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Narcisos

Somos uma geração de narcisistas, palhaços no picadeiro que choram nos bastidores?

Para o jornal HoraH

Narciso, filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope, nasceu na Boécia. Ao chegar ao mundo, já exuberante, o oráculo de Tirésias declarou que seria dotado de extrema beleza, com uma longa vida. Porém, não poderia admirar a perfeição de seu rosto, ou seria amaldiçoado.

Mas, como todos nós, deuses mitológicos e homens, gostamos do proibido…

Bem, o fato é que Narciso desenvolveu uma beleza ímpar, refulgente, que despertava olhares de homens e mulheres. Por outro lado, o rapaz se tornou orgulhoso e arrogante, envaidecido por sua aparência (lembra a história de Lúcifer, o mais belo que se cegou de orgulho e arrogância e caiu dos mais altos Céus?). Então, em vez de se apaixonar por outros, Narciso decidiu admirar sua imagem refletida em um lago, acabando por se apaixonar por si mesmo. A belíssima ninfa Eco ficou enamoradíssima pelo moço (veja bem, de seu nome deriva a palavra “eco”, algo que vai e volta, rebate, não avança). Mas Narciso apenas se apaixonara por si mesmo. Estava cego de paixão, não via mais nada nem ninguém, embora quisesse que o admirassem, até mesmo que o desejassem sem o poder ter, visto que apenas ele o teria, e esse era um triunfo.

Então, conforme o oráculo, caiu-lhe a maldição: tendo menosprezado o amor verdadeiro de Eco, ela lançou um feitiço sobre o prepotente Narciso: ele definharia no leito do rio até morrer… Assim foi e, quando feneceu, tornou-se uma flor que levou seu nome. Essa flor de fato existe, e é conhecida como narciso ou narcissus, da família amaryllidaceae. Suas flores em geral são amarelas e brancas. Pode-se refletir algo sobre pureza no branco e exuberância no amarelo.

O engraçado é que esta flor, que certamente se destaca por sua beleza e ainda seu perfume, não pode se misturar com outras, pois possui uma substância em seu caule que é capaz de levar outras plantas à morte, além de ser nociva ao ser humano, atingindo o sistema nervoso, em especial o interior do estômago. Como Narciso, seu “padrinho”, a flor bela e perfumada não se mistura, apesar de atrair e encantar.

E, se a bela flor foi inspirada no mito, o mito inspirou o termo “narcisismo”, que significa excessivo amor-próprio, em especial pela imagem (Freud), símbolo de vaidade, supervalorização do “eu”, de egoísmo, orgulho, fixação de uma pessoa na imagem de si. A Psicologia aponta o indivíduo narcisista como um ser que precisa de constante admiração e atenção, além de ter dificuldades em lidar com o não protagonismo em diversas situações e em ver sua imagem ou sua pessoa passar despercebidas.

Pensando nisso tudo, reflito sobre a Era da Imagem na qual estamos vivendo, termo cunhado por estudiosos. Mais do que nunca, uma imagem vale por mil palavras: a imagem se sobrepõe a palavras, atitudes, verdades, realidades. O que vale é a captação do instantâneo, a foto, o vídeo, o flash – o que corrobora os conceitos da Modernidade Líquida, em que tudo é fugaz e pouco duradouro, inclusive o amor (Bauman).

Não é que as palavras tenham perdido seu espaço, elas muitas vezes acompanham as imagens, sejam fotos ou vídeos, e as enrobustecem, mas, sem dúvida, a imagem é o astro, mais do que sempre foi. Por que youtubers e instagramers (usuários de YouTube e Instagram) obtêm sucesso tão rápido? É que são redes que valorizam sobremaneira a imagem, a superexposição do “eu”, criando “semideuses” que se olham refletidos no espelho de forma constante. E não apenas se olham, querem ser olhados se olhando.

Estamos falando, sobretudo, de uma geração narcisista, egocêntrica e que vive com o rosto diante de uma tela espelhada – ou um lago. Que, ao mesmo tempo, quer ser admirada, nem precisa ter a exuberância dos padrões de beleza sociais, basta aparecer, aparecer muito, abrir sua vida, seu corpo, desfilar pelos jardins como Narciso desfilava – atrás de uma tela, bem protegidos, editando e escolhendo o que mostrar. Não parece falso? Ou irreal?

Temos a “barreira” ou o “filtro” da tela, em que tudo pode ser editado para que pareça melhor do que é na realidade, desde uma espinha no rosto até a barriga tanquinho. Ir para a academia é um evento a ser mostrado com orgulho – ou, ora, por que ir à academia?! E mais: não apenas a aparência física, com filtros e retoques em aplicativos, ângulos, iluminação, equipamentos modernos, maquiagem, mas a aparência da vida: estou sempre rodeado de amigos, me divertindo, vou a lugares incríveis, tenho coisas legais… preciso mostrar isso sempre e ser isso, me sentir isso, eu sou o que eu quiser, o que eu mostrar que sou. O que gera inveja, frustração e competição em muita gente, muitos dos quais procuram “competir” com essas pessoas.

