O conflito de ideias na guerra entre Israel e Palestina

Ativistas israelenses e palestinos destrincham questões de causas do conflito árabe

Habitantes da Faixa de Gaza deixando as áreas devastadas (Foto: Pixabay)

Guerras no mundo árabe são frequentemente tratadas pela mídia nacional e internacional como disputas polarizadas – muitas vezes, ignorando sua complexidade. Não à toa, um dos conflitos mais significativos das últimas décadas permanece de difícil compreensão: é o travado entre Israel e o Estado da Palestina por parte de Jerusalém, pela Faixa de Gaza e pela Cisjordânia. A área palestina reivindicada, atualmente, é o agregado desses territórios – praticamente dentro de solo israelense.

Em linhas gerais, a Palestina afirma que há um país para seu povo; entretanto, as correntes filosóficas e políticas israelenses não aceitam essa ideia, pois acreditam que esse espaço deveria, por direito, pertencer ao país judeu. Dentro do jogo, ainda há outros atores mais complexos, como o Hamas e o Fatah – partidos e organizações militares que disputam o poder internamente no lado palestino.

O Estado da Palestina é reconhecido por praticamente todo o mundo islâmico e países asiáticos e africanos; na América Latina, o Brasil faz parte da maioria que entende a Palestina como nação. Na Europa Ocidental e na América do Norte, o entendimento é contrário.

Segundo o ativista palestino Jadallah Safa, o Estado de Israel foi criado para servir como uma espécie de distrito observatório gerenciado por França, Reino Unido e, principalmente, Estados Unidos. “Israel nasceu com os propósitos de causar guerra no Oriente Médio e tomar as terras que sempre foram da Palestina. O território que os israelenses têm é justamente a faixa de terra entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho, território esse designado depois do tratado pós-guerra árabe, em 1948”, explica.

“Essa área é muito importante porque, além da potência petrolífera da região existe a rota marítima comercial”, esclarece Jadallah.

Por outro lado, o ativista israelense e professor aposentado de História Eram Einbinder diz que a origem de seu país teve como foco realocar os judeus fugidos da Segunda Guerra Mundial, após anos da perseguição nazista.

“Somos um Estado criado como uma forma de dar uma vida digna à população judaica, que sofreu bastante com as grandes guerras. Hoje, lutamos pela retomada de um território previsto na Bíblia, a Terra Prometida – local indicado por Deus a Abraão, segundo o livro”, explica.

CONFLITO E DENÚNCIAS

Com apoio das maiores potências, Israel tem seu poderio militar superior aos palestinos, que têm poucos aliados oficiais: Qatar e Turquia. Entretanto, o massacre de civis na região é visto desde o início dos conflitos. Ao longo do século XXI, cerca de 98 mil pessoas já morreram; 85% das vítimas fatais são da Palestina.

Baseando-se em dados da Organização das Nações Unidas (ONU) de dezembro de 2017, Jadallah ressalta o que ele classifica como limpeza étnica na Faixa de Gaza: “Há um extermínio de palestinos em nossas próprias terras. Bombas são jogadas em áreas civis, sob o argumento de ser um ataque a núcleos terroristas”, denuncia.

“A partir do momento da ocupação israelense da cidade de Jerusalém foram emitidas muitas leis racistas: a lei de anexação de Jerusalém, a demarcação dos limites da cidade e a apropriação de terras palestinas com o intuito de construir assentamentos neles. Logo em seguida, houve a demolição de grande quantidade de casas e a construção do muro separatista racial, que confiscou milhares de acres.”

O ativista também denuncia o que considera o fim de um planejamento digno para a construção de casas aos palestinos na Jerusalém Oriental. Essas medidas, apontadas, teriam o propósito de forçá-los a deixar a cidade, direcionando o controle completo da cidade ao Estado de Israel.

Eram Einbinder faz um contraponto: reforça a ideia de que os ataques militares feitos à Palestina são específicos, diretos a núcleos terroristas, que, segundo ele, ameaçam a democracia local.

“Como se sabe, o terrorismo no Oriente Médio é muito grande, temos que combater isso de alguma maneira. Eles [Hamas, partido político considerado por diversas nações uma organização terrorista] reivindicam terras que divinamente e historicamente são nossas. Nosso governo tenta ao máximo evitar mortes de civis. De qualquer forma, Israel não pode deixar os rebeldes paladinos tomarem conta do que é nosso por direito.”

A BUSCA PELA PAZ

Com os dois lados ainda em combate diplomático e armado, Palestina e Israel ainda parecem longe de um acordo de paz. Entretanto, a pressão internacional por medidas definitivas está levando a ONU a intervir nessa guerra, seja pedindo para os israelenses abrirem a única rota terrestre comercial da Faixa de Gaza ou solicitando ao governo palestino que aborte a tentativa da retomada de Jerusalém. E de acordo com a professora de Relações Internacionais Fátima Youseff, a maior causa do atual conflito é o interesse dos Estados Unidos em dominar a região de forma indireta, com ajuda de Israel.

“Por mais que haja motivações religiosas para a guerra, é nítido que a economia daquela região é o maior foco do conflito. De um lado, Israel tem todo o suporte internacional para tomar suas decisões. Já do outro, a Palestina tenta conseguir seu espaço, reivindicando se tornar um país, e para isso conta com as ajudas de Turquia e Qatar, que são as únicas grandes e importantes nações apoiadoras dos palestinos. Esse apoio turco e qatari se dá muito pelo poder da região pedida pela Palestina em extrair petróleo. Traduzindo: os interesses são quase que exclusivamente econômicos.”

Contudo, israelenses e palestinos, apoiados pelas grandes potências, travam uma batalha socioeconômica que parece não ter fim.