O que aconteceu, Senhorita Simone?

Hoje Nina Simone faria 84 anos e sinto a obrigação moral de recomendar para quem não à conhece o documentário What Happened, Miss Simone?, disponível no Netflix. É um documentário cuidadosamente reconstruído pela diretora Liz Garbus, que conta parte da personalidade conturbada de uma das mulheres negras mais incríveis que pisaram nessa Terra, boa parte contada por familiares de Nina (através de cartas e imagens inéditas). 
Considerada ícone do movimento negro dos EUA, esteve defronte a luta contra o apartheid e junto a outros homens e mulheres negras viu a queda de um sistema segregacionista institucionalizado. Considerada um talento precoce (desde os 3 anos de idade) e inegável no piano, teve seu primeiro contato com o racismo aos 12 anos, quando teve seu acesso negado no Curtis Institute of Music, na Filadélfia, onde pretendia se aprofundar no instrumento. Desde então, Nina foi forçada a tocar e cantar em bares para sobreviver, foi onde nasceu seu estilo fidedigno que mistura Jazz, blues, soul… ah, quanto soul, quanta alma carrega cada tom. Ela tinha seus próprios demônios, casou-se com o ex-policial Andrew Stroud (que tornou-se seu empresário) a quem dedicou uma vida e recebeu espancamentos constantes e rejeição como pagamento. 
“A raiva era o que movia a minha mãe”, admite Lisa Simone no filme, após explosão de uma igreja no Alabama, por grupos racistas, que matou quatro estudantes negras, Nina aprofundou-se na militância política, compões a música Mississipi Goddam que foi boicotada no sul do país. Deixando de lado o apelo comercial de sua carreira, livra-se do encosto que acompanhava sua vida: Stoud. Ali nascia para o mundo a verdadeira Nina Simone. 
Nina foi considerada uma mulher negra raivosa, e porque não ostentar um título tão incrível? Em uma de suas apresentações, julgada como irada por muitos, indagou a plateia predominantemente negra: “Vocês estão prontos para queimarem uns prédios?”. Após exilio, volta aos EUA falida, assume transtorno bipolar e volta aos palcos doando sua alma até a morte em 2003. 
Sabe, consigo imaginar essa mulher viva e cantando em protesto a cada Policial de Baton Rouge nos EUA e a cada 111 tiros no Brasil. Sua música é atemporal, como dói dizer o quanto ainda faz sentido, o quanto ainda se faz necessário tirar forças e seguir lutando. 
Gosto de acreditar que finalmente encontrou um lugar seguro para chorar e hoje, não mais sozinha, pode voar. Sou grata e meu sonho é ser 0,5% do que você foi, meu grande e belo BlackBird.

* Mississipi Goddam: 
Senhor, tem piedade nesta minha terra / Nós todos vamos buscá-la no momento certo / Eu não pertenço aqui / Eu não pertenço lá / Eu parei até de acreditar em oração
https://www.youtube.com/watch?v=LJ25-U3jNWM

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