A verdade é que não sabemos é nada da vida de quem se edita em uma tela. Por exemplo: lá está o loiro de olhos azuis no Instagram, faz lives super estratégicas e inteligentes (ou apenas bonitas e babacas, vale a imagem), parece o Rodrigo Hilbert, em seu apartamento de luxo. Um dia, por acaso, vou conhecê-lo, e vejo que se trata de um homem pequeno, magrinho, que não chama a atenção ao vivo, é chato, prepotente (assumiu seu narcisismo egocêntrico) e seu apartamento nem é grande coisa. Ele editou tudo.

Outras vezes, podemos encontrar alguém que realmente acabou se transformando no que editou – e talvez tenha se mutilado por dentro e por fora para isso. Pela preocupação com a aparência física, a aparência da vida e a exposição contínua, muita gente está se cuidando muito bem. Entretanto, nesse cuidar, não se tornam Narciso, seja o mito grego homem ou a flor? Centrados em si mesmos, nocivos, às vezes autodestrutivos ou o motivo da baixa autoestima – embora inspiração, muitas vezes – de outros.

Por que os suicídios não param de aumentar? Depressão, ansiedade. Estamos no Setembro Amarelo de prevenção ao suicídio. É endêmico. Se as pessoas fossem realmente tão felizes e estivessem tão satisfeitas com sua aparência, com sua vida agitada e produtiva, com seus pertences, sua audiência, não deveríamos estar em uma sociedade lúdica, cooperativa e amigável, em que só há inspirações que nos fazem querer ser melhores? Um circo divertido, a céu aberto, em que todos podem desfilar.

Antes fosse.

O ser humano sempre quer mais, é de sua natureza. Ele sempre vai achar alguém que tenha mais. Tornando-se cada vez mais vaidoso e se expondo de forma desvairada, mesmo que mais “técnica”, vai se tornar cada vez mais narcisista, egoísta, egocêntrico, cego, vazio. Infeliz. Talvez… suicida. Um palhaço triste, um animador de plateia que se sente acabado nos bastidores. Que, na verdade, não vive, porque precisa mostrar que está vivendo o tempo inteiro.

Escutem, por exemplo, a música vencedora do Grammy, de Tiago Iorc, “Desconstrução” (em homenagem à obra clássica de Chico Buarque, talvez?). Assistam ao clipe, que diz mais que a letra. Permito-me citar os trechos inicial e final, reflita:

Quando se viu pela primeira vez

Na tela escura de seu celular

Saiu de cena pra poder entrar

E aliviar a sua timidez

Vestiu um ego que não satisfez

Dramatizou o vil da rotina

Como fosse dádiva divina

Queria só um pouco de atenção

Mas encontrou a própria solidão

Ela era só uma menina

(…)

Entrou no escuro de sua palidez

Estilhaçou seu corpo celular

Saiu de cena pra se aliviar

Vestiu o drama uma última vez

Se liquidou em sua liquidez

Viralizou no cio da ruína

Ela era só uma menina

Ninguém notou a sua depressão

Seguiu o bando a deslizar a mão

Para assegurar uma curtida.

Bato palmas a Tiago Iorc, que ficou um ano desaparecido para escrever algo assim. Saiu de cena para falar sobre a cena. Só se vê bem a ilha estando fora da ilha (Saramago).

Em tempos de Covid, falamos tanto em solidariedade, acolhimento, mas tudo ainda é entremeado pela tela que pede aplausos, curtidas, compartilhamentos, veneração, atenção. “O que você faz quando ninguém te vê fazendo?” (Capital Inicial). Quem é você quando ninguém te vê? Sem filtros, literais e metafóricos. Sem armaduras. Sem uma plateia quando precisa de apenas uma pessoa verdadeira. Você já olhou para o lado hoje? Já saiu da própria cena? Quem diria que, um dia, boa parte das pessoas, ao menos no Brasil, adorariam ser vigiadas o tempo todo como no famoso filme de Jim Carrey, “O Show de Truman” – só que ele não sabia que era visto por uma multidão de pessoas na tela da TV todo dia.

Narcisismo nos deixa doentes. Altruísmo nos faz crescer. Amor-próprio faz bem, só ama quem tem amor em si. Mas vaidade e orgulho destroem tanto quanto a imagem de Dorian Gray na pintura do quadro do livro de Wilde.

É extremamente sedutor ser Narciso. É extremamente frustrante perceber que ele vive sozinho, lá no fundo, e que não nascemos para ser semideuses, mas apenas seres humanos que precisam de outros seres humanos, em sentido de igualdade social, moral, compreensão e amor. Ah, o amor. Amor nunca vai se sustentar só de aparência, o amor quebra filtros porque é essência. Amor não é paixão, que é ilusão.

As pessoas querem alguém para a idolatrarem, a amarem tanto quanto se amam e mais. Ou, o oposto, nunca conseguem quem as ame porque não se amam, não se sentem “nos padrões das telas populares”. E elas estão por toda parte.

Leila Krüger. Colunista, Escritora, Jornalista e Ghost Writer – Mestre em Comunicação Social- Leila Krüger.

Written by

Caminante, no hay camino, sino estelas en la mar. Author. Escritora e jornalista. Autora de Reencontro e outras obras. Leilakruger.com. Instagram: Leilakruger

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