Casamento no civil é só um papel? | LGBTQI+

Há alguns dias , viralizou na internet uma matéria com uma recomendação de uma membra da OAB — Ordem dos Advogados do Brasil, para que, diante do cenário político previsto para o próximo ano, os casais formados por pessoas do mesmo gênero “antecipassem” seus casamentos civis para este ano, diante da possibilidade de perder esse “direito” na gestão que assumirá a condução do país em 2019. Caso não saiba do que estou falando, tá aqui.

Depois da publicação da matéria, e mesmo antes disso, assim que você sabe quem foi eleito, já se percebia na galera LGBTQI+ este movimento. Até aí, tudo bem.

Fiquei bastante “surpresa”, no entanto, por encontrar entre os membros desta comunidade, críticas sobre este movimento. Críticas aos casais. Várias. Algumas, e estas foram as que mais me chamaram a atenção, falam sobre estes casais estarem cedendo à uma suposta “estatização do amor”, coisa que, se críticos, deveríamos combater (leia-se: não casar, tomar cuidado com este “impulso”, coisas assim…)

Sinceramente, eu definiria estas críticas direcionadas aos casais de duas coisas: ingenuidade ou irresponsabilidade. Sabe por quê?

Porque em algumas ocasiões — e que bom seria se fosse em todas — há a parte do amor também, dentro de uma perspectiva “não possessiva” do cuidado.

A gente se ama e também se cuida :-)

O “casamento estatizado”, como disseram, realmente “cuida” de muitas coisas para uma família que pretende construir coisas juntas e ter uma dinâmica de co-responsabilidades diversas, como a de criar uma criança conjuntamente, por exemplo, sendo do mesmo gênero.

Outros documentos desmembram dessa ideia. Tipo, o de “maternidade socioafetiva”.

É um documento que “atesta” ou “garante” que eu amo Gabriela e que tenho responsabilidades com Amora, a bebê mais fofa do planeta que veio ao mundo em um modelo familiar não convencional? Óbvio que não. Mas são estes documentos que agilizam processos e agilizariam outros, em minha falta, por exemplo, numa situação extrema. Digo isso como quem também acaba de passar por um processo de resolução de burocracias, após o falecimento do meu pai.

Acreditem! O fato de estar tudo certinho, “no papel” poupou tempo de muitas coisas que, cada vez que a gente encosta, dói. Numa situação de perda, ter que ficar “comprovando”, discutindo e brigando por coisas óbvias é bem ruim. Dilacera….

Assim como também não é um papel que garante a ausência da “sobrecarga emocional” pelos casamentos antecipados, não é mesmo?! Porque isso tem sido mencionado nestas críticas. Mas, vamos lá… muita gente sem este documento nutre sobrecargas diversas em relacionamentos ruins diversos. Uma coisa não define a outra. Generalizações nesse sentido precisam ser bastante revistas. Bastante.

Ainda que eu questione a “estatização” das relações a partir dessa burocratização, vivo NESTA sociedade, que se organiza dessa forma. Portanto, pelo cuidado entre nós, casar no civil foi o que escolhemos fazer. Já tínhamos escolhido, na verdade. Mas sim, antecipamos. Porque se pode acontecer, pode acontecer. Esta matéria aqui (para assinantes e/ou usuários cadastrados) tem uma informação importante neste sentido: "a jurisprudência que garante o casamento de pessoas do mesmo gênero só poderia ser revertida se o Congresso aprovasse uma lei impedindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo". É difícil acontecer? Pode ser. Impossível? Não.

Obviamente, gostaríamos de ter o privilégio de poder casar apenas por amor. Mas, infelizmente, este ainda não é o mundo que vivemos. Tomara que seja um dia. Tomara que seja para Amora.

Nós decidimos simplesmente não querer correr um risco.

E galera que tá se oferecendo pra somar com seus trabalhos nestes eventos todos até o fim do ano, seja fazendo de graça, seja encaixando agendas malucas… Continuem! Essa rede é puro cuidado e afeto. Tá bonito! 😘

Nossa aliança tem a nossa doçura: "Gabi ❤ Mari"