“Mãe, eu quero um diário.”

Dani Ribeiro
Jul 22, 2017 · 2 min read

Se tem coisa que eu amo fazer na vida é ir à papelaria. Decidida em renovar os meus estoques de canetas, borrachas, lápis e caderno para o próximo semestre da faculdade, me deparei com uma cena ótima. Uma garotinha, com mais ou menos 8 anos, vira para a mãe e diz:

“Mãe, eu quero um diário. Daqueles de cadeado para eu colocar todos os meus segredos.”

Foi uma cena normal para a maioria dos mortais. Exceto para a Dani. Eu fui longe. Voltei cerca de 20 anos na vida e fui pensar nos segredos que eu tinha aos 8 anos de idade. Eu gostava do Augustinho, mas, se alguém soubesse disso, ia ser realmente um problema muito grande. Afinal, eu sonhava, como a princesa da Disney que era, que muito em breve ele viria me beijar e andar de mãos dadas comigo no recreio.

Entende porque o diário da mocinha tem que ter chave e cadeado? Porque a gente desde pequena tem desejos secretos e fantasias infantis românticas que são super desprezadas. Penso comigo que se alguém achasse o meu diário de quando eu tinha essa idade, iria morrer de rir dos meus “segredos inconfessáveis”. Teve anotação da primeira menstruação, do primeiro fora homérico, dos micos que eu pagava na escola e uma lista de todo mundo que fazia bullying contra mim: a listinha do ÓDIO.

E é interessante perceber que, depois que a gente se encontra com essas pessoas hoje em dia (as que faziam bullying), elas se tornaram pessoas normais como eu agora. Preocupadas com o futuro, com um possível casamento, com filhos, com emprego e com os vários boletos pra pagar. Só mesmo podendo viajar um pouco na fala da menininha para me desconectar do cotidiano cinzento de uma pagadora-de-contas. E como é legal entender o quanto a gente tá cheio de segredo que merece ser preservado, né?

Nessa era de máxima exposição digital, é muito bacana também, ter o nosso cantinho de anotações ou espaços que funcionem como o nosso despejo particular de sensações.

De coração, tomara que a mãe consiga entender o apelo da filha e comprar para ela um diário de chavinha. Achei esse pedido bastante inusitado para uma geração imersa no digital e no tanto de telas que a gente tem. Que essa menina consiga sim, ter seus segredos escritos preservados e reservados a quem mais importa no mundo e desde pequena ela aprenda o quanto a arte de escrever pode nos salvar de nós mesmos todos os dias.

    Dani Ribeiro

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    antropóloga no boteco e tchutchuca no bistrô. Fã de arte, de cultura e da trivialidade da vida | danielesouzarp@gmail.com

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