[Fiz a Travessia] Larguei a agência de comunicação para desenvolver líderes e organizações

A entrevistada de hoje é a Vânia Bueno Cury, da série “Fiz a Travessia”, um projeto para inspirar e incentivar pessoas a fazerem uma transição para serem mais felizes, satisfeitas e realizadas no trabalho e na vida.

Nome: Vânia Bueno Cury
Idade: 53 anos, sem filhos, 4 netos

Antes: Fundadora e gestora de uma agência da Anima Planejamento e Imagem — agência de comunicação corporativa — Criava e produzia planejamento estratégico de comunicação, assessoria de imprensa, marcas e eventos

Hoje: Gestora da Anima Convivência Produtiva — educadora e consultora em comunicação consciente para o desenvolvimento de líderes e organizações

Lella Sá: Por que você faz o que você faz hoje?

Vânia Bueno Cury: Porque encontrei um sentido claro e relevante para o meu trabalho e para a minha vida. Adoro o que faço, me sinto motivada para seguir coaprendendo e energizada para compartilhar o caminho com outras pessoas que buscam a realização criando benefícios para si, para os seus e para o mundo.

Lella Sá: Por que você decidiu sair da onde estava?

Vânia Bueno Cury: Um pouco diferente da maioria das pessoas que resolvem mudar quando tudo vai mal, minha transformação começou quando tudo parecia muito bem:

A agência crescia ano a ano, tinha boa reputação no mercado, bons clientes, era atuante no setor. O momento era positivo e próspero.

O primeiro sinal de alerta foi um forte cansaço ao final do dia. Isso não era comum para mim. Mesmo nos momentos de trabalho mais intenso, sempre me senti com ânimo e alegria. Nunca tive expediente. Minha vida pessoal e meu trabalho sempre andaram juntos.

Sempre achei um privilégio pensar a solução para um cliente enquanto passo férias na praia ou durante uma sessão de cinema. Da mesma forma, posso me sentir muito feliz e recompensada durante uma aula, treinamento ou reunião com clientes.

Justamente por acreditar que “quem gosta do que faz não precisa trabalhar”, decidi prestar atenção naquele cansaço inesperado. Observei durante semanas e percebi que ele ainda estava lá, tomando mais e mais tempo na minha rotina.

O assunto passou a ser foco das minhas conversas com meu marido, das sessões de terapia e de minhas meditações matinais. Enquanto eu me perguntava o que estava a acontecendo, meu corpo, coração e mente se manifestavam com mais e mais clareza.

Ao final de algumas reuniões, ouvia minha consciência denunciar: “não quero mais fazer isso”. Fiquei angustiada por um tempo. “Como assim? Eu sempre amei meu trabalho. Comunicação é minha paixão.” Cada cliente, cada texto e evento eram fontes de grande alegria. Agora essa… Poderia ter mergulhado no turbilhão da agenda e deixado pra lá, mas sentia que era preciso acolher e respeitar meu processo.

Depois de uns três meses de dúvidas e busca, a resposta veio espontânea: “não posso mais investir meu tempo, energia e conhecimento apenas para vender produtos, serviços e marcas. Quero continuar trabalhando com comunicação, mas com foco nas pessoas. Quero trabalhar para ampliar a consciência e contribuir para o bem estar nos relacionamentos”. Esse era o enunciado, forte e um tanto impreciso.

Lella Sá: Como fez essa mudança?

Vânia Bueno Cury: Minha mudança começou por procurar um lugar interno de tranqüilidade e confiança diante de um grande “NÃO SEI”.

Mudar começa com um abraço na incerteza. Eu realmente não sabia onde tudo aquilo me levaria, mas não era mais possível ficar passiva onde estava. Eu não tinha a menor ideia do que faria ou como faria, mas era preciso confiar e dar um passo.

Como já vinha conversando com meu marido (estava no meu segundo casamento há 1 ano quando tudo começou), foi essencial que ele compreendesse e apoiasse o meu momento. Não tive filhos, então deveria apenas cuidar de mim na transição que não tinha data para acabar. Felizmente, encontrei um companheiro apoiador para estar ao meu lado durante a travessia.

Mesmo com tantas incertezas, estava certa de que deveria voltar para a escola. Sempre gostei de estudar e fiz dezenas de cursos até então, mas achei que era o momento de consolidar e ampliar o meu aprendizado. Talvez uma mestrado, pensei.

Mas sem sócios e tocando uma empresa com funcionários e tantas responsabilidades seria muito difícil tocar a nova empreitada.

Não seria possível fazer uma travessia tão intensa carregando uma bagagem pesada. Eu precisaria abrir mão do que tinha.

Lella Sá: Quais foram os maiores desafios que passou para fazer essa transição?

Vânia Bueno Cury: O desapego é uma prática exigente. Posso dizer porque a encarei de frente durante alguns meses. Esse foi um desafio intenso: deixar o conhecido e confortável pelo novo desconhecido. Especialmente no meu caso, em que as pessoas não entendiam porque deixar o que estava dando certo.

