora de recreio. Tocava o sinal, todo mundo achava que estava ótimo, e, de repente, vinha outra lambada em cima da gente e novamente voltávamos ao estado autoritário. Nós estamos agora numa espécie de recreio total. A Comissão de Sistematização [do Congresso Constituinte], o Centrão… Esse rapaz de Alagoas, o Fernando Collor de Mello, está agora virando herói nacional. Eu estive lá um pouco antes da campanha [para o governo de Alagoas], a convite do jovem Teotônio Vilela [filho do ex-senador homônimo (1917–1983), “o menestrel das Alagoas”], e vi e ouvi falar o Collor de Mello. Eu estava lá com a minha mulher e disse: “Mas que demagogo!” Jovem, bonito, corajoso, esculhambando todo mundo. E eu nunca pensei que ele tivesse força de caráter como está demonstrando agora. Eu não sei qual é a dele, só o vi nos palanques. Mas ele está, no momento, dando uma lição de correção e decência a um país muito agachado, muito avacalhado. Eu não estou falando nem bem nem mal do Collor, a quem conheço muito pouco. Ele está criando uma força política devido à simples coragem de dizer que o rei está mais do que nu, de bunda de fora e fazendo besteira no meio da rua. Lembra de um famoso ensaio do Euclides da Cunha sobre o Floriano Peixoto? Ele dizia: “Não é o Floriano que subia, era o país que se agachava; não era Floriano que se adiantava, era o país inteiro que recuava”.

Eu acredito que num momento como esse, neste país, um líder com força e ímpeto possa fazer muito, para o bem e para o mal. No momento, eu acho que esse Collor está numa posição excelente, mas não sei qual é a dele: um político moço, de menos de 40 anos, que pode ter um grande e honroso futuro pela frente. Não conheço o passado dele. O que ele está fazendo neste momento é uma prova de inteligência e senso político. O país não pode estar mais esculhambado — então, qualquer pessoa que aja corretamente na vida pública tem audiência.

Eu estou com 70 anos e não me lembro de nenhuma situação em que o Brasil estivesse tão avacalhado, tão apequenado, tão minusculizado como agora. Acho o quadro político a maior tristeza. Mas, por outro lado, fico preocupado e me perguntando o que eu deixei de fazer para o país chegar a este ponto. É muito fácil botar a culpa no [então presidente José] Sarney, que é um politiquinho pobre-diabo e que de repente foi posto lá em cima sem saber das coisas e está fazendo um governozinho muito ruim. Isso é um momento, uma casualidade. Mas o que nós fizemos para o Brasil chegar a este ponto? Normalmente, Sarney teria assumido um país em transição democrática — uma vez que o poder militar começou a se afastar e finalmente cedeu terreno — com um mínimo de lideranças importantes. Você vê um presidente como o Ronald Reagan (1911–2004), que é um pobre-diabo também, mas que tem em torno dele uma força constitucional muito grande, com o Judiciário e o Legislativo aporrinhando ele — ou seja, é um país organizado. Assim, você bota um atorzinho de classe B no poder e ele não consegue destruir tudo aquilo, não. É aí onde eu quero chegar: todos os países realmente adiantados têm a responsabilidade que cada um assume. Um sujeito que elege um parlamentar em qualquer desses países fica em cima do político que elegeu, cobrando. O parlamentar sabe que se não cumprir o que prometeu, reeleito não vai ser. Alguém de nós escreve para um deputado? Eu também nunca escrevi. É preciso, portanto, criar um conceito — uma sensação, eu diria, uma coisa mais física — de cidadania neste país. A gente não tem nenhuma responsabilidade!

Perguntam-me coisas e eu me baseio um pouco no fato de que eu fui preso. Que importância tem isso? Só porque assumia certas atitudes que desfiavam os militares? Tudo bem, mas, e daí? Qual a sequência dos atos da gente? Poxa, eu estou morando neste país, posso ser um camarada informado, dou entrevistas e eu não tenho nada para contar?

