O Brasil é um grande depósito humano

Texto originalmente publicado na página 30DiasPorRafaelBraga (jun.2017)

O número de pessoas em situação de rua aumentou em todo Brasil, no Rio de Janeiro a população triplicou nos últimos três anos e esse é um fato que se dá por diversos motivos, inclusive pela pobreza. Pobreza essa que impossibilitava que Rafael Braga voltasse todos os dias para a casa de sua de sua mãe Adriana, na Vila Cruzeiro — RJ, onde ela vivia com os seus sete irmãos.

Os dados divulgados pela Prefeitura do Rio de Janeiro revelaram que 14.279 pessoas vivem nas ruas, atualmente. É quase o triplo dos dados do Censo (2013), que divulgou 5.580 registradas na época. Esse crescimento tem uma relação direta com a crise econômica do estado, motivada pelo desemprego.

Ao mesmo tempo, faltam vagas em abrigos. A prefeitura do Rio de Janeiro tem 38 abrigos próprios, 22 conveniados e dois Hotéis Acolhedores. São 2.177 vagas pra população total, de mais de 14 mil pessoas, são seis moradores de rua para cada leito disponível. Os abrigos são tão bons que são apelidados de “depósito humano”.

A Secretária de Desenvolvimento Social (SMDS) do Rio de Janeiro realizou o “Censo da População de Rua 2013”, o perfil traçado na época apontou que características como: baixa escolaridade, capacidade produtiva comprometida e origem domiciliar variada. Na época a prefeitura declarou que criariam mais 2.100 vagas em abrigos, até 2016, uma promessa não cumprida até hoje.

Aos 25 anos, enquanto aconteciam os protestos, Rafael observava sem compreender as reivindicações, dormia em um casarão abandonado na cidade “maravilhosa”. Jovem negro, que até junho de 2013, trabalhava como catador de materiais recicláveis. Não tinha condições para voltar para Vila Cruzeiro todos os dias, desde os 13 anos dividia sua rotina entre o centro urbano e o barraco de sua mãe. O pouco estudo comprometeu sua capacidade produtiva, além de passagens penitenciárias anteriores por pequenos furtos, crime comum entre pessoas em situação de rua.

Uma pessoa nessas condições está em risco, é vulnerável e suscetível a todos os perigos e situações sub-humanas, inclusive violência policial. Esses dados deveriam servir para dar visibilidade à população de rua, contudo, continuam sendo negligenciadas e expostas a riscos. Rafael Braga passou boa parte de sua vida vivendo nessas condições, sem endereço postal. Hoje segue sem sua dignidade.

Like what you read? Give Leila Evelyn a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.