Foram muitos passos, todos eles complexos. Comecei por comunicar minha decisão aos meus colaboradores. Eram pessoas muito queridas, alguns deles estavam comigo há mais de uma década e eram muito comprometidos. Minha decisão os afetaria diretamente e precisariam também se preparar. Em cada conversa era preciso acreditar mais e mais na voz do coração para dar sentido a cada uma das tristes despedidas.

Outro movimento penoso foi deixar nossa “casinha”. A Anima ocupou por 10 anos um espaço muito especial em Pinheiros. Era o nosso xodó. Havíamos investido em sete reformas e muitos cuidados para criar um oásis em São Paulo: uma casa de fundos antiga, com portas e janelas coloridas, mangueira no quintal, orquídeas nos muros e muita arte pela casa.

Eu realmente adorava aquele cantinho onde fizemos muitos e importantes projetos. Além do trabalho braçal que significa empacotar uma vida, havia o envolvimento emocional de revisitar todas aquelas experiências, relembrar parceiros, celebrar vitórias, valorizar cada aprendizado. Não foi fácil deixar tudo para trás.

Dias depois de tudo terminado, em casa continuei a receber telefonemas e pedidos dos clientes, dos jornalistas, dos fornecedores e me dei conta de que se não saísse de cena por um tempo, continuaria a fazer o que sempre fiz, mas sem estrutura. Seria um retrocesso. Resolvi, então, fazer um curso para reciclar o meu inglês. Meu enteado tinha se mudado há pouco com sua esposa para Cleveland, nos EUA. Era a alternativa mais simples. Reservei as passagens e segui para ficar 40 dias por lá. Seria um bom tempo para pensar na vida e assumir de vez a minha mudança.

Comecei o curso no campus da Case Western Reserve University. Já no final da minha estadia, fui à Weatherhead School of Management para, quem sabe, fazer um curso de final de semana nos dias que me restavam. Na secretaria me informaram que não havia workshops naquele momento, mas me entregaram o folheto de um mestrado. Tivemos então o seguinte diálogo:

“Um mestrado… (passei os olhos no programa e de cara gostei)… mas eu não moro aqui”, expliquei.

“Tudo bem, o curso é internacional e com atividades à distância. Você só precisará vir aqui algumas vezes por ano” a atendente esclareceu

Hum… Isso é bom, pensei. “Quando são as inscrições?”, perguntei pensando que talvez pudesse me organizar em alguns meses.

Ela disse: “As inscrições são agora”

“Agora? E quando será a primeira semana de imersão?” Continuei tentando saber qual seria o meu fôlego.

Ela respondeu com naturalidade: “As aulas começam no próximo sábado”.

Estávamos na 4a feira, e eu no ônibus de volta pra casa lendo e relendo aquele folheto com o coração disparado.

Encontrei meu marido, que por coincidência (se é que isso existe) passou apenas aquela semana comigo em Cleveland.

Ao ler o material, ele resumiu tudo o que eu estava sentindo ao dizer: “Mas isso é tudo o que você me disse que queria”. Pois era mesmo.

Dia seguinte ele foi comigo à entrevista e, mais uma vez, me deu todo o seu apoio. Ao saber que a escola me aceitaria, foi direto: “Acho que você deve fazer”

E foi assim que para minha total surpresa, terminei o curso de inglês na 6a feira, estava na primeira aula do mestrado no sábado e embarquei na semana seguinte de volta ao Brasil, sem mudar sequer a data da minha passagem. Estava ou não tudo escrito? Ainda me emociono ao relembrar este episódio mágico e me dar conta de que a vida é puro mistério.

O que a maioria dos meus colegas levaram 2 ou 3 anos para decidir, havia se descortinado pra mim em poucas horas, sem planejamento.

É, o desapego anda de mãos dadas com a confiança, a entrega e a fé.

Foram 18 meses de curso, muitos aprendizados, novos e bons amigos de diferentes partes do mundo e uma nova perspectiva profissional:

A partir de agora eu trabalharia com a comunicação para o desenvolvimento das pessoas e das organizações.

No dia da formatura, muito emocionada e feliz tive a certeza de que havia feito a escolha certa na hora exata.

Lella Sá: Como ficou a questão de grana em meio a incerteza?

Vânia Bueno Cury: Este é um aspecto muito importante para quem escolhe saltar no vazio. Venho de uma família batalhadora e com recursos limitados. Sempre fui muito independente e comecei a trabalhar aos 15 anos. Manter uma empresa com contas em dia nunca foi fácil, mas consegui criar uma reserva que me garantiria alguns meses de sobrevivência. Estar em um casamento estável com um companheiro maduro e generoso também foi essencial. Ele sempre respeitou minha autonomia, mas deixou claro que ser eu precisasse de ajuda, ele estaria ao meu lado. Sentia como uma rede de segurança e ainda sou muito grata por isso. De qualquer forma, apertei o cinto e mesmo durante o curso encontrei formas de continuar produtiva, fazendo consultorias e alguns freelas para ajudar nas despesas.

