A barata

Juliana chegou em casa tarde da noite, cansada do trabalho. Acendeu a luz da sala, jogou a bolsa na cadeira e sentou no sofá. Ligou a TV, tirando os sapatos com o pé. Foi quando a viu, na parede, quase brilhando.

A primeira reação foi a de susto. Juliana gritou fino. O suficiente para a barata perceber a invasão da intrusa e correr rumo ao teto. Depois, Juliana teve nojo. Ela não teme baratas, mas fica arrepiada só de pensar nelas.

“Maldita hora em que fui dar o pé na bunda do Zoinho. Se aquele imprestável ainda tivesse aqui pelo menos serviria para matar esse bicho nojento”, pensou Juliana. Zoinho era o ex-marido, colocado no olho da rua depois de ser flagrado com a vizinha na cama do casal. Pelados, é claro.

Juliana pegou o sapato e se aproximou da parede. A barata subiu um pouco, fugindo do ângulo de ataque. As duas guerreiras se encararam pela primeira vez na noite, estudando-se mutuamente. “Era só o que me faltava”, pensou Juliana. “Filha da puta”, pensou a barata.

Juliana atacou primeiro. A moça atirou o sapato na parede, mas errou o alvo. A barata correu em zigue-zague, procurando um esconderijo. Achou abrigo atrás da cortina manchada pelo tempo.

Irritada, Juliana resolveu jogar pesado. Foi para o banheiro e voltou com uma lata de inseticida, daquele mais venenoso. Arrancou a tampa como quem carrega uma arma e se preparou. A barata, que tem memória fraca, saiu devagarzinho detrás da cortina, sem saber direito porque tinha parado ali.

As duas se encararam de novo. Para Juliana, uma velha inimiga. Para a barata, uma nova vilã. E o inseto nem teve tempo de conhecer a rival. Com a agilidade de empacotadora de supermercado, Juliana disparou o spray bem em cima da barata.

A barata correu de volta para a cortina, com o corpo ardendo. Respirar ficou difícil. O mundo pareceu girar e as coisas, sem sentido, cantavam para ela.

Uma voz familiar ecoou na cabeça da barata, embora ela não soubesse quem estivesse falando e tampouco conseguisse distinguir os sons. Sem forças, a barata caiu, e a queda pareceu durar a vida toda. O chão estava doce como algodão.

A barata não viu o sapato de bico fino bater-lhe nas costas com tal força que as tripas grudaram no tapete. Ela não sentiu dor e nem alívio. Teve apenas consciência de que era barata e que precisava sair dali.

O sapato bateu de novo, e de novo e de novo. E a barata sorriu, com as antenas despedaçadas. Sorriu porque deixara de ser barata. Já não era mais nada.

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