Marco Zero

Foram 15 anos em SP.

Cheguei numa cidade que mal conhecia, sobre a qual a maioria dos cariocas tinha preconceito, e me encantei com sua lista infindável de qualidades, com o ambiente profissional, com as oportunidades de carreira, com os amigos que fiz.

Adorei e aproveitei cada um dos anos que passei lá. Mas sempre tive a vontade, a certeza de que ia voltar para o Rio. Não porque São Paulo fosse pior, mas porque o Rio era a minha cidade. Cidade escolhida. Pai mineiro, mãe argentina e eu nascido nos Estados Unidos. A gente podia ter ido parar em qualquer lugar, mas meus pais escolheram o Rio e eu também.

Não era a primeira vez que isso tinha me acontecido. Antes disso, na década de 90, foram dois anos maravilhosos em Nova York. Outra cidade que mal conhecia e que aprendi a adorar. Por lá poderia ter ficado após o mestrado, mas decidi voltar para o Brasil.

Por quê? Difícil resumir.

São muitos pontos. Mas o principal é o amor incondicional por este país e esta cidade. O entendimento de que em todos os lugares sempre teremos um conjunto de problemas e que você precisa escolher com quais vai preferir lidar. E acima de tudo a consciência do privilégio de ter tido acesso as ferramentas para a vida até aqui e um censo de dever e retribuição.

Se as coisas estão ruins, se há problemas, o que eu, o que você, o que nós podemos fazer para tentar resolver, melhorar, contribuir?

Chegando ao Brasil na década de 90 com uma especialização em mídias interativas, num mercado que ainda iria se formar, fui buscando pares, fui buscando eco. Encontrando as primeiras pessoas, as primeiras listas de discussão, as primeiras associações profissionais, muitos artigos, muitas palestras, aulas, empresas, muita conversa, muito trabalho, ajudando na construção do mercado.

Ao voltar de São Paulo para o Rio em 2015, me senti novamente frente à um grande (re) começo. Um país em ruínas, um mercado estilhaçado uma cidade tentando se reerguer.

Como nos anos 90, voltei a procurar eco e pessoas com esta mesma visão de mundo. Com uma sócia corajosa, abri uma agência de publicidade na cidade em que todas as agências fechavam, no mercado em seu pior momento e o país na sua pior recessão.

Eu não era o único ‘maluco’ com essa mentalidade. Outros foram aparecendo. Muitos na realidade. Todos, cada um em sua medida, com o mesmo objetivo de querer ajudar, construir, ou simplesmente de poder viver no lugar que escolheram.

Uma destes ‘loucos’ que encontrei pelo mercado foi Fátima Rendeiro. Colega de mercado, veterana junto comigo dessa cruzada, nossos caminhos pouco tinham se cruzado, talvez justamente por estarmos em cidades diferentes por tantos anos.

Com Fátima a identificação pelo momento de vida, pela visão de mercado e pela vontade de contribuir de alguma forma para provocar uma mudança positiva, foi total.

Muitos cafés, muitos papos, muitas idéias. Em meio às alternativas, Fátima trouxe o desejo de fazer um evento que simbolizasse o entendimento do momento, a vontade de (re) construir. Uma oportunidade para reunir as diferentes vozes que se juntam na vontade de mudar o seu entorno. Com a curadoria de Fátima, organização do Grupo de Mídia do Rio de Janeiro e um vasto auxílio luxuoso para a realização, de apoiadores a palestrantes, o evento foi um marco. Foi simbólico.

O lugar escolhido? Mais apropriado impossível. O Museu do Amanhã, símbolo máximo da esperança e de um novo Rio, incrustado onde a história da cidade começou, mais de 500 anos atrás, apontando para o futuro. E o nome do evento, mais apropriado ainda: Marco Zero.

Marco Zero, porque estamos no marco zero de uma nova política, nova economia, novo mercado publicitário, de um novo momento de vida. Cheios de incertezas e, com certeza, perdidos sobre como será daqui pra frente. Como todo marco zero, todo recomeço, temos os destroços do que fica para trás e nas mãos a oportunidade singular de estarmos todos juntos novamente no mesmo ponto de partida, com todas as possibilidades dispostas à nossa frente.

Feliz Marco Zero para todos :)