Vendedores de sonhos

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Publicado no jornal HoraH por Leila Krüger em 6/7/2020.

Augusto Cury, médico psiquiatra renomado no Brasil e no mundo, é autor de vários best-sellers como “Nunca desista de seus sonhos” – uma coleção de histórias verdadeiras, ou ao menos baseadas em fatos reais, sobre sonhadores que tinham tudo para dar errado, não chegar a lugar algum. Mas, por sua persistência, seu foco e sua fé, chamada por vezes de loucura, realizaram seus maiores sonhos e entraram para a História, de Jesus Cristo a Abraham Lincoln.

Oficialmente, foram mais de 2 milhões de exemplares desse livro vendidos só no Brasil. Sonhos são algo que move o coração das pessoas.

Vivemos um momento difícil em nosso planeta. Em nosso interior, para a maioria de nós. É o Covid, mas não só isso – toda a liberdade assustadora, colidindo com velhos preconceitos e tradições, na Pós-Modernidade.

Queremos mais do que nunca sonhar, o mundo está repleto de cartazes, outdoors, propagandas, postagens nas redes sociais que falam de sonhos. Queremos, de verdade, sonhar. Mas, se não estou enganada, tem parecido cada vez mais difícil sonhar, ou sonhar com fé e força para realizar. Desiste-se fácil.

Não é segredo, mas fato, que os números de suicídios e transtornos psicológicos têm aumentado cada vez mais: ansiedade, depressão, crises existenciais – logo agora que temos, supostamente, tanta liberdade pós-moderna. Liberdade para sonhar, apesar daqueles que tentam aparar nossos sonhos, talvez por eles mesmos não terem coragem de assumir e buscar os seus. Temos tantos meios para realizar, tanta tecnologia, tantas ideias, tantos exemplos, tanto alvorecer! E estamos adoecendo, não apenas por fora, mas por dentro… Por quê?

Certa vez, quando tive uma grave crise de depressão, que condensou inúmeras crises existenciais e prisões interiores, e sonhos amordaçados, conversei com uma pessoa acostumada a aconselhar os acometidos por esse mal do milênio, ela mesma uma sobrevivente. Disse-me que “tem sido cada vez mais comum a depressão, a ansiedade”, e então perguntei o motivo. Eu não imaginava que ela me responderia assim: “É que as pessoas não sonham mais. As pessoas estão perdendo seus sonhos”.

Talvez devêssemos dizer “vendendo seus sonhos”. Em troca de conforto. Medo. O que mais? Covardia, até. Falta de autoestima. O problema pode até ser os outros – “o inferno são os outros”, disse Sartre – e o mundo, mas esse é um problema que todos têm. O sol nasce e se põe sobre todos. Por que apenas alguns enfrentam os obstáculos, fazendo das pedras escadas, e outros delas fazem muros? É tudo uma questão de visão. E, é claro, de ação. Procure as histórias de superação das pessoas que venceram na vida. Elas foram “acrisoladas como a prata”, em sua grande maioria. Não foi acaso. Foi esforço e persistência.

“O vendedor de sonhos”, de Augusto Cury – há os volumes 1 e 2 – é a obra mais vendida de Augusto Cury, transformada em filme por Jayme Monjardim. Não estou aqui fazendo propaganda do dr. Cury, que tem inúmeras obras de relacionamentos e condição humana, como profissional da saúde mental que é. Quero dizer é que a palavra SONHOS vende. A ideia vende. Vende porque interessa, no fundo interessa a todos nós. Sonhos sufocados se transformam em rancor, em ódio, em desprezo e autodesprezo, em uma existência sem significado. Sonhos são sinônimo de felicidade, e “ser feliz é uma responsabilidade muito grande, pouca gente tem coragem” (Clarice Lispector).

Eu gostaria de que todos nós ousássemos sempre sonhar. Aos oito, aos oitenta. E, ousando sonhar, buscar fazer: “Precisamos perseguir nossos mais belos sonhos. Desistir é uma palavra que tem que ser eliminada do dicionário de quem sonha e deseja conquistar” (sinopse do livro “Nunca desista de seus sonhos”, Augusto Cury).

O ser humano nasceu para sonhar, para ter objetivos, para construir castelos, e também os reconstruir para fazer melhor.

E não é que “quando eu conseguir vou ser feliz”, a felicidade é o caminho, a tentativa. Depois de uma conquista, vem outra, como uma cor acrescentada a um arco-íris sobre o pote de ouro.

A maioria das pessoas vive um dia após o outro, mas aquelas que sonham vivem um projeto após o outro, elas vivem sonhos.

E, por mais que o hedonismo, o louvor a si mesmo pareça imperar no narcisismo das redes sociais, da liberdade nunca antes disponível, ao menos em teoria, no fundo é apenas o outro lado do espelho; confirmado pelo já citado fato da explosão de suicídios e doenças mentais em todo o mundo. Estamos com baixa autoestima, estamos um tanto à deriva, estamos sorrindo e perdendo nossos sonhos, sem que ninguém saiba – basta não mostrar.

Para não falar apenas de Augusto Cury, deixo uma das citações mais belas que já li, e que me provoca arrepios apenas por a lembrar. É de Eleanor Roosevelt, primeira-dama dos Estados Unidos entre 1933 e 1945. Eleanor viveu o horror da II Guerra. E, antes disso, do socialismo no Leste Europeu, e o começo da Guerra Fria que se assumiria na década de 1960. Eleanor tinha cerca de 1.80m, era uma mulher grande, mas não por sua estatura física – pela mulher que foi. Disse:

“O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos.” Tão simples. Tão certeiro. Tão fácil? Não. Mas possível.

Nenhum sonho é ridículo quando vem do coração, da alma, da essência.

Vivemos tempos em que saltitam “podadores de sonhos”, pessoas, circunstâncias, instabilidade. Pois aí é que temos de sonhar mesmo. Fazer dos problemas, oportunidades. É assim que fazem os grandes, que sempre fizeram: eles acreditaram na beleza de seus sonhos, quando quase ninguém, ou até ninguém acreditava.

Vá à luta. Erre mil vezes, como os grandes erraram. Persista. O futuro pertence àqueles que acreditam, e não desistem, da beleza de seus sonhos.

Não seja um vendedor de seus próprios sonhos. Nada nem ninguém pode comprar a felicidade da busca e da conquista. Comprar quem você é – o que você sonha.

Nada pode fazer o tempo voltar – mas você sempre pode sonhar e construir um novo tempo.

Caminante, no hay camino, sino estelas en la mar. Author. Escritora e jornalista. Autora de Reencontro e outras obras. Leilakruger.com. Instagram: Leilakruger

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