[Fiz a Travessia] Saí do mundo corporativo para me sentir livre para poder realizar trabalhos diferentes uns dos outros.

A entrevistada de hoje é a Regina Hostin, da série “Fiz a Travessia”, um projeto para inspirar e incentivar pessoas a fazerem uma transição para serem mais felizes, satisfeitas e realizadas no trabalho e na vida.

Nome: Regina Hostin

Antes: Gerente de Comunicação Corporativa

Hoje: Facilitação de Diálogos, Escritora, Professora em cursos de pós-graduação, Mentora em processos de transição.

Lella Sá: Por que você faz o que você faz hoje?

Regina Hostin: Porque é o que realmente gosto de fazer hoje, me faz sentir útil, une meus talentos com paixões às necessidades de alguém. São atividades diferentes que conectam meus conhecimentos e me fazem ter uma vida conectada, pessoal e profissional.

Lella Sá: Por que você decidiu sair da onde estava?

Regina Hostin: Há 4 anos eu trabalhava numa empresa multinacional, e mais precisamente em 2011, estava na matriz em SP. Via minha família — marido, mãe, irmã, sobrinhos — somente aos finais de semana. Minha vida estava totalmente resumida a trabalho. Entrava cedo e saía tarde da empresa. Eu me permiti ter um ritmo que me sufocava. Definitivamente, não conseguia mais ficar tantas horas dentro daquelas paredes, enquanto o mundo parecia pulsar lá fora, paralelamente, e não de maneira integrada com o que eu fazia. Não via mais possibilidade de continuar a vender todo o meu tempo e postergar as coisas que mais gostava para o final de semana, para as férias, ou pior, para quando a aposentadoria chegasse. Decisão tomada. Depois das listas de prós e contras, de toda a ponderação e mais os apelos do meu coração eu largaria o trabalho. Desde 2010 comecei a planejar me desapegar de quem eu “ estava”. Em março de 2011 decidi sair. A primeira pergunta que me faziam era: “Para qual empresa você vai?” O difícil era olhar nos olhos das pessoas e perceber que, naquele momento, elas achavam que eu tinha pirado, quando afirmava que não ia para outra organização. “Vou para casa. Dar um tempo. Quem sabe viajar.” Fora da empresa, entre minha família e amigos também havia uma certa estranheza. Afinal, eu trabalhava numa organização conhecida, morava em São Paulo, tinha bons benefícios e algumas regalias, além do que, meu salário não era ruim. Em resumo, eu era aquela que sempre estudou em escola pública, trabalhou, fez uma faculdade e uma pós-graduação suadas, chegou num “baita” emprego, como diziam alguns, e agora largava tudo ao vento, sem ter muitas explicações. Minha mãe me apoiava, mas não sei se me entendia. Assim como quase todos ao meu redor, eu também tinha questionamentos internos. E quando as pessoas insistiam: “E depois?”, eu dizia: “Eu não sei”. Para alguns parecia aventura. Para mim, era só uma maneira de ver as coisas de outra forma, sem ter que ter tudo predeterminado. Aonde colocar minha energia diariamente ainda era uma incógnita, apesar de ter programado os primeiros passos após a saída. O que faria sentido no mundo do trabalho? Era a resposta que eu procurava.

Lella Sá: Como fez essa mudança?

Regina Hostin: Decidi começar com um trabalho de uma coach e com um sabático. Dei uma geral nas contas para analisar tudo o que dava para cortar e como me manteria nos meses sem trabalho. Peguei um caderninho que seria meu companheiro de jornada para anotar tudo que ia surgindo: insights, sugestões de livros, filmes, lugares que gostaria de visitar.Parecia que tinha uma represa de coisas que eu queria fazer. Depois optei por uma viagem para estudar. Consegui uma bolsa parcial e fui para oSchumacher College, na Inglaterra, estudar Alfabetização Ecológica. Eu queria algo que não tivesse nada a ver com minha área, que é a Comunicação. Queria ampliar minha visão sobre outros temas.

Depois de um mês e meio na Europa e 3 semanas de curso naquele lugar mágico, voltei ao Brasil. Fiquei uns meses me conectando com pessoas que há tempos não via, fazendo trabalhos manuais, aprendendo coisas novas e lendo. Depois de 4 meses viajei para a Índia e para a região dos Himalaias com um grupo. Queria ter contato com uma cultura totalmente diferente. Fiquei lá por 20 dias. Mas na volta da Índia ainda estava muito confusa.

Já haviam se passado 7 meses desde o começo do sabático. Participei de um processo em outra multinacional e acabei sendo contratada. Parecia que eu estava na contramão de tudo e de todos. Três meses depois e a possibilidade da empresa mudar-se para o Rio de Janeiro — e eu também — fizeram-me desistir. Deixei o trabalho mais uma vez. Tirei um peso de mim ao devolver as chaves do carro que a organização havia cedido, telefone, notebook e o crachá. Precisava de mais tempo para assimilar tudo. Faltavam poucos dias para o Natal de 2011 e um novo ciclo se abria. Rumei para casa. Desci a serra de Curitiba ouvindo a trilha do filme Na Natureza Selvagem. Dirigir naquele embalo me dava uma sensação de liberdade indescritível.

