algum pequeno oásis de fatalidade perdido num deserto de erros

Frequentemente meus trabalhos nascem de uma espécie de impulso arquivista: coletar, compilar, reordenar, catalogar. Não por acaso esse mesmo conjunto de procedimentos operatórios constituem também as raízes da pesquisa aqui apresentada. O projeto que pode ser descrito cruamente como uma espécie de “arqueologia de Hard Disks”, acabou apropriando seu nome de uma passagem de William Wilson, conto investigativo de Edgar Allan Poe, no qual o personagem relata: “Desejaria que descobrissem para mim, entre os pormenores que estou a ponto de relatar, algum pequeno oásis de fatalidade, perdido num deserto de erros”.

Meu processo de coleta que antes se concentrava em buscas por feiras das pulgas, hoje se localiza em galpões de reciclagem de lixo eletrônico, sejam esses em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, ou Lagos, na Nigéria (destino do lixo tecnológico dos países desenvolvidos). É lá que se materializa a obsolescência programada — toneladas de material tecnológico descartadas como sucata. Entre tantas peças, minha busca se restringe aos discos rígidos, componente da informática responsável pelo armazenamento de dados como fotos, vídeos, música e textos. Eles são adquiridos por seu valor físico, seu peso bruto, entre R$ 3,00 e R$ 4,00 o quilo. A cada saída de campo realizada, os novos HDs passam a integrar meu catálogo (inventário/investigação) que os separa por local de compra, número da saída de campo e resultado do seu teste de leitura, momento no qual um software de recuperação de dados extrai seu conteúdo latente (etiqueta verde para os discos dos quais foi possível a recuperação de dados e vermelha para os que não). Aqui emergem os pequenos oásis de fatalidade perdidos entre desertos de erros: fotografias e vídeos de férias, celebrações, nascimentos, ritos dos mais diversos, além de pornografia, músicas, textos, documentos, a vida digital do mundo contemporâneo. Dar algum sentido a esse mar de imagens antes perdidas talvez seja, como descrito pelo historiador italiano Carlo Ginzburg, meu elo com algum instinto de caça já que “o caçador teria sido o primeiro a “narrar uma história” pois era o único capaz de ler, nas pistas mudas (se não imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série coerente de eventos”.

O processo começa nos galpões de reciclagem de lixo eletrônico, onde me instaldo em busca de HDs recuperáveis.
Na sequência os discos são levados ao estúdio para serem documentados e classificados.

Depois de dois anos criando a atual coleção com mais de 100 discos rígidos recuperados, começo a materializar narrativas visuais em forma de jogos, interfaces e diferentes experimentos em processos colaborativos que envolvem outros fotógrafos, artistas, músicos e programadores.

Solitaire é um dos “3 jogos de azar” que estão atualmente em processo de finalização. O deck completo de 32 imagens pode ser acessado em leocaobelli.art.br. Nele uma imagem puxa a outra formando pares, trincas e quadras visuais, arranjos que vão da aparição da imagem digital recuperada, para seu encontro em fundos de tela ou paredes de quartos.

Palamedes #1, outro componente da trilogia de jogos, é uma interface acionada por uma controladora midi que ativa um conjunto de 16 mil imagens recuperadas de 16 discos rígidos. O usuário pode navegar por 15 palavras-chave agrupadoras como festas, selfies, animais, praias, casas… ou interagir com as 16.000 fotografias.

O terceiro jogo será um deck composto pelos 22 arcanos maiores do Tarot de Marselha. O baralho está em fase final de edição e impressão.