[Mas eu não sou machista]

As entre linhas geram opressão.

Ontem dia das mães, eu como escritor de crônicas, movido pelo impulso de escrever algo tive a infeliz ideia de tentar homenagear as mães. Acordei cedo no domingo, tomei meu café da manhã, peguei minhas coisas e fui para casa dos meus pais para um almoço de dia das mães.

Durante o trajeto fui pensando e rascunhando um texto para as mães que intitulei de [Completa doação]. Quando cheguei ao meu ponto de destino o texto estava basicamente pronto. Caminhei até uma floricultura próximo ao ponto que desci, comprei flores para minha mãe e fui para casa feliz achando que estava contribuindo para o dia, doce engano.

Cheguei em casa almocei, passei algumas horas com a minha mãe e postei o texto que havia escrito. Durante esse processo estava conversando por mensagem com uma grande amiga, Alessandra. Mandei o link do texto a ela e tive a arrogância de dizer “Deseje um feliz dia das mães para sua mãe por mim, e mande esse texto a ela”. Que vexame.

Alessandra disse que iria ler o texto e desapareceu, o dia seguiu normalmente. Hoje quando acordei peguei meu celular para ler as mensagens, verificar emails e coisas do gênero e me deparei com a seguinte mensagem da Alessandra:

Fiquei assustado, envergonhado, e refleti. Re li o texto e realmente não enxergava ali este cenário que ela havia descrito, porém eu precisava saber quais eram os pontos do texto que ela havia visualizado esses aspectos, até porque meu objetivo como cronista é a desconstrução, luto pela liberdade e imaginar que um texto meu poderia ser usado para opressão me deixou bem chateado. Pedi a ela então que me sinalizasse as partes do texto em que havia machismo nas entrelinhas.

E então ela começou apontar através de audios. Irei transcrever aqui exatamente a fala dela, até porque eu como homem não posso falar sobre feminismo, pois fazendo o mesmo estarei silenciando uma mulher, e meu objetivo com esse texto não é abordar o feminismo e sim o machismo que está dentro da grande maioria dos homens e que não percebemos, é como uma ferrugem se não cuidada ela alastra e destrói. Nós homens precisamos entrar nesse processo de desconstrução, precisamos parar e ouvir o que essas mulheres tem a dizer, pois mesmo quando não há intenção de opressão podemos estar oprimindo, nosso papel é apenas um silenciar e respeitar.

É preciso tomar cuidado com a romantização da maternidade. Quando exaltamos que a mulher ao virar mãe escolhe se doar completamente ao filho, e a se dedicar exclusivamente a ele renegando outros aspectos de sua vida, estamos implicitamente exaltando um sacrifício: o sacrifício das demais facetas daquela mulher em prol da maternidade, onde ela deixa de ser todo o resto para ser somente mãe. Também estamos considerando que isso é uma escolha dela, negando que toda escolha é uma construção influenciada em grande parte pelo meio, pelo status quo. E que essa “doação por escolha”, na verdade é sim um sacrifício que lhe foi demandado pela sociedade, por sua criação, ou pela idealização do que é “ser mãe”. E como sacrifício, é bem mais lindo pra quem vê do que pra quem vive.
“Ser mãe é…” uma ilusão que não existe. Por mais que alguns pontos permeiem entre os casos, cada mãe é uma mãe, ao seu jeito, e teoricamente à sua escolha. Mas ao dizermos que “ser mãe é <insira aqui sua fantasia romantizada da maternidade>” estamos impondo nosso ponto de vista sobre todas as mães, todas as mulheres que ainda não o são, e todas as mulheres que não querem ser. Estamos tirando a liberdade dessas mulheres de escolherem ser mães ao seu jeito, de serem elas mesmas ao seu jeito. Estamos oprimindo. Estamos exercendo a manutenção do patriarcado, que se benefecia do apagamento dessa mulher e do seu recolhimento ao papel dado a ela: de mãe, apenas.
E sobre a paternidade? Curioso como não existe essa mesma visão romântica e altruísta sobre “o que é ser pai”, não? – Alessandra Miras

Eu cogitei deletar a minha publicação anterior mas ao mesmo tempo pensei que outros homens diariamente cometem o mesmo erro que eu cometi, e então resolvi utilizar do fato para alertar a todos homens que assim como eu não se julgam machistas, mas a realidade é que nós temos o dever de prestar atenção em cada ato nosso, pois é justamente na distração, na falta de análise dos atos que damos brecha para a opressão acontecer.