Foto de Gabriel Abreu

Jesus Claudio voltou!

Jesus voltou! Isso, meu irmão Jesus Claudio, que estava morando em Israel havia mais de oito meses. Voltou sem uma perna, é bem verdade, mas pelo menos voltou. Mamãe orou muito para que as pessoas do mal de lá não o acertassem, mas não sei se a oração foi tão eficaz assim, porque ele acabou descuidando da segurança. Mas, Deus, segundo a tia Maiara, tem propósitos, e às vezes não compreendemos bem isso, até porque não temos a mente evoluída para saber que uma perna não faz tanta falta quando se está buscando a salvação do corpo todo, e da alma principalmente. Minha mãe sabia dos riscos, mas não apenas deixou como quis que Jesus Claudio fosse difundir a palavra na terra do Jesus original. Era esperado que ele voltasse logo, em menos de três meses, mas o pastor pediu para que ele ficasse mais um tempo em Tel Aviv e ele, obediente, aceitou.

Foi pouco antes de voltar para o Brasil que um homem, desses que o noticiário chama de “bomba”, explodiu dentro do ônibus em que ele estava, matou não sei quantos e levou a perna do meu irmão. Ele conta que sofreu bastante no início, mas que os judeus rapidamente o ajudaram. Minha mãe, claro, se assustou quando soube, mas logo interpretou o caso como sendo a maior das bênçãos, já que houve o livramento. Jesus foi bem tratado pela equipe médica e até tentou evangelizar algumas pessoas pelo caminho, mas acho que se confundiu no idioma, porque não levaram muito a sério suas propostas, o que de certa forma foi de se lamentar.

De qualquer modo, o importante é que Jesus voltou e que se habituou a andar com as muletas, um tanto manco, mas isso não quer dizer nada quando se está vivo. Assim que chegou, Jesus quis ir até sua loja de doces predileta, que por sinal vendia uma paçoca realmente boa, mas a tia Bernardina contou, até com grande prazer, que a Super Abelha havia se transformado na mais nova Avivamento da Luz do bairro, uma vertente pentecostal que meus tios frequentavam. A locadora de filmes em que ele pegava títulos como “A Incrível Fábrica de Chocolate” (o melhor dos filmes, segundo meu irmão) também havia acabado e dado lugar a uma farmácia com banco 24 horas dentro. Ele ficou frustrado de início com essas notícias, mas logo mamãe fez uma observação bastante inteligente: “Meu filho, esqueça essas coisas. O bairro agora está mais longe da diabetes e do mundo e mais perto de Deus!”. Fazia sentido: açúcar dava doenças e filmes não diziam muita coisa, enquanto que as farmácias ajudavam a curar as doenças e os cultos, as nossas almas.

As pessoas da igreja gostaram da volta do meu irmão, mas olhavam além da conta para ele e isso o incomodava bastante. Era Jesus, o mesmo Jesus de sempre que voltava, ora. Por sinal, nossa mãe adorava essa comparação santa, a de que o Messias estava por voltar e o nosso ente querido de mesmo nome já havia voltado. Mas os olhares incessantes irritaram Jesus a ponto de ele querer dispensar de vez as muletas para provar que conseguia se locomover ao saltos. A mãe ficou receosa, mas, logo que viu Jesus Claudio pulando com equilíbrio, aplaudiu e disse que era um milagre!

No primeiro culto que fomos, ele foi mesmo sem as muletas. A parte da calça vazia foi dobrada e ele estava bem elegante. Tudo desabou, porém, quando o filho da dona Raimundinha gritou “olha o Saci!” para o meu irmão. Minha mãe ficou indignada com aquilo! Como assim “Saci”?! Minha mãe não permitiu que seu filho fosse comparado com um ente demoníaco, até porque ela sempre o comparou com o incomparável Jesus mesmo, o filho do Todo Poderoso. Se não fosse com Jesus, que fosse com Josué, o super comandante que levou os israelitas à Terra Prometida (coincidentemente o nome do guia que levou os fiéis à Tel Aviv). A dona Raimundinha repreendia quem o ofendia, mas o apelido já havia ganhado projeção e todos acabaram associando meu irmão ao Saci mesmo.

Minha mãe ficou absolutamente transtornada com a situação. Precisou tomar calmantes (tia Maiara foi quem comprou os remédios na farmácia que agora ocupava o lugar da locadora). O seu Olavo, um servidor público, professor de História, vizinho que tinha grande carinho com a gente (embora nunca aceitasse os inúmeros convites da minha mãe para ir à igreja), vendo a situação desoladora, resolveu dar sua opinião. Disse que Saci não era demônio, que era apenas Monteiro Lobato. Eu confesso que já havia escutado esse nome e, por isso, acreditei que não era mesmo algo ruim, mas, para minha mãe, a situação se complicou: ela falou que o capeta tinha nomes bonitos também, como Lúcifer, um dos caídos. Não adiantou seu Olavo falar da menina que era uma boneca viva, de homem de milho, entre outras personagens, porque isso só contribuiu para aumentar a confusão na casa e, pior, fez com que minha mãe parasse de falar com o seu Olavo.

