[Fiz a Travessia] Deixei o marketing de moda para ser facilitadora em alinhamento vocacional

A entrevistada de hoje é a Carolina Bergier, da série “Fiz a Travessia”, um projeto para inspirar e incentivar pessoas a fazerem uma transição para serem mais felizes, satisfeitas e realizadas no trabalho e na vida.

Nome: Carolina Bergier

Idade: 30
Antes fazia: marketing de moda

Hoje faz: facilitadora em alinhamento vocacional

Lella Sá: Por que você faz o que você faz hoje?

Carolina Bergier: Porque, se quero ser feliz, não tenho outra escolha. A Vida me impulsiona a fazer o que faço. Se eu fizesse qualquer outra coisa não estaria a serviço do que a Vida me pede para fazer. Parece complexo, mas é muito simples. Não é uma escolha racional, embora eu tenha várias razões para fazer o que faço: a vida está demandando que todos os navegadores desse barco que chamamos de planeta Terra se responsabilizem pela rota de navegação. Se queremos seguir existindo por aqui, é urgente que sejamos mais conscientes e responsáveis pelas escolhas que fazemos. Nossa ação no mundo se manifesta de diversas maneiras. Dentre elas, no consumo, nos relacionamentos e no serviço que oferecemos à comunidade. Algumas pessoas chamam isso de trabalho, eu tenho buscado uma palavra que não remeta a instrumentos de tortura. Trabalho vem do latim, tripalium, que era um instrumento de tortura usado na Inquisição. Eu tenho visto o trabalho como uma ferramenta de transformação muito eficaz para regenerar a Vida dentro e fora de nós. É nisso que minha existência está focada hoje. Em regenerar Vida. Tenho feito isso apoiando pessoas a criarem e potencializarem trabalhos que transformem positivamente.

Lella Sá: Por que você decidiu sair da onde estava?

Carolina Bergier: Porque estava claro internamente que eu precisava mudar meu serviço ao mundo. Eu estava dedicando 8 horas do meu dia para construir um mundo no qual eu não queria viver. A incoerência estava me incomodando muito.

Eu trabalhava com marketing de moda aqui no Rio de Janeiro e já estava em uma busca de outras respostas para algumas inquietações, com yoga e meditação. De manhã meditava, tomava meu suco verde e praticava yoga. À tarde, tinha como foco maximizar o consumo para que a empresa onde eu trabalhava pudesse prosperar. A empresa investia ativamente em cuidar de seus colaboradores e se ocupava em trazer mais humanidade para as relações de trabalho, mas no fim das contas, minha função era aumentar o consumo de roupas, mesmo que com cuidado com a equipe.

Eu gostava do que fazia, tinha talento praquilo e recebia bem para o padrão de vida que eu tinha na época. Foi quando chegou no meu e-mail um TEDx sobre a Green School, uma escola com foco em sustentabilidade e empreendedorismo em Bali. Aquilo me tocou muito, eu chorava sem conseguir parar. Não sabia muito bem o que estava acontecendo para eu me emocionar tanto. Hoje tenho consciência de que a emoção era sobre como 
o fundador da escola se responsabilizou por facilitar uma transformação através de seu trabalho.

Com uma certeza irracional de que aquele era o próximo passo da minha existência, fiz um acordo com a empresa e fui demitida. Com o dinheiro e algumas (poucas) economias e uma ajuda aqui e ali dos meu pais, que apoiavam minha busca, tirei um ano para ter experiências que pudessem me aproximar de quem eu realmente era em Israel e em Bali. Fui para Israel, onde trabalhei em comunidades agrícolas no meio do deserto, com técnicas de permacultura e plantio orgânico. Aquilo já abriu muito minha cabeça. A vida em comunidade é muito disruptiva para quem mora na cidade como eu.

Colhendo maça em Israel

Depois fui pra Bali e consegui, milagrosamente, a única vaga para trabalho voluntário na Green School. Foi um ano de muita mudança de paradigmas. Entrei em contato com um mundo novo, dentro e fora de mim. Aprendi muito sobre mim e me aprofundei em temas que ressoavam muito dentro de mim: permacultura, viver em comunidade, partos humanizados, meditação, yoga, alimentação e espiritualidade.

Experiência na Green School

Na volta, eu tinha uma certeza: queria comunicar esse mundo lindo que vi surgir. Comecei, na cara de pau, a oferecer matérias para algumas revistas. Eu sempre gostei de escrever e o blog que fiz durante a viagem era a única coisa que tinha no meu portfolio. Pasmém!, comecei a ter matérias publicadas e ser chamada em escolas para compartilhar sobre minha experiência na Green School. Tudo começou a acontecer bem organicamente. Ter escrito o blog abriu muitas portas e eu comecei a escrever sem pretensão alguma, só por um sentir de que aquilo precisava ser feito.

