MADONNA: VERDADES & CONSEQUÊNCIAS

Redescobri o impacto do documentário "Truth Or Dare" ou "Na Cama com Madonna", ontem, quando o canal Bis reprisou o filme em homenagem ao aniversário de 57 anos da grande figura. Fazia alguns anos que eu não via o complexo jogo de verdade ou consequência da popstar solitária e obstinada que ousou inventar-se fora dos cânones da indústria cultural para, depois, ser emoldurada espetacularmente por eles. “Truth or Dare” joga verdade ou consequência com o público, com a crítica e com a própria indústria. E no fim das contas, os bastidores da turnê “Loura Ambiciosa” revelam, mesmo, é o jogo de Madonna consigo mesma. Em 1991, on the top of her game, como dizem os americanos nortistas, Madonna Louise Veronica era a encarnação audiovisual da tríplice aliança formada por SEXO (auto-expressão), AMOR (redenção) e POLÍTICA (liberdade).

Quando revi a cena da chupada na garrafa, que rola durante o verdade ou consequência metalinguístico, entendi por que essa ficou gravada em HD na minha cabeça. Madonna tinha me encorajado a tratar o falo sem qualquer mistificação e a encará-lo abertamente. Nesta passagem, vejam bem, todos os trocadilhos são intencionais e sem más intenções. Madonna representaria para mim e para uma geração a mulher que FALAVA e que metia a boca no trombone, na garrafa, no mamilo, no pênis. A oralidade estava a salvo em Madonna enquanto umas meninas me zoavam no colégio com o apelido "neuroboca". Era porque eu falava demais, mas algum tempo depois, o sexo oral também viria a ser uma preferência. Elas não sabiam o que estavam perdendo.

chupa, madonna

Mas havia muito mais que chupação de regra em "Truth or Dare", e hoje, longe do delírio adolescente transgressor, pude perceber, nele, as matizes sutis do desmonte de um modelo de star system, de um modelo de mulher e de um século inteiro.

"Eu sei que não sou a melhor cantora e eu sei que não sou a melhor dançarina, mas não estou interessada em nada disso. Estou interessada em meter o dedo na ferida das pessoas, em ser provocadora e política". Essa é a declaração-mestra do filme, pensamento-síntese de um tempo na história em que a capacidade de entreter uma audiência estava mais no "por que" do que no "como". A Máquina estava sendo engordada pela própria Madonna, e ela, certamente, estava fincando um novo padrão de excelência na indústria cultural como quem finca uma bandeira num território, mas isso não queria dizer que ela precisava fazer a vencedora de concurso de talentos como tantas estrelas da música pop, hoje. Madonna era a melhor em ser Madonna. Madonna precede a paranoia da cartilha e, sem querer, inventa-a. “Nós queremos ser aceitos por Hollywood?”, pergunta a provocadora. Sua trupe responde: “Não!” “Nós ligamos para o que as pessoas pensam de nós?” “Não!” “Nós queremos que as pessoas nos adorem?” “Sim!" O que importava era fazer a diferença para um público ávido por ver suas verdades espelhadas — e agigantadas — num megapalco pop. E mais nada.

E é assim que Madonna vinga as atrizes da era de ouro de Hollywood do pico de um futuro que nasce distópico nos anos 1990: assumindo o controle sobre sua carreira e sua vida. Ela não é vítima. Não terá o destino trágico de Marylin, morta como uma peça menor numa trama de sexo e poder. Em vez disso, afirmará sua linguagem Erotica, num elogio despudorado aos trâmites carnais do romance e da bacanal, na sequência natural da louritude ambiciosa, que é o duo Erotica (o álbum) e Sex (o livro). Muito longe de morrer pela ingenuidade feminina, pelas mãos e cocks de homens predadores, Madonna conseguirá envelhecer e fazer de seu envelhecimento um símbolo do comando sobre a própria existência.

Em “Truth Or Dare” fica claro como ela é, simultaneamente, a fantasia e a desilusão. Madonna é, naquele documentário, o próprio fim do século 20, astutamente fotografado em preto e branco. O p&b é um truque eficaz que, tanto dá adeus aos eufóricos anos 1980 e sua profusão de cores, quanto coloca Madonna dentro de uma paródia da Hollywood divesca anos 1950, como uma per-versão musculosa das frágeis heroínas depostas de seus tronos.

