O pássaro azul

Como se fosse um pedaço esquecido de mim. Um pedaço que se perdera há muito tempo, mas que acabou por me reencontrar. Como se fosse necessário naquele momento, um pássaro azul fez morada na beirada da minha janela. A janela que me serve como tela branca e se convida a tornar-se paisagem de pessoas. Um observatório de personagens e universos. A janela onde me ponho a desejar que os raios floresçam com mais força, que a chuva desça com mais brilho, que o sol se sinta à vontade para entrar — embora nem sempre convidado. Através do vidro, eu reflito acerca da imensidão dessas pessoas, que cruzam a rua sem olhar pros lados. Como se a certeza de um acidente fatal não as amedrontasse. Como se a própria certeza da morte fosse apenas mais uma das preocupações que elas evitam diariamente. À beira dessa janela que habita meu quarto, um pássaro azul fez morada.

Na tarde ensolarada e solitária de fevereiro, recebi um presente anônimo na forma de um bicho com penas. Seu azul era mais azul que o próprio céu. Como se a Natureza houvesse escolhido gastar sua paleta de cores naquele animal em vez de optar pela paisagem ou os olhos da pessoa amada. Essa pessoa que repousa em outros quartos e olha por outras janelas. Embora eu duvide muito que tenha conseguido encontrar, até hoje, vidro que pudesse refletir tanto quanto o da minha janela. E certamente não encontraria pássaro como aquele.

Com seus pequenos olhos vidrados em mim, mas sem dizer nada, o animal permaneceu ininterrupto. Enquanto a chuva não começasse outra vez, ele continuaria ali. A despedida das coisas bonitas é sempre a mais pesada. Embora muitas vezes elas retornem, já não serão as mesmas, nem mesmo nós seremos. É, portanto, de suma importância que não nos deixemos cair na tentação de olhar para o outro lado quando uma coisa bonita pousa sob a nossa janela, ou quando a chuva ainda não chega. Essa talvez seja a verdadeira lição do mestre tempo, e que só ele é capaz de ensinar. Duramente ensinar.

Ainda me é improvável ter aprendido. E, se aprendi, foi tarde demais. Contudo, o céu despejou seu banho diversas vezes durante vários dias. Eu, do meu quarto, não me molhei. Nem fechei a janela. O pássaro azul permanece ali, bonito e calado, ininterrupto. Ele ainda tem muito o que me mostrar.

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