O atleta negro que derrotou o racismo da Universidade do Alabama

A leitura do livro de memórias “Vida de Escritor”, do jornalista norte americano Gay Talese, tem sido um deleite, e uma oportunidade de passear por momentos históricos vividos por ele.

Gay Talese, hoje com 82 anos, é jornalista e escritor, com passagens por veículos como o jornal The New York Times e a revista The New Yorker, entre outros. É considerado um dos fundadores do “jornalismo literário”. No Brasil, seus livros foram editados e publicados pela Companhia das Letras.

O racismo é um assunto que não sai da pauta. E hoje o debate está em torno da não indicação de negros para qualquer prêmio no Oscar 2016. Apesar de diversos negros terem protagonizado papéis em diversos filmes, nenhum deles foi indicado.

Nos Estados Unidos, o racismo é mais visível do que no Brasil. Aqui, sob o mito da democracia racial, escondemos o racismo que também é institucionalizado. Mas nos Estados Unidos, a coisa parece mais escancarada, embora o atual presidente seja negro e filho de pai africano.

Então, neste momento de debate racial, vem a calhar alguns trechos do livro do Gay Talese, no qual ele menciona o racismo dentro da Universidade do Alabama, que proibia negros em seu time de futebol, mesmo depois de ter permitido o acesso dos negros à universidade.

Muitas coisas ficam latentes nesses trechos: o clima de exlclusão por conta da cor da pele; a violência institucional racista; a Ku Klux Klan; o fascismo dos confederados do sul dos Estados Unidos; a exclusão social e a consequente desigualdade, entre outras coisas.

Leia:

Trechos

Quando um atleta negro faz mais que Martin Luther King contra o racismo, e o racismo na Universidade do Alabama

Páginas 147 e 148 — “Vida de Escritor”, por Gay Talese

“A admissãode estudantes negros em 1963, dez anos depois que me formei pela Alabama, não representou a imediata aceitação de atletas negros no sistema esportivo da escola. O técnico de futebol americano, Paul ‘Bear’ Bryant, foi advertido pela reacionária associação de ex-alunos que deveria se abster de qualquer tipo de ‘mistura racial’ na equipe. Assim, entre 1963 e 1968, Bryant não ofereceu uma só bolsa de estudos a craques negros que estivessem concluindo o segundo grau. Mesmo os melhores pretendentes negros eram considerados insuficientemente dotados para jogar em faculdades mais receptivas, no Meio-Oeste ou no Oeste.

Mas, em 1969, muito depois que a barreira de cor fora ultrapassada em faculdades que tinham times de futebol americano no Kentucky, no Tennessee e na Flórida — e como rival estadual da Alabama, o time de Auburnm tinha admitido recentemente um jogador negro — , Bryant foi autorizado a acompanhar a tendência, e assim, em meados de dezembro de 1969, um craque secundarista negro chamado Wilbur Jackson, de Ozark, Alabama, foi convidado ao Campus e ganhou o uniforme.

Mas como naquela época calouros não eram convocados para o time principal, Jackson ficou na arquibancada, com mais de 72 mil outros espectadores, no Legion Field, de Birminghanm, na noite de sábado, 12 de Setembro de 1970, quando a equipe de Alabama, formada inteiramente de jogadores brancos, foi derrotada por 42 a 21 por um time da Universidade do Sul da Califórnia capitaneado por um zagueiro negro de 97 quilos chamado Sam ‘Bam’ Cunningham, que cursava o segundo ano em Santa Bárbara, Califórnia. Na defesa na Universidade do Sul da Califórnia estava também, naquela noite, um jogador negro de Birminghan chamado Clarence Davis, que conseguiu dois touchdowns.

Mas o maior prejuízo foi causado por Cunningham, que marcou três touchdowns, acumulou 212 jardas em corridas e praticamente sozinho desmoralizou a facção segregacionista dos torcedores do Alabama, que até então acreditara que Bear Bryant continuaria sendo um técnico vencedor de um time integralmente branco que risistia ao surgimento dos atletas negros. Na História do futebol da Alabama nunca houve muita tolerância entre seus torcedores, entre os quais e contavam filiados à Ku Klux Klan, em relação a temporadas de insucessos no campo, e depois do massacre sofrido ante a Universidade do Sul da Califórnia, um jornalista esportivo chegou a insinuar que o mais conhecido racista do estado, George Wallace, tinha prometido, fora dos ouvidos públicos, que o time de Bryant ‘nunca mais seria vencido por negros’.

Não resta dúvida de que o assombroso desempenho de Sam ‘Bam’ Cunningham contra a defesa da Alabama acelerou o ritmo de recrutamento de negros naquela universidade. Três anos depois, quando o time de Bryant fechou a temporada de 1973 com onze vitórias e apenas uma derrota — perdeu por um ponto para o Notre Dame, no Sugar Bowl — , um terço dos titulares do time principal da Alabama era composto por negros.

Sam “Bam” Cunningham

Segundo Bryant, ‘Cunningham fez mais pela integração no Alabama em sessenta minutos do que Martin Luther King em vinte anos’”.