a morte da heroína romântica em sua aurora anabolizada

Mas nem tudo é músculo. Madonna, nos bastidores, é tão vulnerável quanto qualquer artista menos rico e adulado por menos gente. O documentário funciona como testemunho de um mundo ainda mais centralizador do que é agora, com o cult of personality levado às últimas consequências da histeria — histeria que não é mais dedicada a quatro rapazes inteligentes, românticos e irônicos mas a uma mulher — assim como de um mundo particular, criado à base de disciplina anglo-titânica e fervorosa fé latina (horas tantas, Madonna solta uma das melhores: "eu só me permito duvidar do que estou fazendo por um segundo porque se eu pensar muito nisso, como vou fazer estas coisas todas?" e ainda indaga às backing vocals, "aposto que vocês pensam 'quem aquela vadia acha que é pra fazer isso'?'"). Mas, esse mundo particular também é tratado como sintoma de incompreensão, megalomania e solidão. É o preço de estar no controle.

“Truth Or Dare” assume status breakthrough ao capturar uma superstar da engrenagem capitalista norte-americana despida em sua vulnerabilidade, com sua carência e ineficiência emocional em se relacionar contrastando com a profissional obsessiva. A carne está crua nos bastidores, sem artifícios e artefatos projetados por grandes estilistas. As tomadas do ponto de vista daquela magra e pequena criatura diante de milhares de rostos anônimos ensandecidos são um raro testemunho de como pesa a responsabilidade de performar e servir de modelo para tanta gente. Irônico ao prestar atenção nessas cenas é pensar que este documentário também é o enterro dos ossos de uma geração que precisava de heróis muito grandes. A geração millenial sabe que nunca mais haverá uma Madonna, as gerações X e Y não se conformam. O mundo mudou. Calou as vozes uniformizadoras. Isso também é uma conquista um tanto de Madonna, que contribuiu para criar uma geração de homens e mulheres que se expressam livremente. Depois dela, muito mais mulheres puderam ir lá e fazer o seu. As questões da heroína-santa-mãe-puta viram a luz do dia enquanto os homens gays foram colocados no mapa social. E, de novo, na senda do contraste, o episódio do malfadado encontro com Antonio Banderas, com quem queria ter um affair e descobrira que era (bem) casado, serve como parábola do "acontece com todo mundo", esfregando nas nossas caras adoradoras de fábulas, mitos e contos de fadas que não há glória e Chanel que salvem qualquer mulher, ainda que ela seja a encarnação mais perfeita do american dream, do fracasso amoroso.

E na Roda da Fortuna dos erros e acertos, fracassos e êxitos, e na trincheira do debate sobre sexo e sexualidade, em grande parte impulsionado pela epidemia da AIDS, Madonna é a mulher usando peitos fálicos, que se masturba na versão dramática, quase apocalíptica de "Like a Virgin". Em uma década, acabou a virgindade. Todos sabiam as consequências dos seus jogos e muitos queriam lidar com elas, aprender com elas. “Truth Or Dare” converte-se, então, numa canção da permissividade responsável. Shows são proibidos na Itália e a Joana D'Arc masturbatória não vai parar. Ela lê seu manifesto sobre a importância de documentar modos de vida fora do controle das instituições sagradas, mostrando que é possível para a mulher que ela busque mais que segurança e conforto no seio, por tantas vezes mutilado, do lar. É possível ter aventura, sucesso, independência, prazer. "You deserve the best in life", ela canta numa das músicas-símbolo da turnê, "Express Yourself", um libelo para afugentar machos utilitaristas viciados em joguinhos e indispostos para a verdade.

Concluo o processo de revisão das verdades e consequências da persona Madonna, pensando sobre o título que me incomodava quando era uma pré-adolescente e ainda me incomoda, de certa forma. É que aquele complexo jogo de cena tinha sido reduzido a uma entrevista-na-cama-com-cantora-polêmica. Que fosse como na canção, "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda", uma tríplice aliança: na cama, no palco e na vida com Madonna. Logo, a Wikipedia ensina que Madonna sempre achou "In bed with…" um nomezinho estúpido. O título real seria “Truth or Dare: On the Road, Behind the Scenes and In Bed with Madonna”. Menos filosófico que a minha sugestão mas bem mais inteligente que o original, ideia de jerico da distribuidora Miramax. “Truth or Dare" só mesmo nos EUA. Enfim, a terça-parte mais barulhenta tinha vencido e a cama rangente trepidante de Madonna enganava que aquela pequena figura de alta voltagem libertária e sob desmedida para o mise-en-scène do mundo no finzinho do século 20 não passava de uma putinha, uma promíscua, uma messalina. Mas pensando bem, até que encarnar esse papel, naquele momento, não era pouca coisa. Agora, quais mulheres poderão assenhorar-se, com algum assanhamento, do próximo passo?

L.A. 17_AGO_2015.