A estrada
A freada foi tão brusca que a pressão do cinto sobre o peito de Jorge deixou uma marca que seria visível pelos próximos dias. O carro reagiu bem e, apesar de uma cambaleada, conseguiu parar centímetros antes da bifurcação.
Estava sozinho, é claro, como achou que estaria. Ninguém se arriscaria a pegar aquela estrada poeirenta no fim do mundo. O GPS e o celular ficaram sem sinal muitos quilômetros atrás. Não via um carro, uma casa ou uma pessoa há pelo menos duas horas. Nem mesmo um gato sarnento ou um cachorro manco cruzou o seu caminho. Só tinha os pensamentos como companhia, o que não era nada bom.
Tinha uma decisão a tomar: esquerda ou direita. Simples? Mas nem fodendo. Essa decisão era tudo o que ele tinha na vida. Era tudo o que ele havia construído. Todos os sonhos, todo o trabalho, todas as vidas. Tudo.
E Jorge ficou olhando aqueles caminhos por muito tempo. Qualquer lado que seguisse acabaria de vez com um pedaço do que ele foi e do que ele seria. Por isso o medo e a angústia. Por isso a dor.
Ele então lembrou a vez em que se perdeu na praia quando era criança. O desespero e a desesperança tomaram conta daquele corpinho frágil. Um terror tão profundo invadiu a sua alma que mesmo muitos anos depois ele acordava assustado no meio da noite, sem saber direito o motivo, sentindo-se tão desamparado quanto naqueles infindáveis minutos.
Mas passou. A mãe o achou logo depois. Estava tão aterrorizada que pouco ralhou com ele. E as férias continuaram, e a vida seguiu. Até essa estrada. Até essa bifurcação. Até esses caminhos. Esquerda ou direita. Simples?
Então ele se decidiu. Engatou a primeira, pisou fundo no acelerador e foi, sem olhar para trás ou para os lados, para não ver o que estava deixando e o que havia no outro caminho.