Esta é a maneira de fazer política no Brasil, sobretudo nós, intelectuais, pessoas que, “soi-disant”, estão preocupadas com o país. Mas que tipo de preocupação é esta que leva a gente a nem querer saber o que o deputado que elegemos está fazendo? Como pode ser isso? Nós somos a população e eles são meia dúzia de gatos pingados que estão nos representando. Mas como eles podem nos representar se nós também não os fiscalizamos? É como se estivéssemos aqui de férias e querendo que o país seja bem governado.

Reconstruir o país

O grave é que não é para reconstruir. É para construir. Eu já tenho alguma cancha na vida nacional. Nasci na República Velha e me lembro da eleição do Artur Bernardes [1922] e seu governo sob estado de sítio, depois o Washington Luiz [1926] com o negócio de que a questão social era um caso de polícia, tudo numa república relativíssima, pois todo mundo sabia que as eleições se resolviam a bico de pena, isto é, os votos eram apurados da forma como os poderes constituídos queriam. É um pouco como no México de hoje [1987], que tem o Partido Revolucionário Institucional. Existe o receio de que a única saída possível para o Brasil seja a saída mexicana, que é a solução mais triste que pode haver na América Latina. O México é o futuro que parece aguardar o Brasil. Lá, trocou-se uma paz política por uma completa estagnação das verdadeiras liberdades populares. Um acordo de cavalheiros entre o exército e as classes dominantes — onde estão os cavalheiros, eu não sei.

Tenho a impressão que o Brasil vai passar por um banho de sangue. Não é possível que essa história continue tão vagabunda e tão sem pé nem cabeça como está até agora, e o povo passando fome. Ninguém quer a revolução: eu sei perfeitamente que se houver amanhã uma revolução de massa, eles entram aqui como entrarão na casa do Galdeano, meu vizinho. É a mesma coisa. Para eles é exatamente a mesma coisa o papel que eu desempenho. O que eu estou realmente fazendo por eles? Nada. Estou falando com você, falando, falando, falando, que é o que o intelectual mais faz no Brasil. Por outro lado, a Rocinha, por exemplo, não vai produzir um líder para governar o país, o que eu também não acho cabível. Então, seria o quê? Um período de anarquia mesmo, mas anarquia pra valer, o caminho da desordem.

Não temos Partido Comunista, não temos partido de esquerda organizado. Temos o PT do Lula, que é um partido respeitabilíssimo, mas o PT no Rio não existe, sobrevive vagamente misturado com o Partido Verde — é uma ficção como outra qualquer. Assim não há força, a sociedade civil brasileira não tem nenhuma organização. Então, não há nada a reconstruir, mas, de fato, a construir. Nós temos vivido até agora numa sociedade muito frouxa, onde os deveres existem apenas para os pobres, exatamente a classe que nós, as elites, mantemos bem desinstruídas, porque no dia em que eles descobrirem que elite vagabunda nós somos, aí eles tomam o poder no dia seguinte. E com toda a razão.

Congresso Constituinte

Eu acho o trabalho da Constituinte uma besteira. Eu sou a favor de uma ideia que vi mencionada pelo Raymundo Faoro (1925–2003), há muito tempo, e que foi crescendo dentro de mim. Se era para ter uma Assembleia Constituinte, não esse Congresso Constituinte que aí está, era muito melhor adotarmos a Constituição de 1946 — que não era tão ruim assim e era muito democrática — e aplicar nela duas modificações importantes: uma, a respeito do acesso à propriedade da terra — coisa que até o Estatuto da Terra, do governo Castelo Branco, como lei era muito bom, muito melhor do que a Comissão de Sistematização apresentou. Esta modificação é necessária porque a Constituição de 1946 diz que toda a desapropriação será indenizada previamente e em dinheiro. Assim, não há reforma agrária possível. Outra alteração é reiterar o fato de que o presidente da República é o chefe supremo das forças armadas, mas era preciso insistir nisso de maneira a colocar as forças armadas lá no fundo do palco e parar com essa brincadeira de sabre e cavalo no meio de uma sociedade organizada [referência ao episódio ocorrido em abril de 1984, em Brasília, quando o então comandante militar do Planalto, general Newton Cruz, investiu, a cavalo, contra manifestantes que defendiam a aprovação da emenda constitucional que restabelecia eleições diretas para a Presidência da República]. Acabar com essa mania de os militares darem palpites sobre o governo, coisa que continuam a fazer do mesmo jeito que antes. Um país civilizado não pode ficar ouvindo as classes militares berrando o tempo todo. Isso é ridículo.

