Então o mar

Espreguiço minhas pernas no branco amarelado da areia e respiro. Respiro como se pela primeira vez. Feito grito de recém-nascido diante das primeiras — de muitas! — dores mundanas. E fecho meus olhos para não ser capaz de sentir tanto. Saboto-me.

O desvelo desse novo ar, todo cheio de qualquer coisa de espanto, de cheiros, é um sorriso desmemoriado. Um sorriso de cuja existência eu não lembrava mais. Um sorriso quase não.

As ondas se abraçando à orla são as palmadas na infância. Brigam, atordoam, queixam, ensinam. O que ensinam ainda não se sabe. E o aguado sonoro é como esposa chorando. Inútil. Quando não invisível.

Lembro daquilo que há pouco me angustiava a pele, mas esqueço. Irrelevo. É tudo tão grande e tão tanto. A criatura mais prepotente que já tropeçou por esse plano seria eu, se me achasse importante, se continuasse com os olhos fechados para o mar só porque me fecharam alguma porta durante a vida.

Se é tudo tão grande, quão mesquinho eu preciso ser para olhar adentro. Se dentro é um espaço tão pequeno, uma janela entre átomos do Tempo. Quanta arrogância não caberia em mim, se continuasse acreditando que eu importo. Que eu atrapalho o balanço do universo. Ou ajudo.

E quão mesquinhos, então, são os homens que insistem em achar que são. Eu não.