A profundidade de “It: a coisa” (ou: por que este se tornou meu filme de terror favorito)

Aviso: minhas unhas roídas são muito mais eloquentes do que eu, aqui, neste texto. E ele contém spoilers gigantescos.

Ver “It: a Coisa” é uma experiência de horror legítima, sobretudo porque as produções recentes nos acostumaram a roteiros toscos e sustos mal dados (ainda assim, sustos). De modo que, no fim, a sensação era de tempo perdido.

No desespero, acabei recorrendo a filmes já vistos, como o ultraperturbador “Os Outros”. Queria recuperar o gosto pelo terror, gênero que me atrai desde bem cedo (para a infelicidade da família, obrigada a lidar com uma pequena insone paranoica).

Mas “It” é maravilhosamente acima da média. E não só porque ele dá um medo dos diabos.

É difícil adaptar um livro tão denso — são 1.138 páginas — mantendo a história fiel, renovando algumas passagens e bancando cenas absolutamente sinistras que evocam bullying, racismo, sexualidade, estupro, abuso parental e pais assassinados, tudo isso em tempos de politicamente correto e de censura.

Além da competência técnica e das boas soluções do roteiro, o filme tem momentos hilários e bem doces (o que é importante para torná-lo suportável). Bônus: vem com uma ótima trilha sonora oitentista, de The Cure a Anthrax.

Mas a verdade é que nenhum desses artifícios me desviou do mal-estar que senti ao assisti-lo. E esse embrulho no estômago não está na conta do palhaço maldito. Pennywise é horrível e devora criancinhas, sim. Mas, para mim, ele é apenas uma metáfora que ajuda a dar conta do ímpeto materno e paterno de “engolir” os filhos, tema que captura minha atenção.

Em dois contextos isso fica bastante claro. No primeiro, vemos Eddie (Jack Dylan Grazer), uma das crianças, ser dominado por uma mãe superprotetora. Ela inventa doenças para o menino e, assim, o impede de sair de casa.

No segundo, a única menina do bando, Beverly (Sophia Lillis), é tratada como “a garotinha do papai”, que deve ser intocada por outros homens, dado que ele é o único que pode dispor de seu corpo.

São essas as crianças que conseguem colocar Pennywise para correr.

Na lógica criada por Stephen King, o palhaço se alimenta exclusivamente de medo, enquanto os adolescentes experimentam terrores reais no cotidiano. Era pra eles serem vítimas perfeitas, certo?

Na prática, não é bem isso que acontece. Quando a trupe consegue dominar o temor evocado pelo palhaço, pode destroçar esse sentimento também dentro de casa. Ou vice-versa. Ou tudo junto, como é mais provável. Liquidar o vilão tem a ver com não lhe dar poder algum.

Descobrem, assim, que se emancipar e deixar de ser objeto do outro é dolorido, difícil, mas é também a única escolha que permite continuar vivendo.

Para mim, “It: a Coisa” é o filme de terror mais verdadeiro e profundo dos últimos tempos.