Eu sempre volto ao tema da miséria. Eu não sei por que o brasileiro tem tanta paciência. O brasileiro a que estou me referindo não sou eu nem você. Nós comemos três vezes por dia, estamos muito bem alimentadinhos. Refiro-me a esse pessoal que está realmente aguentando o tranco. Por que aguenta? Não sei. É um mistério. Massacrar 100 milhões de habitantes também não dá. São 30 milhões que estão de bem com a vida e são 100 milhões roendo a beira do penico. Não há uma chacina de 100 milhões. Por que essa gente não se revolta, eu não sei. É uma pergunta que me faço sempre. [A população brasileira em 1987 era de 141,4 milhões de habitantes, de acordo com o IBGE.]

Conformismo?

Não. É medo. A polícia é bruta, o exército é bruto. Nós estamos numa faixa da classe média em que, em geral, se é protegido. Mas garantia você não tem. O Rubens Paiva (1929–1971), que morava aqui pertinho de mim, na [Avenida] Delfim Moreira, entrou na prisão e horas depois estava morto. O [Vladimir] Herzog (1937–1975) em São Paulo, também.

Reações violentas

Eu espero que seja. Em 1964, eu esperava que houvesse uma reação no Nordeste. Eu havia estado lá entrevistando o Gregório Bezerra (1900–1983) e o pessoal do Partido Comunista, que naquele tempo tinha muito mais força do que hoje, nem se compara. Eu tinha a impressão de que alguns daqueles grupos estavam mais bem preparados, mas não estavam. Era uma coisa de pregação; eles não tinham armas. E não se faz uma revolução sem armas.

Parlamentarismo e presidencialismo

Eu respeito as duas posições. Mas, aqui entre nós, eu acho uma questão de somenos, uma questiúncula. O importante é que o país adote um regime de governo e fique com ele, porque se a nação habituar-se com aquilo, ela própria saberá modular o sistema. Eu digo isso porque os ingleses estão cansados de saber que em certas eleições, devido ao voto distrital, você chega a uma constatação estapafúrdia no sentido de que a votação maior foi a do Partido Trabalhista, mas o Partido Conservador ganha mais cadeiras no Parlamento. Eles sabem disso, o eleitor sabe disso. O sujeito vota e sabe que vai dar uma carga maior de votos para determinado candidato. Ele está dentro de um sistema que está com ele há trezentos anos, ele sabe que está num jogo com regras.

Eu passo por ser um sujeito razoavelmente informado sobre o Brasil, e às vezes fico com vergonha quando converso com um estrangeiro. Perguntam-me um detalhe qualquer sobre legislação eleitoral e eu não sei. Muda o tempo todo, como é que eu vou saber? O fato de haver uma regra inflexível torna o jogo mais interessante.

Eu ficaria presidencialista, ficaria com a Constituição de 1946. Falando assim parece que eu sou um conservador. Mas não é, não. É para que tenhamos uma bússola na mão, uma ideia de para onde se está indo. E o importante é a consciência moral do cidadão, sobretudo porque a democracia é, antes de tudo, o exercício da responsabilidade pessoal. É claro que haverá sempre sacanas e escrotos: isso está no programa da humanidade.