A porta mais significativa que o blog abriu foi com o Ricardo, que lia meus textos e me procurou por estar numa busca parecida com a minha. A gente estava muito alinhado na vontade de ajudar a potencializar a voz dos movimentos que estavam engajados em construir uma sociedade mais cuidadosa, colaborativa e responsável. Nosso papo inicial já deixou claro que tínhamos algo para construir juntos. Acabamos fundando a Casa Sou.l em julho de 2013.

Início da Casa Sou.l

Desde então, a Casa Sou.l já passou por diferentes formatos. Começamos como um espaço físico que servia de conector entre pessoas através de cursos com diferentes educadores, com o tripé autoconhecimento — sustentabilidade — empreendedorismo. Essa fase foi linda e muito desafiadora. Tínhamos um custo fixo alto e a conta nem sempre fechava. Além disso, eu não estava trabalhando na minha potência. Eu cuidava da casa física, da curadoria e do comercial dos cursos. Não tinha tempo para criar e facilitar eu mesma os cursos, que é o que eu amo fazer. Eu não tinha clareza disso naquele momento, mas sabia que tinha algo que ainda não estava encaixado. Nesse meio tempo, o Ricardo foi tocar projetos que passaram a estar mais vivos dentro dele e a Casa Sou.l passou a operar como um software e não mais um hardware. Desde setembro de 2014 não funciona mais em uma sede fixa e oferece seus serviços em diferentes locais e cidades. Hoje eu co-facilito todos os cursos, com sócios diferentes para cada um deles. São menos atividades, que rodam com uma periodicidade fixa e oferecem maior aprofundamento nos temas. Esse formato me traz muita leveza e autonomia. Quanto menos estrutura fora, mais posso seguir o que faz sentido dentro. Tem funcionado bem pra mim. Hoje meu foco está em facilitar a criação e a potencialização de trabalhos que regenerem a vida dentro e fora de si. Faço isso através de cursos e atendimentos individuais. O desafio maior hoje é gerir o tempo. São diferentes projetos com diferentes equipes e além disso tem também os atendimentos individuais e os cuidados comigo mesma e com os meus relacionamentos mais próximos. Ainda estou aprendendo a lidar com minha agenda de uma maneira saudável.

Facilitando

Lella Sá: Como fez essa mudança?

Carolina Bergier: Meu processo tem sido de sentir o que está vivo em mim, de escutar o que meu corpo me diz. Ele tem sido bem certeiro. Ás vezes demora um pouco para entender de onde vem esse ou aquele desconforto, mas o entendimento acaba vindo. Nem sempre são decisões fáceis ou agradáveis de se tomar. Algumas demandam muita confiança e desapego. O que me tranquiliza é que todas as vezes que escutei minha intuição e confiei no que ela estava dizendo, fiz escolhas que foram muito valiosas pra mim.

A intuição tem me falado muito sobre meu próximo passo. Ela não costuma me contar coisas sobre o longo prazo. Fala sobre o agora, sobre o que faz sentido agora. E aí, no conjunto de agoras eu crio o longo prazo, sempre a partir do que faz sentido no momento presente. Todas as vezes que eu projetei algo a longo prazo, esse algo não aconteceu. A vida é muito dinâmica, não conhece o depois de amanhã. Conhece o agora. Então como saber o que quero para daqui a 10 anos? Posso até farejar algo, mas não me apego. Me foco em saber qual é o primeiro passo. Não projetar a longo prazo é muito diferente de não planejar. Eu planejo sim, mas a partir do sentir. É o pensar a serviço do sentir e não o oposto. Eu sinto o que precisa ser feito e, a partir disso, desenho os passos para chegar lá. Tem sido bem emocionante.

Lella Sá: Quais foram os maiores desafios que passou para fazer essa transição?

- A falta de companhia de pessoas que tivessem uma visão de mundo que dialogasse com a minha. Alguns amigos achavam que eu estava ficando maluca. E eu nunca havia me sentido tão sã. Agora estou rodeada de pessoas que eu confio muito. Essa é uma das grandes alegrias de hoje: minha rede de apoio.

- Abrir um negócio diferente de tudo que existia na cidade. Demorou até encontrar um modelo sustentável (financeiramente, alocação de tempo e formação de equipe).

