E ele preferiu morrer afogado

(Continuação da história anterior)

Sabe quando você olha pra foto de alguém que você tanto amava e já não consegue encontrar beleza naquele sorriso? Não é que a pessoa tenha virado feia do dia pra noite. Ela simplesmente não te desperta mais encanto. É como ver uma flor murchar. É o que acontece quando alguém te faz tão mal.

Eu quis ser o seu bote salva-vidas, pois era isso que você disse que queria de mim… Mas você preferiu morrer afogado. Estiquei os braços o máximo que pude, mas você não fez nem o esforço pra me alcançar. Não adiantou todos os rios que chorei tentando te salvar. Nem todas as boias que lancei ao mar… Você simplesmente não quis se salvar. Eu já estava naquele bote sem remos e tinha consciência de que não seria fácil te resgatar. Então precisei usar a força dos meus próprios braços para remar.

Senti o cansaço chegar e o corpo doer. Quis fazer da minha própria carne a salvação de outro alguém. Não percebi o quanto o meu corpo era o meu bem mais precioso.

Pensei em me atirar ao mar para te salvar. Cheguei a colocar uma das pernas para fora do bote, mas você gritou:

— Não faz isso!

Eu insisti e coloquei a outra perna para fora e fiquei segurando o bote apenas com as mãos e quase escorreguei quando veio uma onda forte. A água do mar estava violenta demais. O medo quase me consumia. Com lágrimas nos olhos, você gritou mais uma vez:

— Vai embora!

Me lancei ao mar. A minha sorte era que o bote tinha uma cordinha. E dela não soltei. Achei que conseguiria te salvar segurando apenas essa única corda. Eu não ia desistir de você. Eu não queria te perder. Acreditei que você também tivesse medo de me perder.

Escutei tua voz cada vez mais distante:

— Me deixa!

Eu o vi afundando. Ainda segurando a cordinha, mergulhei com os olhos abertos na esperança de conseguir vê-lo pela última vez. Nadei com pressa em direção a ele. Vi que ele acenava com as mãos me dando adeus e então parei de nadar. Meu peito doeu e meu corpo foi tomado por uma câimbra terrível. Fiquei paralisada o vendo partir. Eu não queria desistir, mas era claro que ele não queria mais voltar para o bote.

A corda havia se desmanchado e agora eu não sabia mais como voltar sozinha para meu bote. O mar revolto só piorava a minha situação.

A minha dor era tanta que parecia que eu havia perdido as forças. Permiti meu corpo afundar por alguns instantes e acabei engolindo um pouco d’água sem querer. Pensei em desistir e quando estava quase desmaiando, senti um braço me puxar de volta pra superfície.

Consegui subir no bote. Fraca e exausta, olhei em volta sem entender. Não havia ninguém por perto. De repente eu já não chorava mais. Entendi que na verdade aquele braço não era de uma outra pessoa. Era apenas uma força que existia dentro de mim que eu não sabia que estava viva.

O gosto de sal permaneceu na minha boca e desejei que você ainda estivesse ali, mas de repente lembrei que eu havia trazido a minha própria garrafa d’água e deixado dentro do bote. Eu já não precisava de mais ninguém pra matar minha sede.