O que vem pela frente

Nenhuma esperança imediata no futuro do país. Nenhuma, nenhuma, nenhuma. Depende dos jovens. Se eles não adquirirem esse senso de responsabilidade de que estou falando, não adianta fazerem nada do ponto de vista da coragem pessoal. Isto é muito bonito, mas não adianta nada. O importante é a consciência de cada um de que a lei tem que ser obedecida, que não é justo que alguém morra de fome — essas coisas que parecem banalidades, mas que são as únicas que podem transformar um país como o Brasil.

Eu não sairia do Brasil de jeito nenhum. Mas depois de todos esses anos, cada vez me volto mais para a impressão de que eu deixei de fazer muita coisa para modificar esse panorama. A ideia de que eu sou um escritor, de que fui jornalista em um certo tipo de jornal, não importa. Importa que num país como o Brasil é indispensável que o sujeito se ocupe profundamente do que está ocorrendo no terreno político, do contrário nós não vamos modificar isso. E na minha vida eu não tenho esperança de ver nenhuma grande novidade. Não tenho mesmo.

O jornal e o jornalista

Eu nunca fui muito apaixonado pelo trabalho em jornal. Eu gostava muito, no meu tempo, era de escrever. Eu queria muito escrever romances, escrever para teatro. O jornalismo para mim foi sempre uma profissão. Por outra, eu me vali muito do jornalismo para fazer coisas que eu queria, do ponto de vista literário. Eu passei anos no exterior, principalmente na Inglaterra, durante a Segunda Guerra, e quando voltei queria conhecer muito bem o país, o Xingu, o Amazonas, o Brasil de fato. Para isso eu me servi muito do jornal, não no sentido aviltante: eu estava fazendo reportagens, estava fazendo coisas que interessavam ao jornal. Mas era muito a minha escolha, uma vez que [conquistei] dentro do jornal um certo prestígio pessoal e comecei a encaminhar a minha própria vida. E isso ocorreu quando retornei da Inglaterra, em 1947, quando voltei ao “Correio da Manhã”, e em 1968, quando fui ao Vietnam pelo “Jornal do Brasil”, que foi por uma sugestão minha. Eu achava que ir ao Vietnam do Norte era indispensável para um jornal importante que estava se baseando apenas em fontes americanas de informação que estavam no Vietnam do Sul, e que controlavam facilmente a atenção do leitor daqui. Então eu falei para o [publisher Manoel Francisco do Nascimento] Brito (1922–2003), que topou na hora. “Que jeito você vai dar para ir?” Me custou uma loucura ir ao Vietnam do Norte: fui duas vezes à Europa para arranjar o visto; dez meses depois, eu consegui. É claro que é compreensível, porque o povo vivia em luta contra uma superpotência disposta a arrasar o país inteiro. Imagine receberem um cidadão de um país aliado dos americanos, por direito de conquista dos Estados Unidos, submisso e tudo mais? E de um jornal pró-americano, como o “Jornal do Brasil”? Imagine o que eles não ouviram a meu respeito… Mas acabaram se convencendo de que eu queria ir lá porque tinha simpatia pela luta deles.

A reportagem saiu assim, a fórceps. Primeiro fui a Paris, depois andei o mundo inteiro numa viagem extensíssima da Air France para ir até ao Camboja e lá tomar um Constellation, única ligação de Hanói com o resto do mundo. Saía duas vezes por semana de Phnom Penh para Hanói e havia um acordo de guerra para ninguém atirar naquele avião. O [jornalista] Luís Edgar de Andrade estava na [revista] “Manchete” nesse tempo. Nos encontramos em Phnom Penh e tomamos vários drinques lá. Ele estava como um trovador apaixonado pelo Vietnam do Norte, mas tinha estado em Saigon. Ele também estava ali tentando chegar a Hanói e me pedia até que eu defendesse a causa dele. Eu falei com o pessoal, mas os vietnamitas [do norte] não deixaram. Era complicado.

