Amor aquém da guerra

(Este conto foi escrito há alguns anos e publicado em uma revista eletrônica em língua inglesa que não existe mais.)

I

— Quer casar comigo?

Ele queria dizer que a amava, que ela era tudo pra ele, que não poderia viver sem ela, que a guerra não iria separá-los, que iriam viver juntos, que não havia nada no mundo além dela.

Um breve silêncio.

Ela queria dizer que o amava, que estava louca por ele, que só pensava nele, que queria ir para bem longe com ele, que queria amá-lo, beijá-lo, queria sua casa, seus filhos, sua vida.

— Sim.

Foi tudo o que disse.

II

Ele andava sobre os corpos, horrorizado. É essa a humanidade? É pra isso que nascemos? Matarmos uns aos outros. Aviões detonam as casas que hasteiam a bandeira branca. Nossos próprios soldados matando os médicos inimigos em campo. Queria berrar, chorar, correr para longe daquele inferno congelado. Mas não berrou, nem chorou, nem correu. Lutou, lutou na esperança de sobreviver, de poder voltar para sua noiva, para quem não podia enviar cartas, lutou, porque não havia outra opção, lutou, porque era por isso que estava lá.

III

— Eu me casei.

Ela queria dizer que ainda o amava, que fugiria com ele, que só se casou porque a família a obrigara, mas que sabia que ele estava vivo.

— Então, adeus.

Ele queria dizer que ainda a amava, que nada disso importava, que fugiria com ela, que foi ela que o manteve vivo na Itália, que era por ela que seu coração batia. Mas não disse nada disso.

Ela se casou. Nunca amou o marido, vivia triste. Desquitou décadas depois, mas nunca se recuperou.

Ele nunca mais amou outra mulher. Viveu solitário até o fim da vida, tentando entender porque é mais fácil guerrear do que amar.