[Fiz a Travessia] Deixei de ser funcionário público para virar escritor e facilitador

O entrevistado de hoje é o Alex Bretas, da série “Fiz a Travessia”, um projeto para inspirar e incentivar pessoas a fazerem uma transição para serem mais felizes, satisfeitas e realizadas no trabalho e na vida.

Nome: Alex Bretas

Idade: 24
Antes: gestor público

Hoje: escritor e facilitador

Lella Sa: Por que você faz o que você faz hoje?

Alex Bretas: Porque me ajuda a ressignificar minha história. Como escritor, consegui finalmente aplicar uma habilidade que já havia detectado que tinha desde criança. Como facilitador de conversas e processos colaborativos, consigo lidar com minha própria dificuldade em “colocar pra fora” minhas emoções e me comunicar de forma assertiva e autêntica. Acredito que o que o Daniel Pink fala se aplica aos meus trabalhos hoje: consigo, por meio deles, encontrar as doses necessárias de autonomia, maestria e propósito. Atualmente, sinto que tenho a função de mostrar às pessoas que aprender é inerente à vida, é divertido, é fascinante. E também que aprendizagem não é sinônimo de escola ou universidade.

Lella Sa: Por que você decidiu sair da onde estava?

Alex Bretas: A síntese de Daniel Pink também me ajuda a responder essa pergunta. Eu precisava de mais autonomia. Queria testar coisas novas, experimentar caminhos diferentes, mas não encontrava espaço onde estava. Também queria me desenvolver como facilitador (busca por maestria), e sentia que meu local de trabalho não iria me dar oportunidades frequentes de me aperfeiçoar nessa área. Por fim, minha visão de mundo começou a questionar seriamente as estruturas de governo em geral — fui estudar sobre redes, abundância, colaboração e nova economia e acabei percebendo que o tipo de relação que eu acreditava ser necessário ao mundo não podia ser criado a partir do Estado. Aí entra o terceiro elemento de Pink: o propósito, que eu não enxergava mais no que estava fazendo. O Estado por definição é uma instituição centralizadora e pouco permeável aos movimentos em rede. Quando as manifestações de junho de 2013 eclodiram, eu ainda estava no governo, e pra nós aquilo foi super complicado. Não sabíamos como lidar. Poucos meses depois, pedi exoneração.

Lella Sa: Como fez essa mudança?

Alex Bretas: Cheguei a pedir para ser exonerado uma vez, mas logo voltei atrás na decisão, o que acabou gerando uma crise de confiança na equipe. A decisão já havia sido comunicada à diretoria do órgão e eu fiquei mal na fita, mas consegui permanecer no cargo. Eu não estava preparado: a única coisa que sabia era que, naquele momento, não era ali que eu queria atuar. Mas, se não aquilo, então o quê? Depois desse episódio trágico, comecei a planejar minha transição. Enviei alguns e-mails para pessoas e organizações que admirava em São Paulo, e dentro de pouco tempo consegui uma vaga de consultor. Também fiz questão de comunicar pessoalmente a decisão aos meus pais, afinal, um menino de 20 e poucos anos saindo de um emprego promissor no setor público precisa de uma explicação convincente para acalmar o coração dos familiares. Quando cheguei em São Paulo, um leque de novas possibilidades começou a se abrir, e progressivamente fui me envolvendo mais com o tema que trabalho hoje, aprendizagem livre. Me sentia mais livre e confiante para lançar meus próprios projetos.

Lella Sa: Quais foram os maiores desafios que passou para fazer essa transição?

Alex Bretas: Precisei arcar com uma multa por não ter cumprido o tempo mínimo de trabalho no governo. Na carreira da qual fazia parte no governo de Minas Gerais — Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental -, exige-se dos servidores recém-empossados uma permanência mínima de dois anos (agora são três) como uma contrapartida da formação que recebemos na Escola de Governo da Fundação João Pinheiro. É um sistema diferente de ingresso no setor público.

