[Relatos de uma crise]

Crescer assusta. Eu não tinha muita dimensão do que era crescer. Eu sempre fui desde muito jovem uma pessoa digamos que futurista, sempre voltado para o meu futuro. O que eu seria e como seria quando me tornasse um adulto? Eu imaginava desde minha aparência física, até como seria meu trabalho, minha casa e minha família. Em cada momento da minha vida, obviamente, este cenário mudava, e isso foi acontecendo conforme a evolução do meu pensamento e do que eu estava me tornando.

Nasci em uma família bem estruturada, sem muito luxo, porém graças aos pais que tenho nunca me faltou absolutamente nada, não era filho único, tenho mais dois irmãos, fomos criados com base cristã, um tanto quanto paternalista, o que fez com que eu me tornasse uma pessoa paternalista por boa parte da minha vida.

Cresci vendo pais que se amavam, que se cuidavam. Tenho imenso orgulho do amor dos meus pais, é lindo ver a forma como eles conduzem suas vidas a uma dança de perfeita união, tanto que acredito que ambos sejam uma espécie referência para toda família.

Minha admiração pela minha família é imensa, sou grato pelo que sou hoje graças a todo um trabalho que foi feito antes mesmo do meu nascimento. Cresci com muito amor, e com muita proteção, mas muita proteção mesmo. Aprendi a dar valor ao que eu tinha, a ser generoso, amoroso e principalmente respeitar a todos que me cercam, valores importantíssimo para a condução de uma vida.

Me tornei um adolescente muito carregado de responsabilidades, me era exigido uma posição adulta, talvez uma espécie de preparo para a vida, com isso eu atribui a mim mesmo a postura de atender as expectativas criadas pelos meus pais, afinal de contas eles me proporcionaram ensino de qualidade em uma instituição privada, roupa, comida, lazer, moradia, afeto, saúde tudo que um ser humano precisa para viver bem, logo senti que era meu dever retribuir da melhor forma todo aquele investimento. Quando investimos em algo naturalmente esperamos um retorno maior do que o investimento, e como dar esse retorno em forma não monetária? Simples, atendendo as expectativas. E assim caminhei.

Eu não tirava notas altas no colégio porque ao ver meu boletim repleto de notas boas eu ficava satisfeito, não. Minha satisfação estava atrelada em mostrar para meus pais que a dedicação deles não estava sendo em vão. Estudei até a oitava serie em um colégio protestante, quando chegou o ensino médio, meu pai começou a querer me direcionar á uma vida profissional. Foi então que ele me sugeriu que fizesse um colégio técnico porque além de formado eu sairia com um conhecimento para talvez conseguir um emprego inicial. Ideia inteligente, sensata, racional, afinal eu tinha 14 anos e não tinha a menor ideia para que lado correr. Passei os três anos do ensino médio cursando técnico em informática. Detestei. Claro que conhecimento nunca é demais, porém o melhor legado desses três anos foi à certeza de que área da tecnologia, sem sombra de dúvidas não era para mim. Graças a Deus o ensino médio passou relativamente rápido. Lembro que quando cheguei ao terceiro ano, começou aquela pressão insuportável que as instituições de ensino preocupadas com o lucro do investimento em estudos juntamente o desespero dos pais para encaminhar os filhos para um futuro promissor, através da escolha de uma área de atuação.

Tínhamos dezessete anos e éramos “obrigados” a tomar uma decisão que mudaria o rumo de nossas vidas. Isso não lhe parece assustador? Pois para mim soa como uma bomba prestes a explodir em minhas mãos e eu precisando desarma-la enquanto havia tempo. Na época lembro que a escola ofereceu aos alunos do ensino médio um exame vocacional, afim de nos orientar para escolha de um curso, afinal de contas você não poderia perder tempo pensando muito, afinal o mundo não espera você escolher um curso, você tinha que arriscar, você tinha que correr.