Reconheço que tive alguns privilégios, mas estou segura de que mesmo sem tantas alternativas teria feito a transição. Sinto que conhecer a si mesmo e estar conectado com a vontade de ter uma vida significativa é o que faz a diferença. Conheço pessoas com condições muito melhores que não teriam coragem. Assim como admiro aqueles que com muito menos realizam façanhas.

De qualquer forma, recomendo a busca de equilíbrio. Uma boa dose de audácia com responsabilidade. Um tanto de emoção, sem perder o senso de realidade, especialmente quando os impactos de nossas decisões podem afetar outras pessoas.

Lella Sá: Qual futuro você está ajudando a criar?

Vânia Bueno Cury: Me formei em 2009 e, desde então, fui tateando, tateando até encontrar um novo posicionamento e forma de trabalhar. Hoje sou consultora e facilitadora de processos de comunicação para o desenvolvimento de líderes e de organizações, compartilhando técnicas de diálogo, prevenção e transformação de conflitos, inteligência emocional, visão sistêmica e apreciativa, dentre outras. A comunicação está lá, mas em sua compreensão pragmática, isto é, a comunicação entendida como comportamento.

“Tudo o que você é, e não faz, diz ao mundo quem você é”.

Pesquisas mostram o quanto as empresas estão “doentes”. Os modelos de gestão baseados na pressão e alta competitividade estão chegando ao seu limite, expondo líderes e equipes a níveis de estresse e insatisfação que comprometem o bem estar e os resultados. Trabalho para que as pessoas desenvolvam formas de comunicação que facilitem a convivência e gerem ambientes de trabalho mais saudáveis e produtivos. A acolhida tem sido muito positiva.

Minha mais recente, e inesperada, experiência tem sido a sala de aula. Há 4 anos fui convidada para dar uma matéria na pós-graduação da FIA (FEA/USP) e, desde então, os convites não pararam de chegar. Além de cursos na FIA, dou aulas no Gestcorp (pós-graduação da ECA/USP), no projeto Pegassus da Universidade Federal de S Carlos, no MBA da Aberje e, recentemente, fui contratada para uma matéria optativa nos cursos de Economia e Administração de Empresas do Insper. Olha só, agora sou professora, algo que nunca imaginei.

Neste momento me sinto muito feliz. Comecei duas novas empreitadas: estou escrevendo um livro sobre convivência produtiva e, com 2 colegas do mestrado desenvolvendo uma pesquisa global sobre “o valor do comportamento positivo”.

Lella Sá: Que dicas você daria para quem quer ter um Trabalho com Significado?

Observe-se. A busca por um trabalho com significado começa pro conhecer-se: o que quero? no que acredito? o que vale a pena?

São essas questões essenciais e filosóficas que merecem atenção. A ditadura da rotina tende a criar muitos ruídos à nossa volta. A nos distanciar de nós mesmos.

Estamos sempre conectados, buscando reconhecimento e formas de prazer e alimentos que venham de fora.

É preciso aquietar-se e ficar em silêncio para ouvir a voz da nossa sabedoria interior. As respostas estão todas lá, em nossa consciência, mas nem sempre estamos prontos e abertos para ouvi-las. Descobri que de todas as formas de comunicação a mais desafiadora é aquele que deve acontecer consigo mesmo.

Esteja atenta aos sinais de seu corpo. Você se sente saudável? Tem energia para sair da cama e enfrentar mais um dia?

Se sim, ótimo sinal. Siga em frente. Se não, o que pode estar acontecendo? O mais importante é não ignorar o recado, só você pode cuidar disso.

Depois de refletir, conversar com alguém de sua confiança pode ajudar. Se ainda não tiver clareza, procure ajuda profissional. Processos terapêuticos podem fazer toda a diferença. Faço há muitos anos e recomendo.

Encontrei também na meditação um caminho maravilhoso. Falo de meditação sem qualquer conotação religiosa, mesmo que ela possa acontecer, mas como uma prática de autoconhecimento e autodesenvolvimento de altíssimo impacto. Existem dezenas de técnicas diferentes e cada um deve encontrar a que lhe atende melhor. Acredite, poucos minutos por dia, podem fazer a verdadeira revolução.

Conheço pessoas que depois de profundos períodos de desânimo e até depressão, reencontram a alegria de viver exatamente onde estavam. Muitas vezes a transformação que queremos só precisa acontecer dentro de nós.

Mudar prioridades, rever conceitos, mudar as lentes de nossos modelos mentais.

Uma última dica que aprendi nesse meu caminho: para mudar não é preciso destruir. É possível levantar vôo mesmo quando tudo está bem. É aí que entra o desapego.

Me sinto muito feliz nesse momento. Ouvi meu coração, corri riscos e estou colhendo frutos saborosos. Vivi e vivo momentos de desencanto, ansiedade e medo, isso é humano.

Mas estou inteira em tudo o que faço. Íntegra em cada momento e desafio. Estou pronta para o próximo chamado.


Se você quer fazer a sua transição para um Trabalho com Significado, faça o Programa Travessia.


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