A alegria que senti ao deixar aquele emprego, mostrava-me que aquele não era o meu caminho. Mas qual seria? Estava claro que eu não me reconhecia mais naquela profissão e / ou na forma de realizar o trabalho. Pensava muito em voluntariar nas causas sociais. Mas também precisava de um trabalho que me remunerasse para cobrir meus custos fixos, que continuavam baixos. Percebia que conhecia pouco sobre o significado do trabalho em si. O que eu sabia, em resumo, era: nunca foi somente por dinheiro e sempre foi com o que amei. Com as experiências recentes havia entendido que: o trabalho não podia consumir toda a minha vida e nem separá-la em partes, sobretudo, precisava me dar a sensação de estar sendo útil a algo ou a alguém.

Chegou 2012, o meu caderninho de anotações estava quase cheio. E dentro de mim, as experiências das viagens se reviravam lentamente. Um ano depois do começo da jornada percebi que a pergunta que nasceu de uma insatisfação muito grande com o mundo profissional — Qual o sentido do trabalho? — tinha se multiplicado em outras: O que eu realmente vim fazer neste mundo? E qual trabalho pode contribuir com o que eu vim fazer aqui?

Com isso, o ponto perturbador não era estar dentro ou fora de uma empresa ou de uma ONG ou sob qualquer CNPJ.

O ponto é que a caminhada não se resumia mais a uma busca por um trabalho com sentido, mas sim a uma vida com significado. Eu não tinha resposta para a tradicional pergunta: “O que você está fazendo?” Não dava mais para responder que estava no sabático. E eu não estava mesmo. Ele tinha terminado quando voltei da Índia. Afastei-me de quase todos os conhecidos. Eu não queria mais perguntas. Mesmo tendo a família por perto, escolhi a solidão em pensamento. Por meses pensei infinitas possibilidades.Reconhecia o caos da Índia dentro de mim, mas não como um sentimento que outrora foi bom. Estava no meio de uma jornada e sem caminho de volta.

Minha maior vontade era sair pelo mundo de novo, porque em todas as viagens, independentemente do lugar e da distância, aprendi muito. Mas reconheci que precisava percorrer uma trajetória interna, diferentemente de tudo que já tinha feito. Era eu comigo mesma e, quem sabe, uma enferrujada bússola interna. E o destino? O destino era Eu.

Lella Sá: Quais foram os maiores desafios que passou para fazer essa transição?

Regina Hostin: Me sentia sozinha. Olhava para o lado e onde morava não conhecia ninguém para compartilhar meus sentimentos. Outro desafio era ainsegurança. Dizer não a um emprego que eu sabia que não queria mas dava um medo danado de todas as portas se fecharem depois. Me debatia por não conseguir ver um caminho. Fiquei mais uns 7 meses sem fazer praticamente nada.

Lella Sá: Como ficou a questão de grana em meio a incerteza?

Regina Hostin: Como fomos criados com a teoria de que “ vai faltar”, o dinheiro era sempre um motivo de insegurança. Eu ainda tinha minhas economias, mas tinha medo do dinheiro acabar e eu não ter como pagar um plano de saúde e as contas de casa, por exemplo (o que nunca aconteceu).

Lella Sá: Qual futuro você está ajudando a criar?

Regina Hostin: Acredito que um futuro onde as pessoas possam acreditar que é possível mudar, que a abundância jorra quando nos unimos, quepodemos viver de forma mais colaborativa. Eu escrevi o livro “Quando o hoje já não basta”, que conta toda esta trajetória, para encorajar as pessoas a darem um primeiro passo rumo a uma mudança. Leciono para compartilhar conhecimentos e atuo com facilitação de diálogo, pois acredito que é dialogando que nos conectamos e aumentamos nosso consciência sobre o assunto que estiver no círculo de conversa. Na roda acontece algo mágico.

É indescritível a sensação de sentir-se livre para poder realizar trabalhos tão diferentes uns dos outros. O trabalho não está mais separado da minha vida. Ele me permite viver plenamente outras coisas que gosto. Elas não são mais postergadas para o final de semana. Alegro-me ver sentido nesta nova vida mais integrada com o todo, ter tempo, sentir-me útil e fazer o que amo.

Lella Sá: Que dicas você daria para quem quer ter um Trabalho com Significado?

Regina Hostin: É possível mudar. E não estamos falando de jogar tudo para o alto de uma hora para a outra. Cada pessoa tem um tempo interno. O importante é ir rumando e dar passos em direção ao que quer e gosta. Ah, e outro item fundamental: uma transição pode até começar no mundo do trabalho, mas com certeza ela fará você repensar outros pontos da sua vida, como: uso do tempo, alimentação, relações familiares, saúde, relação com o meio ambiente e outros.

Dicas:

  • Seja grato pelo que tem, pelo que está perto: olhe mais para isso do que para o que falta.
  • Tenha mesmo um caderninho para anotações
  • Cuide da mente. Medite diariamente. Comece aos poucos;
  • Preste atenção na respiração;
  • Abra espaço na vida. Crie tempo;
  • Olhe para o seu prato. Respeite o seu corpo, respeite a natureza. Não desperdice;
  • Livre-se do que não quer ou não usa mais. Doe;
  • Livre-se de pensamentos e comportamentos que não servem mais. Deixe-os ir;
  • Peça ajuda. Um psicólogo, um coach, um amigo;
  • Aceite o não saber. Nem tudo será planejado;
  • Não vá muito fundo dentro de si. Não se investigue demais;
  • Confie nos sinais que o caminho mostra e no seu Eu;
  • Confie em você.

Se você quer fazer a sua transição para um Trabalho com Significado, faça o Programa Travessia.


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