Além da Prateleira

“I Saw Her in the Library” print by The Black Apple

Um frio na barriga, um aperto no peito. Sensações familiares, que há muito não sentia. Não sabia explicar de onde vinham. No entanto, sabia o que significavam.

Nunca compreendeu totalmente como seu cérebro poderia enviar reações ao seu corpo sobre algo que nenhum dos seus cinco sentidos havia captado. Era um dos motivos que a levava a acreditar que o mundo era mais do que matéria e átomos. Mais do que carne e ossos e sangue.

Aquele instante: inesperado, estranho. Se pergunta como conseguiu lidar com isso diariamente, durante anos. Décadas atrás.

Rearrumou o cabelo num rabo de cavalo, respirou fundo. Com medo, olhou ao redor do ambiente. Era medo da decepção, de ter sido enganada pelos próprios sentimentos ou ansiedade pelo que estava por vir? Não sabia dizer.

O coração disparou. Enxugou a mão suada na calça jeans. Seu olhar encontrou o dele. Desviou-o rapidamente.

Suas mãos trêmulas quase derrubaram o livro que segurava: Nora Roberts. Não gostava, nunca comprava, mas sentia um estranho prazer no hábito de sentar no chão da livraria e ler parágrafos aleatórios. Qualquer livraria, em qualquer cidade. Sempre Nora Roberts. Sempre parágrafos que mostravam a interação do casal protagonista. Dizia a si própria que o fazia para entender que no mundo havia espaço para todo tipo de escrita — ruim, piegas, cliché.

Entretanto, parte de seu coração admitia que naquelas tramas açucaradas encontrava romances que não procurava — mulheres que não reconhecia em si própria, homens que não desejava — e isso lhe permitia sonhar que, talvez, um dia, finalmente parasse de encarar envolvimentos amorosos como a parte mais importante de sua existência.

Sentiu o rosto esquentar. Vergonha. Rapidamente colocou o livro na prateleira.

Pensou nele, no rapaz. Recriou em sua mente a imagem que havia visto há poucos segundos. Não teria coragem de olhar de novo. Dez anos… e ainda assim, a sensação que percorreu seu corpo era a mesma. Não havia motivos para isso agora, nunca houve, na realidade.

Sentiu tristeza. Raiva, até. Nunca se permitiu falar, nunca se permitiu tentar. Mais uma vez seguia o mesmo caminho.

Correu a ponta dos dedos sobre a espinha do livro, distraidamente. Letras garrafais: Nora Roberts — Medo do Amor. Notou que o dedo indicador circulava a palavra amor. Suspirou. Colocou as mãos nos bolsos — ambas fechadas, cerradas. Pedras. Respirou fundo, aceitou que a vida era assim. Não havia nada a ser feito.

Tentou reconstruir a imagem mais uma vez… olhos castanhos, suaves, gentis. Uma mão percorrendo os cabelos — também castanhos, clareados um pouco pelo sol. Buscou mais detalhes em sua mente, achou peças no passado: uma sensação de calma. Um olhar acalentador. Sorvete de baunilha na casquinha, olhar perdido no horizonte.

Uma vez, uma pergunta, nunca respondida. Uma questão que não mudaria nada, sobre horas e minutos: Tempo. Ainda hoje se sente culpada por ter ficado paralisada, deixando o objeto da pergunta vencer, imobilizando sua fala. Ele não esperou e se foi. Aquele dia e muitas outras vezes.

Tentava terminar o quebra cabeça. Faltavam peças. Imagens equivocadas surgiam — outro sorriso, outras mãos, outro sotaque. Dor. Essa forte, remoída. Não a dor da angústia do amor idealizado, platônico, vivido em sua mente, mas a dor contundente e aguda dos rejeitados. A ferida cicatrizada que às vezes queima no simples tocar.

Precisava olhar de novo, precisava esquecer a dor. Precisava lembrar-se da inocência perdida daqueles dias, quando era suficiente amar sozinho.

O medo lhe paralisava. Sentia-se feia. Descabelada. Gorda. Mal vestida. Quem olharia para uma pessoa assim? Quem seria capaz de ama-la?

O aperto no peito foi afrouxando. Não havia mais frio na barriga. Também sabia o que isso significava. Por muitas vezes havia confundido com calma. A tranquilidade das decisões tomadas, da aceitação, da maturidade. A paz proveniente da superação dos desafios.

Aprendera com o Tempo, no entanto, que também existe calma ao fugir de uma batalha, ao abrir mão de um desejo. A tranquilidade de não precisar tomar mais decisões, também da aceitação, de entender que a vida passa. A paz proveniente da inércia.

Olhou ao seu redor desesperada. Não o encontrou.