Assentos do Ônibus

Leonardo Cristiano
Nov 6 · 3 min read

Carla tinha acabado de ser demitida. Entrou no ônibus ainda cabisbaixa, não deu boa tarde pro motorista, como era de costume fazer — até porque quando ele normalmente saia do trabalho já era de noite — , entregou uma nota de cinco, aguardou o troco, pegou seus setenta centavos, passou pela catraca e procurou um assento. Avistou dois assentos livres lá no fundo, mas não se sentia com energia de caminhar até lá, tamborilando no ritmo do ônibus. Sentou-se no assento amarelo, ao lado de uma senhora e analisou pela última vez seu crachá da firma.

Ao fundo, atrás dos assentos livres, dois amigos conversavam, mas nada de interessante. Ao lado deles, Seu Euclides dormia. Seu rosto estampado no vidro facilmente estamparia a Vogue em um mundo paralelo onde caretas são mais sexy do que carões.

Emílio, sentado duas fileiras atrás da Carla, pouco se importava para esse mundo ou qualquer outro: seu foco estava na conversa de WhatsApp com o seu crush da semana. Sentia que dessa vez seria ser diferente, que essa moça era especial — e acabou sendo, só não do jeito que ele esperava. A sua única preocupação era manter a vigia. Olhava para os lados para garantir que ninguém notaria que ele procurava nudes para responder aos dela. Mas só encontrou fotos mal iluminadas com ângulos nada atraentes. Achou melhor deixa pra lá os nudes, o papo, a moça (que, por sua vez, tinha acabado de entrar em um metrô, mas essa é outra história). Olhou para frente, notou uma senhora puxando assunto com uma moça. A idosa balbuciava algo entre a viagem da sua neta para as cataratas e ter sido diagnosticada com catarata.

Quem se deu bem mesmo foi Antonio, que estava em um bom dia, daqueles que entram para a história dos bons dias. Encontrou o livro que tanto queria ler em um sebo perto do seu curso, o ônibus chegou junto com ele no ponto, o cobrador não tinha troco para sua nota de 50 e ganhou uma viagem de graça, o São Paulo vinha de boa fase, seu aniversário tava chegando e acabou de ser contratado.


Os assentos dos ônibus têm história. O 13a vive com inveja do companheiro ao lado, pois fica com o corredor, já o 13b sente que sua vida seria mais completa com a vista da janela. Enquanto o 05b, lá do outro lado, vive com saudade da 05a, que teve que voltar para a fábrica após uma criança rabiscar e furar ela todinha com uma caneta Bic. O 21a sonha com o dia que ninguém mais vai assentar a bunda nem na sua cabeça nem dos companheiros. O 23b sonha em se tornar o assento de um avião. Já 23a diz que isso é besteira. O 24a, vizinho dos dois, diz que é sim possível, que um primo seu conseguiu sair da vida de ônibus e conseguiu uma vaga em um Uber. O 24b acha que é tudo balela, que todos irão morrer ali mesmo no 657T-10. Chegou a essa conclusão quando, certa vez, um dos seus Sentantes lia Nietzsche. Repetia sempre para o 21a: "Viver é sofrer e sobreviver é encontrar a luz por trás de cada bunda suada que assentam em nós."

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