Nunca me esquecerei do resultado do meu teste: Serviço social, psicologia e direito. Nunca nenhuma dessas opções passaram pela minha cabeça durante meu processo de crescimento. É muito engraçado pensar sobre isso, pois eu me lembro através uma fita cassete que meus pais gravaram de mim na primeira serie onde no fim do ano os alunos cantavam para os pais e um coral, e conforme os alunos iam entrando para se posicionar no palco a professora da turma falava o nome de cada um deles e o que eles gostariam de ser quando crescessem.

Professora Mônica, nunca me esquecerei dessa mulher, era como um anjo em forma de gente que nos acompanhava durante aquele ano, e lá estava ela anunciando: “Leonardo Gonçalves e ele disse que quer ser diplomata quando crescer.” Enquanto a grande maioria queria ser médico, policial, bombeiro, jogador de futebol, tinha até o Arthur debochado desde sempre que gostaria de ser presidente da república, e lá estava eu querendo ser diplomata, acho que o nome me encantava, com toda certeza eu não tenho a menor vocação para o mesmo e não tinha a menor dimensão da função e do estomago que um diplomata precisa ter.

Mas dez anos haviam se passado e eu não tinha a menor noção do que fazer. Neste momento meus pais começaram a me dar perspectivas de futuro conforme o curso que eu sugeria. Frases como “Mas se você fizer esse curso, você vai fazer o que? Dar aulas?”, “Mas esse curso não vai lhe dar dinheiro, você já viu alguém que ficou rico com isso?” e era um verdadeiro bombardeio de cenários catastróficos caso eu escolhesse algo errado. Ah! E tinha aquela famosa “Você não é rico, você não pode se dar ao luxo de fazer aquilo que você quer fazer.” Cruel né? Um choque de realidade que talvez eu não tenha engolido até hoje. Eu não tinha peito para ir contra aos pensamentos dos meus pais, eu sempre achei que eles sempre estariam certo. Eu não avaliava o processo de criação e formação do pensamento deles, no porque eles estavam me dizendo aquilo, eu não tinha esse discernimento. Mas enfim viver é isso aprender, nós nunca estamos preparados, nem eles estavam faz parte do processo de evolução do homem, como pessoa e cidadão.

Foi então que resolvi seguir os passos do meu pai e escolhi o curso de ciências contábeis, até porque existiam outras pessoas além do meu pai que me cercavam e haviam aparentemente obtido êxito com essa escolha. Comecei o curso, e até que não era tão ruim, eu consegui um emprego na área no primeiro mês, e as coisas começaram a fluir, e então passei acreditar que estava realmente tudo certo. Conclui minha graduação, passei no exame da ordem, exercia minha profissão e mais alguns anos se passaram.

Vinte e quatro anos e uma decisão inesperada eu tomei. “Vou pedir as contas e fazer um intercâmbio”. Houve choro e ranger de dentes, meu pai achou que eu estava louco, minha mãe que eu iria morrer em outro país, mas pela primeira vez na vida eu tive pulso de escolher algo e fazer aquilo que exatamente eu gostaria de fazer. Eu queria aprender um novo idioma, conhecer outros países, crescer como pessoa, estava cansado daquela vida de escritório onde eu ajudava outras pessoas encherem o rabo de dinheiro e muitas vezes era humilhado por conta de um erro banal.

Vinte e cinco anos e lá estava eu em outro continente, vivendo uma vida totalmente diferente e fora de tudo que eu havia imaginado, foi sem dúvida uma experiência enriquecedora. Foi durante esse processo de vida que eu me conheci, fui apresentado ao verdadeiro Leonardo que habitava em mim, e eu gostei dele, gostei de verdade. Voltei com outra cabeça, com outra visão de mundo, com novos valores. Acredito que um ser humano muito melhor do que eu era. E junto com a minha bagagem trouxe comigo aos vinte e seis anos a vontade de fazer psicologia e ser um escritor. E agora Leonardo? Nem eu mesmo sei como chegarei lá, mas para que as coisas aconteçam em nossas vidas uma coisa fundamental, é preciso movimentar-se.

São Paulo, 26 de Janeiro de 2017.