Ao chegar em São Paulo, também precisei reconstruir minha rede de contatos quase “do zero”. Frequentei muitos eventos e tomei muitos cafés com muita gente (ainda faço isso). Não havia a segurança que eu podia contar no governo, em que eu já conhecia várias pessoas.

Lella Sa: Como ficou a questão de grana em meio a incerteza?

Alex Bretas: No início, os trabalhos de consultoria foram suficientes para me manter, a despeito da multa e da instabilidade desse mercado. No entanto, ao longo do tempo fui me enfiando cada vez mais em projetos autorais, dentre eles a Educação Fora da Caixa. Em fevereiro de 2015 tomei a decisão de me dedicar integralmente ao projeto, embora ele ainda não me pagasse o suficiente. Eu tinha uma reserva financeira que foi absolutamente necessária para passar por esse momento (ainda assim não foi fácil, a insegurança bate forte às vezes). Ainda hoje é um desafio. Mesmo assim, penso nesse período da minha vida profissional como um período de investimento, assim como uma empresa precisa de certo capital inicial para ser erguida. O retorno devagarzinho está vindo, e cada vez mais estou entendendo como me colocar nesse novo lugar que escolhi. A gente vai entendendo as estratégias, como vender, como apresentar nosso trabalho (invariavelmente, se somos autônomos/empreendedores, tais habilidades são muito necessárias). Pra mim é fundamental pensar que a grana não é o mais importante, o mais importante é encarar o trabalho como uma forma de se desenvolver como ser humano e contribuir para melhorar a vida de outras pessoas.

Lella Sa: Qual futuro você está ajudando a criar?

Alex Bretas: Um futuro em que todos se apropriem de suas capacidades únicas de aprendizagem. Como hoje tudo está fragmentado, nos acostumamos a pensar que educação só se faz dentro de prédios institucionalmente planejados para servir a esse fim. Isso não é verdade. Aprender (mudar com o mundo) é o que nos faz seres humanos. Trabalho para mostrar às pessoas as condições necessárias para o viver-aprender. Quero muito que cada um perceba suas potencialidades e curiosidades e não as deixe serem massacradas pelo modelo educacional hegemônico. No limite, talvez duas palavras resumam tudo isso: desenvolver autonomia.

Lella Sa: Que dicas você daria para quem quer ter um Trabalho com Significado?

Alex Bretas:

  • Planeje sua transição com cuidado, mas sem deixar de perceber que os ventos podem mudar. O planejamento precisa se equilibrar com a flexibilidade. Eu não sabia que iria escrever livros sobre educação quando saí do governo, mas uma coisa foi levando a outra e eu resolvi atender ao chamado do meu coração.
  • Construa uma reserva financeira, isso te dará alguma tranquilidade quando a maré ficar mais agitada.
  • Cuide muito, muito bem da sua rede de contatos — vá a eventos, marque cafés, aprenda a apresentar seu trabalho e a falar de você. Pergunte às pessoas as histórias delas e conte a sua, é por meio das histórias de vida que os vínculos são fortalecidos.
  • Compartilhe os frutos do seu trabalho com o mundo, sem se preocupar em fazer dinheiro num primeiro momento, se possível. Isso te ajudará a ser reconhecido na nova arena profissional que você escolheu.
  • Se você não tem condições de pagar um coach ou outro profissional que te apoie durante sua transição, pense em outras formas de montar uma rede de suporte nesse período. Se você tem um amigo que te acolhe e te escuta, peça esse apoio para ele. Se possível, participe de cursos, é uma ótima forma de encontrar apoio + fortalecer sua rede na sua nova área de atuação.

Alex está envolvido no programa Desaprender, uma iniciativa do UnCollege Brasil para quem quer aprender qualquer coisa de forma livre e com o apoio de uma comunidade acolhedora. Inscrições abertas até dia 15 de abril pelo site www.desaprender.uncollegebrasil.org


Se você quer fazer a sua transição para um Trabalho com Significado, faça o Programa Travessia.


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