O que havia agora era uma profunda consternação. Minha mãe passou a orar mais e mais para que essa nuvem negra nos deixasse. O pastor sugeriu doações para uma prótese, porque admitiu que perna do meu irmão não voltaria com a oração. Muitos colaboraram, mas vendo que meu irmão se negava a aceitar a perna artificial, deram algum outro destino ao que foi arrecadado (não sei bem qual). O clima todo ficou mesmo constrangedor e muitos que eram amigos, ou conhecidos, passaram a evitar a nossa casa.

O único que nos visitava, quando minha mãe não estava em casa, era justamente o desafeto dela, o seu Olavo. Numa dessas, ele convidou meu irmão Jesus Claudio para uma ida ao seu sítio. Jesus ficou empolgado com a possibilidade do passeio e aceitou. Ele me contou que ficou maravilhado com a experiência de ficar um pouco em contato com os animais, com a natureza. No sítio, dentre outras coisas, viu até uma manjedoura, local onde seu xará ilustre ficara logo depois de nascido. Seu Olavo foi muito paciente e conversou sobre vários assuntos. Falou sobre fanatismos — e sobre como isso fazia com que homens optassem por virar bombas — , indicou filmes, mencionou livros e também falou sobre desenhos. Contou várias histórias, dentre elas a de pessoas que não existiriam no mundo real e que, por causa disso, eram “fantásticas”. Explicou com riqueza de detalhes o que seria o fabuloso sítio do Pica-pau amarelo.

Foi quando seu Olavo citou Saci, Dona Benta, Emília e como esses personagens eram importantes para o folclore do país. Que as crianças gostavam do negro que pulava em uma perna, fumava cachimbo e que de capeta nada tinha. Meu irmão ficou realmente impressionado com aquilo. Amava tudo o que o seu Olavo vinha contando, porque era uma nova versão de tudo o que ele aprendera a condenar, de tudo o que odiava. Seu Olavo dera até um livro do Monteiro Lobato pra ele, um livro bacana que eu também li. Depois disso, Jesus passou a ler outros livros. E amou cada viagem que fazia.

Minha mãe não soube de imediato dessa transformação. Foi só depois de umas semanas que Jesus falou com ela. Buscou abrir seus olhos para um entendimento diferente das coisas, entendimento, disse ele, que não queria anular o que ela já sabia, mas acrescentar.

- Acrescentar, o quê, Jesus Claudio? Mostrar o quê? Já sei do que você quer, porque o Senhor faz tudo com um propósito — e citou o versículo correspondente ao que disse.

Jesus falou de seu Olavo, do sítio que lhe foi apresentado, das belezas naturais e mesmo das ficcionais, de pessoas que viu e das histórias que ouviu por lá. Queria que ela acreditasse nele, mesmo naquilo que parecia ser impossível crer. Já que ela acreditava em Deus, também poderia acreditar na Cuca. Foi o estopim. Aquele noite foi de uma gritaria, uma discussão, um desentendimento que parecia não ter fim.

- Eu achei que meu Jesus Claudio tinha voltado, mas quem voltou foi outra pessoa! — ela gritava.

Jesus, claro, não queria brigar com mamãe. Ele não queria, com o que dizia, que ela mudasse, ou, se queria, ele não deixou isso claro para mim. Mas, ele próprio mudou, ou estava mudando. Não digo nem que voltou a ser o que era, porque essa foi sua primeira vinda, falo no campo espiritual. A vinda de um Jesus diferente, com argumentos que nem eu conhecia. A culpa de tudo poderia ser do seu Olavo, a quem minha mãe chamava de Barnabé, um funcionariozinho qualquer do Estado, professor sem renome, mas eu acho que nenhum homem poderia mudar Jesus assim tão rápida e profundamente.

Jesus falou que não poderia ser confundido com o Filho do Salvador, mesmo que minha mãe assim entendesse por causa do nome de batismo. Que ele era apenas um negro, agora aleijado, um manco bem de acordo com o que seu nome sugeria, já que, como descobrira após leituras variadas, claudio significava coxo. Se ele era algum tipo de herói, estava mais para Saci mesmo, o personagem infantil sem perna que fazia crianças sorrirem. E isso não o incomodava mais. Aliás, passou a gostar de ser associado a uma figura cultural importante e que nada tinha de diabólico.

Minha mãe estava alterada demais para entender aquilo, entender qualquer coisa que saísse do contexto religioso. Quando isso acontecia, ela se via perdida e tudo ela atacava, pois tudo passava a ser mundano e pecador. E seu Olavo, dentro dessa visão, o pior dos homens. Teve vontade de explodi-lo.

Enfim, quase já amanhecendo, Jesus pediu para que mamãe se acalmasse e que orasse. Que orasse muito, ajoelhada como ela fazia, porque ele iria orar também. Eu, de longe olhava aquilo tudo, sem sono, confuso, desconfiado, e foi só quando Jesus a orientou nesse sentido, de orar, que vi que, então, ele voltava a ser quem era, mas com um algo a mais que não sei bem explicar. O certo é que a paz voltava, mais pela tolerância e repentina capacidade de discernir de Jesus do que por minha mãe, que era irredutível em suas considerações, que sempre fora e que, para ela e para todos, era melhor assim.

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