Na barbearia

— Pedro, faz cerca de quinze anos que eu venho aqui em sua barbearia. Mas, somente hoje me ocorreu um pensamento, no mínimo controverso. Parei para pensar no quanto eu confio em você, porque, olha só, você tem uma navalha no meu pescoço.
Eeeer, veja bem, senhor Jorge. Por acaso o sr. achou que eu pudesse fazer algo com isso? Eu poderia ser preso.
— Se você não fosse preso, passaria a navalha em meu pescoço, Pedro?
Sr. Jorge, é melhor ficar quieto. Estou me desconcentrando. Qualquer desvio aqui pode lhe custar um corte no rosto.
— Ok, Pedro. Pode deixar que vou ficar quieto. Mas, olha só.. A confiança que eu tenho em você, que tem uma navalha no meu pescoço, parece um pouco com a confiança que tenho quando entrego meu coração de bandeja a uma nova paixão.
Perai, Sr. Jorge. O sr. tá esquisito hoje. Tá me estranhando?
— Não é isso, Pedro. Pensa comigo.
Pedro para de barbear Jorge e o escuta atentamente.
Toda vez que me apaixono por alguém, a pessoa tem uma navalha em mãos. Entrego meu coração, mostro a ela as minhas fraquezas e relaxo para curtir o momento gostoso que é estar junto de quem se gosta. Assim como a navalha pode deixar o meu rosto ainda mais bonito e com uma barba incrível, ela pode me cortar ou até me matar. Enquanto isso, a gente curte a toalha quente, a massagem, o cuidado. Tem quinze anos que eu venho aqui, temos praticamente um caso de amor, se formos parar para pensar, olha só que engraçado! hahaha Por isso, prudente que sou, só venho aqui, pois eu sei que o tempo aumenta a confiança que eu tenho em você e que você jamais faria algo do tipo comigo. Enquanto tem uns e outros aí que trocam de barbeiro frequentemente, entregando seu pescoço às mãos e navalhas alheias. Como eles são tolos!
Jorge se joga na cadeira novamente e relaxa. Após escutar tudo com atenção, Pedro retruca mordazmente:
Sr. Jorge, a navalha é a mesma. O tempo não faz a menor diferença. Eu diria que até faz sim, eu saberia a melhor forma de dar um corte muito mais profundo em você. Enquanto um novo barbeiro não faria isso pela inexperiência de saber aonde te machucaria.
Jorge se levanta abruptamente.
— Mas, você seria capaz disso, Pedro?
Sim, se você não calar essa boca e não me deixar te barbear, eu posso fazer algo até pior. Agora fica quieto!
