A noite é a melhor de todas as companhias

uma coruja atônita numa arvore

Aconteceu há milhares e milhares de anos. O homem, baseado em toda sua capacidade de percepção e inteligência que o diferencia, decidiu que as noites seriam o período do descanso. Por isso, passou a utilizar as intermináveis horas de sol a pino para ralar, suar, trabalhar e se matar para, a noite, fechar os olhos e entregar-se aos sonhos de um dia não precisar mais realizar tais tarefas.

A noite, coitada, viu-se sozinha. Desamparada, recebia por singela companhia apenas os ilustres animais sinistros da escuridão. Asas de morcego, bruxuleantes, farfalhando pela sombra infinita, seguidas dos olhares astutos das corujas ao uivar dos lobos.

Dizem que, certa vez, uma dessas corujas decidiu ir além de sua natureza. Ficou acordada até meio dia, quando, no final de seu plano de observação, deparou-se com uma pequena e arfante formiga operária, que acabara de dar uma pausa. Ficou confusa, por não entender exatamente os motivos que levavam o inseto à atitude.

“Formiga, minha amiga” — Disse-lhe. “Mesmo no máximo de minha inteligência e sabedoria perante os animais. Mesmo com minha astúcia e sagacidade, tornando-me referência de cultura em todos os desenhos animados e Zelda, não consigo compreender sua decisão de trabalhar sob o sol escaldante, carregando todo este peso nas costas, sem conseguir uma brisa ou sereno para refrescá-la. Por que trabalhas de dia?”

A formiga, espantada com a gigantesca superioridade do animal, tentou pensar, mas sentiu que seus pensamentos estavam já programados. Era como se já soubesse o que dizer, neste tipo de situação, desde o nascimento.

“Não sei, coruja. Todas as outras formigas operárias assim o fazem, então eu faço também”.

A sábia ave percebeu que algo estava errado. Afinal, não conseguia encontrar maior felicidade que passar as noites calmas e tranquilas em momentos eternos de reflexão e trabalho leve. E a formiga percebeu que precisava arrotar mais um pensamento que, subitamente, pareceu brotar, como que incutido externamente, em seu minúsculo cérebro:

“Mas e você? Não sabia que a noite foi feita para dormir? Você deveria acordar cedo todos os dias e dedicar-se ao trabalho duro! Passar as noites como passas, acaba com toda a sua produção e, pior, pode acabar com sua vida! É uma grande burrice!”

A coruja ficou atônita. Subitamente, percebeu que formigas operárias eram, provavelmente em maioria, estúpidas. Decidiu que não havia ponto em argumentar. Afinal, ela sabia que, dali a pouco, encontraria novamente sua principal companheira, a noite, com quem poderia passar mais maravilhosas horas de silêncio, isolada da estupidez do mundo e dos tabus que o controlam.

Felipe Neto