O tal Constellation era uma batalha. Na última hora havia uns soldados lá, indo não sei para onde, e um deles tinha tomado o meu lugar. Tivemos uma discussão e eu fui defendido pela aeromoça, que se chamava Genneviève. Ela chegou para o soldado e disse: “Que bilhete é esse? É para a viagem de amanhã!” O outro retrucou que era “um soldado”, mas ela não deixou e empurrou o sujeito para fora do avião. Era uma coisa difícil.

Eu nunca quis ter jornal na minha vida. Era apenas um meio de ganhar a vida e de ver muita coisa que poderia me servir em tempos de mais meditação e tranquilidade para fazer meus livros, escrever meus ensaios. Fui redator-chefe do “Correio da Manhã” depois da morte do [antecessor Pedro da] Costa Rego (1889–1954), que de certa forma me encaminhou para o jornal. Procurei fazer sempre o melhor que sabia, mas não era uma coisa de paixão, não.

O tempo de editorialista do “Jornal do Brasil” é uma época de que eu guardo uma recordação muito boa. Lá eu virei o que um dos companheiros de editorial, o Wilson Figueiredo, definiu certa vez: eu era o que ele chamava de “redator ecológico”. O jornal não me pedia artigos políticos. Sentiram que minha posição era diferente, e nisso eles eram perfeitos. Eu fui muito cortesmente tratado pelo “JB”.

Aos livros

Eu estou fazendo outro romance, cinco anos depois do “Concerto Carioca” [trabalhava na ocasião em “Memórias de Aldenham House”, seu último livro, lançado em 1989]. Pela primeira vez estou usando memórias de guerra — que eu nunca tinha usado –, dos tempos em que trabalhei na BBC, para colocar num romance. Na BBC eu fazia umas palestrinhas e isso sempre serve de referência. [Também as] cartas que eu mandei de lá. Mas isso não é tão importante, apenas ajuda a fixar certos momentos. O importante é a lembrança minha, pessoal, do trabalho durante a guerra. É interessante, muito estranho e curioso. Não entro muito em detalhes porque livro que estou fazendo me deixa meio reservado.

Princípio, meio ou fim?

Eu tinha a impressão que estava no fim, inclusive ia entregar os originais uns dois meses atrás. Mas aí me deu uma série de dúvidas e recomecei a primeira parte. Enfim, está meio enroladinho.

[Meu trabalho] é um ato prazeroso. Desde que me aposentei de jornal, em 1975, passei a me dedicar à literatura praticamente “full time”. Aí, abandonei a máquina [de escrever]. Só a uso para passar a limpo, mas para escrever eu escrevo tudo à mão. É a arte mais barata do mundo: um caderno e uma esferográfica, uma coisa de extrema singeleza. Nunca mais sentei à máquina para escrever livro. Foi uma alteração artesanal no trabalho. Escrevo sempre na página da direita do caderno e a esquerda fica para as emendas. Nessa fase eu emendo bastante. Quando bato à máquina eu já deixo o texto mais limpo.

Ritmo de trabalho

Trabalho todas as manhãs. Eu levanto relativamente cedo, às 7 ou 7 e pouco, em geral trabalho, depois dou uma volta na praia, almoço, dou uma descansada e à tarde trabalho mais um pouco. De noite durmo cedo e hoje em dia saio pouco. Não sou recluso, mas de modo geral saio pouco. O tempo tem que render.

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(*) Luiz Egypto é jornalista, mestre em História e pós-graduado em Direção Editorial. Foi professor do Curso de Jornalismo da PUC-SP (1979–2006) e redator-chefe do “Observatório da Imprensa online” (1999–2015). Trabalhou nos jornais “Versus”, “Folha de S.Paulo”, “Estado de S.Paulo” e na revista “Imprensa”