Cidade

Há muito tempo eu penso sobre a minha relação com o Rio. Nasci, cresci e aqui me estabeleci como pessoa. Foi aqui que dei meu primeiro beijo, que eu passei anos deprimido, foi aqui que eu tive meus melhores e piores momentos. Claro, eu não escolhi nada disso. Nunca saí do Rio por mais que eu quisesse. Nunca andei de avião, nunca sequer fui para outro estado. Após vinte anos nessa cidade o sentimento que fica é o de melancolia, prisão. Vi muito pouco do que poderia ter visto dessa cidade e mesmo assim já vi o suficiente. Abdicar desse lugar seria abdicar das dezenas de novas faces que se apresentarão pra mim, seria abdicar das dezenas de lugares que estou por visitar. Mas pouco me importa tudo isso. As ruas dessa cidade já não me fazem bem há muito tempo e eu preciso mudar esse panorama se eu não quiser envelhecer e morrer aqui. Não sou ingrato, muito pelo contrário, esse lugar me ofereceu o que tinha de melhor em questão de pessoas. Seria mentiroso de minha parte dizer que não me arrependo de nada, claro, tenho diversos arrependimentos. Arrependimentos esses que ficarão pra trás em algum momento, soterrados debaixo de uma grossa camada de alívio assim que eu puser meus pés além dos limites dessa cidade.
Penso comigo que esse peso, essa culpa e essa melancolia são resultados de anos morando nessa cidade que já não me conforta há tempos mas sempre sou surpreendido pelo fato cruel de que a cidade tem menos culpa do que eu tento colocar. Assim que eu puser meus pés pra fora daqui, carregarei comigo todos esses sentimentos pra onde eu for, não importa o quão longe do mar eu fique. Em parte isso me deixa receoso, mas não posso me prender a um lugar só por medo de que minha vida vá ser igual em todos os outros. Não quero morrer sufocado debaixo das areias sujas do Rio de Janeiro. O contorno de suas montanhas me deixa enjoado. Preciso urgentemente sair daqui. Pra ontem.
