Violão, cachaça e rock’n’roll

As crianças(José Antônio Rimes e Antônio Carlos Rosa de Oliveira) na capa do antológico disco ‘Clube da Esquina’, de 1972

Foi assim que nasceu o Clube da Esquina, com encontros de jovens mineiros e barulhentos em uma esquina de Belo Horizonte. Clube mesmo, nunca existiu.

Na esquina das ruas Divinópolis com Paraisópolis, em Belo Horizonte, nunca houve um clube. Quem andava por lá eram uns jovens barulhentos com violões e garrafas de cachaça, curtidores de Beatles e rock progressivo, pensadores da cultura e da política de um país nas mãos dos generais.

Milton Nascimento, um dos mais velhos, era o ‘Bituca’ de Três Pontas, no interior de Minas Gerais. Havia chegado a Belo Horizonte para ficar e virar estrela. Estava instalado em uma pensão no Edifício Levy, na Avenida Amazonas. Era um roqueiro nada famoso, integrante da banda W`s Boys. Na mesma pensão moravam Márcio Borges, que passou a fazer letras com o novo amigo, e Lô Borges, que estudava música com o guitarrista Toninho Horta.

Eles não sabiam mas, sempre que desciam com seus violões para a famosa esquina do bairro pacato de Santa Teresa, criavam aos pedaços uma espécie de movimento que colocaria a música mineira no mapa. Márcio, de tanto ter de responder à própria mãe que queria saber por onde andavam os filhos, teve a ideia em um relâmpago: “Devem estar lá pelo ‘Clube da Esquina’”.

O nome foi usado em 1972 para batizar o primeiro grande trabalho de Milton Nascimento, que arrastou para o estúdio da EMI um Lô Borges assustado mas talentoso, de apenas 17 anos. A capa trazia duas crianças parecidas com o ainda Bituca sentado ao lado do amigo Lô na beira de uma estrada em Nova Friburgo. Outros ‘sócios’ mais recentes do Clube da Esquina, como o letrista Ronaldo Bastos e o pianista Wagner Tiso, também participaram do LP.

Lô Borges lembra de seu prematuro início de carreira com o saudosismo e doses de reverência ao parceiro. Ele começou a admirar Milton Nascimento logo aos 12 anos, quando formava com o amigo Beto Guedes um grupo que tocava covers dos Beatles chamado The Beavers. Milton, no começo, ia aos ensaios só para dizer que aquilo tudo era bobagem, que deviam tocar músicas brasileiras. A insistência foi, aos poucos, vencendo a dupla pelo cansaço. “O Bituca queria mesmo era que a gente tocasse as músicas de Dorival Caymmi. Me convencer era mais fácil, mas o Beto não gostava nem de ouvir falar nessas coisas naquela época”, lembrou Lô em uma entrevista ao Jornal da Tarde de 1998. Milton, o ‘mala sem alça’ dos ensaios do Beavers, pressentia ali a origem do mais importante grupo de compositores mineiros.

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