- Não saber como fecharia as contas do mês seguinte e ainda assim seguir confiando.

- As dúvidas que passavam e seguem passando pela cabeça: deveria eu estar escolhendo um caminho mais “seguro”? Aí me lembro que segurança é uma sensação interna e sigo fazendo o que me faz sentir viva.

Lella Sá: Como ficou a questão de grana em meio a incerteza?

Carolina Bergier: Só posso falar da minha experiência, então não estou dando um caminho das pedras, mas partilhando como tem sido comigo. Para alguns pode ser que seja importante ter um planejamento financeiro para fazer uma transição com mais segurança. Para outros, não. Eu fiz minha transição em um momento onde tinha poucas responsabilidades financeiras, então não foi tão desafiador me desapegar de um salário.

Depois que comecei a investir meu tempo na construção do mundo no qual quero viver, dinheiro nunca me faltou. É verdade que, a medida em que fui me conectando com o que realmente fazia sentido para mim, fui precisando consumir menos e menos para tapar buracos emocionais. E comecei a precisar de menos dinheiro. Ao mesmo tempo, todas as vezes que sigo o que a intuição fala, a prosperidade financeira surge. Por 4 meses, no primeiro ano da Casa Sou.l, eu trabalhei sem receber nada. Foi bem difícil e eu pedi ajuda aos meus pais. Agradeço por ter tido a possibilidade de ser apoiada financeiramente por eles. Foi bem difícil pedir ajuda, mas necessário. Ali entendi que o dinheiro vem não necessariamente de onde você espera. Hoje faço alguns trabalhos pro-bono e é bem interessante de perceber que, quando eles estão acontecendo com mais frequência, os trabalhos remunerados geravam mais renda. É como se a Vida desse um jeito de você receber o que precisa quando se está a serviço da Vida. Mas de novo, essa tem sido a minha experiência. Há de se encontrar um equilíbrio para cada um.

Venho fazendo um trabalho consciente de investigar minha relação com dinheiro. Acredito que mereço ser remunerada pelo que faço. Já sustentei a crença inconsciente de que não merecia fazer o que amo + apoiar a construção de um mundo melhor + ganhar dinheiro. Era como se fosse demais pra uma pessoa só. Hoje, acredito que faço um trabalho muito bem feito e que mereço receber por isso. Ao mesmo tempo, tenho investigado a construção de um mundo cada vez menos dependente de dinheiro. Mas ainda estou numa sociedade que depende dele. Então, que eu possa receber para (re)investir no mundo que quero ver nascer.

Lella Sá: Qual futuro você está ajudando a criar?

Carolina Bergier: Um futuro onde nos vejamos como parte de uma comunidade global, onde tenhamos consciência que nossas escolhas impactam a todos. Um futuro mais amoroso, cuidadoso, colaborativo, auto-responsável, onde confiamos uns nos outros e oferecemos nossos dons e talentos a serviço do mundo. Onde não separamos vida pessoal e profissional, por termos a consciência de que toda nossa existência está a serviço do Todo.

Grupo de “Saltantes” do workshop SALTO, ALINHANDO VIDAS E VOCAÇÕES

Lella Sá: Que dicas você daria para quem quer ter um Trabalho com Significado?

Carolina Bergier:

  • Escute sua intuição: respirar, meditar, estar em contato com a natureza me ajuda muito.
  • Tenha uma rede de apoio: pessoas que apoiam sua evolução e buscam te entender para além do que elas definem como bom ou ruim, certo ou errado.
  • Esteja em contato com pessoas que te inspiram, mas lembre que seu caminho é só seu. Ninguém nunca trilhou nem vai trilhar seu caminho.
  • Estude, mas saiba que a prática é a melhor maneira de aprender.
  • Permita-se sentir incomodado. A palavra incomodar vem de “mudar de cômodo”. O desconforto é um sinal de que precisamos fazer diferente do que estamos fazendo, de que precisamos sair de um estado e ir para o outro. Então o incômodo é o primeiro cheiro de uma ação iminente.
  • Comece pequeno. Entenda o que você está oferecendo, aprenda com seus erros e cresça organicamente (eu não comecei assim e pra mim funcionou, mas percebo a cada dia e a cada novo projeto a importância do protótipo.)
  • Perceba onde você se sente mais vivo. Esse é um termômetro bem eficaz para quem está em busca interna do que faz sentido para si.
  • Comprometa-se com a SUA felicidade!

Se você quer fazer a sua transição para um Trabalho com Significado, faça para do Programa Travessia.


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