Quarto

Evitava falar. O cobertor esquentava seu corpo trêmulo de frio. Seus olhos esbugalhados fitavam o quarto de um lado pro outro em um movimento repetitivo buscando o motivo pelo qual ele estava acordado às três da madrugada. Não havia conseguido dormir no dia anterior. Permaneceu imóvel na cama sem comer nem beber nada, apenas encarando o teto e olhando pros prédios vizinhos pela janela e ali ficou até pegar no sono sem perceber. Agora, assustado, se senta na cama e busca por seu isqueiro e maço de cigarros, a única coisa que ele se permitia consumir.

Há algumas semanas ele percebera que algo de estranho estava acontecendo em sua vida. As coisas começaram a perder o sentido, as palavras embaralhavam-se, as cores se misturavam e seu corpo se mostrava cada vez mais leve, como se estivesse prestes a ser soprado por qualquer vento que batesse naquele inverno. Não conseguia mais se expressar através de palavras ou gestos, apenas observava o mundo em sua volta. Andava pelas ruas encarando o chão, desviando de olhares, esbarrando em ombros aleatórios. Seu rosto pálido e magro ruborescia com o frio intenso que fazia naquela cidade, especialmente à noite, que é quando ele conseguia sair de sua casa. Havia desistido de agir há muito tempo, ele agora apenas espreitava pelos muros em busca de alguma coisa que não lhe era clara, mas incomodava sua mente como nada nunca incomodou. Algo que causava uma dor insuportável em sua cabeça, como se estivessem perfurando sua testa com uma broca. Ele não dormia, pelo menos não até estar completamente exausto. Ao invés disso ele sentava em sua cama com seu cigarro e ficava encarando o teto, o espelho à esquerda de sua cama e a janela, à direita. Nessa exata ordem. Teto. Espelho. Janela. Teto. Espelho. Janela. Até se cansar e finalmente adormecer, o que nem sempre funcionava.

Porém, naquela noite, algo de diferente aconteceu dentro dele. Olhava de um lado pro outro no quarto e não sabia o motivo pelo qual havia despertado novamente, mas sabia que ali seria a última vez que ele passaria por aquilo. Decidiu que a dor insuportável que tomava conta de sua cabeça não iria mais controlar seu comportamento. Optou por desaparecer. Por completo. Escolheu negar sua própria existência por pura covardia. Permaneceu inerte na cama, coberto, olhos fitando o quarto de um lado pro outro. Não iria mais existir.