Visita para Dona Almerinda

Toc, toc, toc!
- Quem é?
- É a Morte?
- E o que ocê qué?
- Eu vim ver a Dona Almerinda.
- A Dona Almerinda tá duenti e num pode recebê visita naum.
- Eu sei que ela está doente e é por isso mesmo que eu vim.
- Sei.
- Vou acabar com o sofrimento dela em um minuto. É só você abrir a porta.
- Calma lá, queridinha! Cumé que vô sabê se ocê é mesmo a Morte. Ocê pode ser alguém querendo me assaltá!
- Você vai ter que confiar em mim.
- Cunfiá em ocê??? Tá lôca???? Eu num cunfio nem na minha sombra, num vou cunfiá em quem eu nunca vi.
- Um dia você me verá, pode ter certeza disso.
- Madame, o papo tá bom mas agora eu tenho que ir. Deixei o fijão no fogo. Me deixa o seu telefone que eu pido pra Dona Almerinda te ligá assim que ela miorá.
- Eu não tenho telefone.
- Como assim num tem telefone? Hoje em dia todo mundo tem um telefone. Bem, se é assim, passe otro dia. Quem sabe a Dona Almerinda tá meió e pode te atendê.
- Eu não vou sair daqui até falar com ela.
- Ó, dona, cê tá cumeçando a me enchê. Se ocê num saí da minha porta eu vou chamá a pulícia.
- E se você não me deixar entrar agora eu vou te levar no lugar da Dona Almerinda.
- Quem ocê pensa que é pra me ameaçá desse jeito?
- Eu sou a Morte.
- Grandes coisa. Ocê acha que é mió que eu só pruquê é a Morte? Vou te dizer uma coisa, espertinha. Aqui nessa casa ocê num vai entrá, nem hoje e nem nunca.
- Tudo bem, mas estarei esperando na porta. E assim que você ou a Dona Almerinda saírem, nós daremos um passeio.
- Então é mió esperá sentada pra num cansá.
- Não se preocupe. Tenho a vida toda para esperar.
- Ocê num tem nada mió prá fazê naum? Tem tanta gente que merece a sua visita.
- Do meu trabalho cuido eu.
- Ocê num vai embora mesmo, né?
- Não.
- E se a gente fizé um acordo.
- Não faço acordos.
- Ocê num facilita também!
- Eu sou inexorável. Não preciso facilitar.
- Ocê é o quê?
- Deixa pra lá. E pense bem. A Dona Almerinda está velha e doente. Chegou a hora dela me conhecer. Não há nada que possa mudar isso.
- Mas eu tenho medo.
- Medo de quê?
- De que ocê veio me pegá.
- Mas eu já disse que não vim por sua causa.
- Num acredito.
- Só tem um jeito de você saber que estou dizendo a verdade: abrindo esta porta.
- Ai meu Jisuis, ai meu Jisuis!
- Confie em mim.
- Ocê jura que num veio me pegá?
- Juro.
- Tá bom. Vou abrir.
Click. Nhéééééémmmmm.
- Pode entrá.
- Obrigada.
- Ei, pruquê ocê tá sigurando a minha mão.
- Porque nós vamos passear.